Mais do que mitigar e preservar o meio ambiente, é necessário regenerá-lo e mudarmos o modo como nos relacionamos com ele. Este foi o mote dos diálogos que compuseram o segundo dia do evento Encontros Bongola 2025: Raça, Clima e Futuros Possíveis.
Com realização da Plataforma Ancestralidades, iniciativa cogerida por Itaú Cultural e Fundação Tide Setubal na promoção de saberes ancestrais afro-brasileiros, o evento colocou em pauta reflexões e trocas sobre as intersecções entre questões raciais, mudanças climáticas e novos - e inclusivos - horizontes para o futuro.
A atividade contou com a exibição do documentário ‘Regenerar: Caminhos Possíveis em um Planeta Machucado’. Com direção de Maria Clara Parente, que é também corroteirista do projeto, o filme é dividido em três partes que passam, respectivamente, por morte, sonho e vida. A partir desse tripé temático, a obra contém entrevistas feitas entre 2020 e 2021 com especialistas de diversas áreas do conhecimento.
Após a exibição do documentário, o debate sobre a obra e a busca por caminhos possíveis com a preservação ambiental - ou regeneração, para dialogar com o tema - contou com presenças de Maria Clara Parente e de:
- Ana Clara Cenamo, psicóloga, geógrafa e produtora executiva, fundadora da Spanda Produtora;
- Aza Njeri (Viviane Moraes), doutora em Literaturas Africanas e docente do Departamento de Letras e Artes da Cena da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), no Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade;
- Bayo Akomolafe, psicólogo clínico e escritor iorubá, fundador da The Emergence Network e curador do programa internacional We Will Dance with Mountains, autor dos livros ‘These Wilds Beyond Our Fences’ e ‘We Will Tell Our Own Story’ e colaborador do Projeto Regenerar.
Tecnologias contracoloniais e soberania do Sul Global
Ao comentar sobre o mote do documentário ‘Regenerar: Caminhos Possíveis em um Planeta Machucado’ e a sua perspectiva sobre transformação de paradigmas na relação do ser humano com o meio ambiente, Bayo Akomolafe falou sobre a perspectiva de cosmovisões para além da eurocêntrica para a proposição de novos caminhos e alternativas.
Nesse sentido, o filósofo nigeriano destacou a relação afrodiaspórica com o Brasil - que abrange visitas periódicas ao país - e a sua relação com a nossa terra. “Continuo a vir a este país maravilhoso, pois vocês estão com todos os meus deuses e orixás. Eles vivem aqui agora.” Ao falar sobre a relação dos orixás com o país, Akomolafe destacou que, “uma vez que os orixás estão aqui, os novos deuses da pós-modernidade e do pós-pós-modernismo estão aqui. E é o nosso trabalho e a nossa vez de conviver e jogar com eles.”
Ao falar sobre a relação com o Brasil e perspectivas para além das eurocêntricas, Bayo Akomolafe falou sobre o fato de o país ter, na sua percepção, tecnologias que são muito ricas, diversas e poderosas. Essa afirmação teve como objetivo reforçar que “precisamos de algo além da revolução” para encontrar novos paradigmas para a relação do homem com o meio ambiente.
Essa dinâmica diz respeito a criar também respostas e estratégias para ressignificar a lógica segundo a qual populações e países do Sul Global não são desenvolvidos o bastante. Nesse sentido, é necessário devolver tais percepções com novas tecnologias - ancestrais e decoloniais - como contraponto ao status quo. “Se eles tentarem te diminuir e dizer que vocês não são bons cidadãos ou que vocês deveriam ser racializados, vocês deverão contra-atacar com algo novo e que eles nunca terão visto antes. Isso é negociar e dançar com barulho.”
"A escola deveria ser um lugar que pudesse ‘nutrir’ a gaveta das nossas memórias com informações que, diante do ‘pluriproblema’ do existir da vida, pudéssemos abrir a gaveta e tirar a resolução que nos permitirá ficar vivos." (Aza Njeri)
Agir coletivamente para além de reformar
Durante a sua participação no diálogo, Aza Njeri falou sobre o risco de projetos para a proposição de alternativas e caminhos para a preservação ambiental resumirem-se a iniciativas performáticas - ou seja, sem efeito prático transformador. E essa abordagem dialoga com o saldo de eventos como a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30), que ocorrerá em novembro, em Belém (PA), uma vez que tais eventos foram idealizados e desenvolvidos sob essa perspectiva.
Logo, os impactos socioambientais resultantes da organização do evento não serão levados em conta. Idem o legado que a COP 30 poderia deixar para a cidade de Belém. “Então falaremos sobre saneamento básico, políticas ambientais e mudanças de entendimento, sendo que a própria coletividade mobilizada para pensar nessas condições causará um impacto ambiental desestruturante em relação àquele ecossistema.”
Em paralelo, pode-se considerar que a perspectiva da performance em detrimento da busca por transformações reais reflete também o papel da educação no desenvolvimento e na formação de crianças e adolescentes. Para Aza Njeri, “a escola deveria ser um lugar que pudesse ‘nutrir’ a gaveta das nossas memórias com informações que, diante do ‘pluriproblema’ do existir da vida, pudéssemos abrir a gaveta e tirar a resolução que nos permitirá ficar vivos.”
Por fim, a doutora em Literaturas Africanas e docente do Departamento de Letras e Artes da Cena da PUC-Rio considera que a educação tem papel estratégico, por definição, para apresentar perspectivas para além da colonialidade e da abordagem eurocêntrica. “Nós vamos à escola para ficar plena e integralmente vivos, e sem negociar em nenhum momento a nossa humanidade. Isso porque a nossa humanidade não tem recorte, não tem exceção e não tem porém. Esse é o papel da escola e da educação: trata-se de uma conduta contracolonial.”
Saiba mais
Confira o relato sobre o debate que deu o tom dos Seminários Bongola: Raça, Clima e Futuros Possíveis. Confira também a íntegra dos diálogos que compuseram os Seminários Bongola: Raça, Clima e Futuros Possíveis.
Por fim, assista ao documentário ‘Regenerar: Caminhos Possíveis em um Planeta Machucado’ na plataforma Itaú Cultural Play.