Foto: Tiago Ribeiro
A chegada aos 80 anos de um gênio do tamanho de Gilberto Gil causa a sensação de que ele fez de tudo e sua incrível obra está completa. Mas, paradoxalmente, ele tem muito para compartilhar com a humanidade.
Por mais contraditório que possa parecer, ao mesmo tempo em que todas as homenagens a Gil são mais do que bem-vindas e necessárias, elas passarão longe de alcançar o patamar necessário para reconhecer a grandiosidade do que o artista representa.
Falar da riqueza, da beleza e da incontestável qualidade de sua obra é um notório lugar-comum. Isso sem contar que o seu trabalho é, em múltiplas perspectivas, uma metonímia da riqueza e da pluralidade sociocultural e política que compõem a expressão de um Brasil diverso, civilizado e com o melhor do soft power que ainda faz o país ser admirado no exterior. E isso tudo a ponto de a sua trajetória ter direito a até mesmo um álbum que passou décadas perdido - o qual foi recentemente disponibilizado.
Coincidência ou não, isso tudo é fruto de uma personalidade que parece ter passado por inúmeras encarnações na mesma vida: ícone de uma geração criativa e intelectualmente rica, que ajudou a revolucionar a compreensão sobre cultura e a música brasileira em sentido lato; voz dissonante em meio à ditadura civil-militar (1964-1985) a ponto de precisar exilar-se fora do Brasil; ministro da Cultura na esfera federal, com direito à adoção de iniciativas voltadas à democratização do acesso à cultura e à informação e à quebra do protocolo em plena Organização das Nações Unidas (ONU), mostrando o melhor do nosso soft power cultural. Até punk da periferia Gilberto Gil já foi.
Tudo isso transforma Gilberto Gil em um imortal, seja pela magnitude de sua vida e obra, seja pela sua entrada na Academia Brasileira de Letras (ABL) - é a instituição que se torna maior graças ao seu ingresso, diga-se.
Em resumo: mais do que ser uma lenda viva, Gil é um ancestral vivo. Todos os aplausos e o reconhecimento à sua trajetória e ao que ele representa para a população brasileira, em especial para a afro-brasileira e para artistas e lideranças para quem ele é uma das inspirações incontestáveis, está longe de ser o bastante. Apreciar o trabalho de Gilberto Gil é um estado de espírito.
O que nos resta é agradecer a tudo o que Gilberto Gil fez - e fará - e o que ele representa para a cultura e a população brasileira.