Foram necessários 128 anos para a Academia Brasileira de Letras (ABL) promover uma reparação histórica e, de modo simbólico, encarar uma das suas maiores máculas: nunca ter tido uma mulher negra no seu rol de personalidades imortais.
A espera acabou, pois. Ana Maria Gonçalves, autora do best-seller ‘Um Defeito de Cor’ e conselheira da Plataforma Ancestralidades, tornou-se uma imortal da ABL em 10 de julho.
A ABL a escolheu para ocupar a cadeira n° 33, em cujo espaço esteve anteriormente o gramático e filólogo Evanildo Bechara.
De acordo com reportagem do portal G1, Ana Maria Gonçalves obteve 30 votos para fazer parte da academia, seguida pela professora, escritora e ativista indígena Eliane Potiguara. Concorreram também com elas outras 11 figuras de referência em diversos segmentos acadêmicos e intelectuais.
Pluralidade e inclusão
Para além do simbolismo de tornar-se a primeira mulher negra a ser escolhida para a Academia Brasileira de Letras desde a sua fundação, a eleição de Ana Maria Gonçalves traz à tona outra carga emblemática.
A escolha da escritora mostra que a ABL tem se aberto, mesmo em ritmo ainda não plenamente condizente com os das transformações sociais e étnico-raciais visíveis no Brasil, a novas visões de mundo que transcendem aquelas consideradas como padrões e hegemônicas.
Em entrevista à Folha de S.Paulo após o anúncio, a escritora destacou, ao falar sobre a abertura à influência de populações africanas e indígenas no modo como se fala a língua portuguesa no Brasil, a abertura da instituição para novos públicos.
"Pensei que posso levar para a ABL um público leitor que não se via representado, ainda, em grande parte da literatura que se produz lá dentro. Tenho muita vontade de agir institucionalmente em prol de novos escritores e novas tecnologias de saber, incorporando a oralidade e a escrevivência, por exemplo, que são modos muito nossos de fazer literatura", reforçou, em declaração ao mesmo jornal.
Ancestralidade e próximas páginas
A afirmação de Ana Maria Gonçalves sobre abrir e ocupar espaços simbólicos e de poder para grupos historicamente colocados à margem, inclusive ao recorrer ao conceito de escrevivência, criado pela escritora Conceição Evaristo - que, inclusive, não fora escolhida para compor a ABL em 2018 -, dialoga com a valorização da ancestralidade.
À época do lançamento da Plataforma Ancestralidades, em novembro de 2021, a escritora - e agora imortal da Academia Brasileira de Letras - destacou a relação entre ancestralidade e preservação da memória coletiva:
“Ancestralidade é um acontecimento originário que comporta e expande a ideia de memória e experiência compartilhada por um grupo. É princípio norteador, é atualização de um jeito particular de ordenar o real, o mundo, os acontecimentos passados, presentes e futuros. Ancestralidade é atualização e expansão da memória e da experiência de um grupo.”
Que a eleição de Ana Maria Gonçalves para a ABL represente um jeito particular - e novo - de espaços de poder, seja em âmbitos simbólico ou concreto. Que represente, enfim, a expansão da memória e da experiência da população brasileira e de todos os grupos historicamente excluídos, silenciados e invisibilizados.