Durante o Festival Kwanzaa-Escrevivência, um dos pontos de destaque correspondeu à dinâmica educacional - no caso, por meio da roda de conversa Escrevivência em sala de aula e a formação docente. Com mediação de Juliana Yade, coordenadora de Educação Infantil do Itaú Social, mestre e doutora em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFCE), a mesa contou com participações de:
- Fátima Santana Santos, mestra em Ensino das Relações Étnico-Raciais pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e integrante do grupo de pesquisa Lêtera Negra (UFSB) e da Rede de Etnoeducadores (UNIRIO/RJ);
- Alan Alves Brito, mestre e doutor em ciências pela Universidade de São Paulo, (USP), com estágios de pós-doutorado no Chile e na Austrália, e Professor no Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS);
- Allan Santos da Rosa, escritor, historiador, mestre e doutor em Imaginário, Cultura e Educação pela USP.
Durante sua fala, Allan Santos da Rosa promoveu reflexões, por meio das aulas de capoeira com seus alunos, sobre pontos pertinentes e de atenção a respeito da representatividade - e como a pauta antirracista, inclusive na educação, pode se tornar menos efetiva dependendo da abordagem aplicada. Idem sobre o risco de reificação de temas estruturantes e que desafiem o status quo social.
“Se viver é imaginar e escrever é lidar com linguagem e imaginação, o quanto limitamos, seja para as nossas personagens ou autoras, a sua fortaleza estética, suas coceiras e enigmas para que elas tenham um poder ou fruto pseudopedagógico ou politizante? Para mim, não há nada mais politizante do que um sorriso negro”, destaca, ao falar sobre táticas de resistência da população afro-brasileira.
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“Muitas pessoas questionam sobre a conexão entre pensar literatura, escrevivência e luta antirracista na área das ciências exatas, em que se trabalha e articula o tempo todo com a ideia de que as ciências são construções humanas - mas sem questionar quais humanidades são colocadas.”
Metodologia, escrevivência e protagonismo
Fátima Santana Santos apresentou um projeto multidisciplinar codesenvolvido e coimplementado por ela e demais professoras negras em Lauro de Freitas (BA) com crianças no ambiente escolar. No caso, trata-se de etnometodologias em caráter multidisciplinar - ou seja, eixos de atuação em áreas diversas com base no marcador racial. “Percebemos que a nossa prática é fundamentada em saberes e fazeres com o movimento negro, ou a partir daqueles que foram construídos com avós, mães, bisavós ou em terreiros de candomblé.”
Nesse sentido, os etnométodos contemplam aspectos como afroafetos, que focam em atividades, vivências e infâncias; e em afroambientes como ação política, curricular e de aprendizagens - de acordo com Fátima, “uma escola que tem perspectiva afroambiental é uma ação política em que se dialoga com as crianças e suas famílias. Há também a criança enquanto agente curricular: nesse caso, as crianças são curriculantes, logo, o currículo não deve ser feito para elas, mas com elas.”
Ainda, um dos pontos passa pela perspectiva estética, especificamente pela corporeidade e pelo cabelo, pelo fato de se tratar de um ponto de tensionamento nas infâncias - o foco é fomentar a autoestima de cidadãs e cidadãos em desenvolvimento. Outros eixos passam pela oralidade ancestral, por meio de diálogos com pais, avós e demais parentes, e a relação com a natureza. “Há também o pensar, o fazer e refazer pedagógico como prática coletiva, pois formação a partir de perspectiva antirracista nas infâncias é muito importante”, pondera.
Pela ciência decolonial e escrevivida
Em sua exposição, Alan Alves Brito destacou como o projeto educacional, dentro da perspectiva da escrevivência, precisa ser antirracista em sua essência. Para tanto, ele destacou a sua área de atuação, marcada ainda pela resistência à produção acadêmica decolonial.
“Muitas pessoas questionam sobre a conexão entre pensar literatura, escrevivência e luta antirracista na área das ciências exatas, em que se trabalha e articula o tempo todo com a ideia de que as ciências são construções humanas - mas sem questionar quais humanidades são colocadas”, pondera.
Dentro dessa lógica, Alan Alves Brito busca fomentar e desenvolver perspectivas para a divulgação científica a partir do marcador antirracista. E esse é o fio condutor para conectar-se com a literatura, com a escrevivência para, entre outras ações, possibilitar a existência de caminhos possíveis para a formação de docentes nas universidades.
“Não dá para pensarmos em um projeto de educação antirracista e a sua articulação com as escrevivências sem pensarmos nas formações inicial e continuada em todas as áreas de conhecimento”, completa.