Mais do que resistir, ensinar que toda forma de opressão precisa ser combatida. Estes são os ensinamentos de Zumbi (1655-1695) e de Dandara dos Palmares (1654-1694) na luta contra a estrutura escravocrata do Brasil Colônia - cujo exemplo emblemático foi a Guerra dos Palmares (1605-1694). Este é o objetivo do mapa interativo sobre Zumbi dos Palmares criado dentro do jogo Fortnite, da Epic Games, por meio de parceria entre a Plataforma PretaHub e a Salve! Games.
A dinâmica do mapa interativo criado dentro do jogo possibilita defender o território contra ataques de elementos invasores. As possibilidades para bloquear tais tentativas passam pelo uso de armas como arco-e-flecha e fuzis, além de elementos estéticos e narrativos que são marcas registradas em Fortnite.
Nesse sentido, o mapa de Zumbi dos Palmares dentro do jogo tem como objetivo, dentro da lógica segundo a qual é necessário conhecer o passado para construir o futuro, manter o legado histórico da história do Quilombo dos Palmares e mostrar que apresentar esse episódio para as gerações futuras se trata de uma tarefa constante.
“O game faz isso em um cenário no qual não há games como o nosso, não apenas desenvolvido por pessoas negras e periféricas, mas que apresenta um território essencial para as lutas rumo a liberdade do povo negro. Há muitas histórias ainda para serem contadas na perspectiva negra, indígena e quilombola”, destaca Juliana Gonçalves, gestora do projeto Bioma Comunicação Ancestral (PretaHub).
Desenvolvendo fase por fase
A fase inicial do jogo com temática afro-brasileira já era um desejo de Adriana Barbosa, CEO da PretaHub e presidente do Instituto Feira Preta, e Alexandre de Maio, diretor da Salve! Games - no caso, com mote dentro do qual a temática racial aparecesse de modo atrativo e inovador. Nesse sentido, a percepção de que as novas gerações pouco ou nada conheciam sobre a história de resistência de Palmares era, em que pese o trabalho do movimento negro nas súltias décadas, latente.
“A possibilidade de apresentar o Quilombo dos Palmares e sugerir sua defesa dos invasores em um jogo de múltiplos players foi visto como algo positivo pela Epic Games. A Salve! fez um trabalho de pesquisa histórica e imersão indo até o território, que hoje se chama Parque Nacional de Palmares, para transportar elementos gráficos e históricos para o game”, descreve Juliana Gonçalves.
Ainda nesse contexto, Alexandre de Maio destaca etapas do processo de desenvolvimento do jogo, que contemplaram, entre outros passos, visitas a Palmares e contratações de historiadores, roteiristas e atores locais para construir a premissa.
“Vieram, posteriormente, a fase de produção do games e pensar o gameplay - o que ajuda a contar o storytelling decolonial que queríamos. A jogabilidade, ao defender um território, casa com a história de Palmares e o nosso desejo de colocar as pessoas do outro lado da história. No mundo dos games, a gameplay conta também muito da história que você quer contar”, destaca o diretor da Salve! Games.
A dinâmica do jogo contemplou também, em seu desenvolvimento, lógica segundo a qual a dificuldade para a defesa do território e as etapas que o compõem contemplarem o tempo e os percalços que a população de Palmares levou para defendê-lo. “O modo de jogo e a dificuldade são partes do jeito de se contar histórias no mundo dos games. A nossa escolha foi colocar a pessoa na pele de quem tinha de defender o seu território para fazer as pessoas se perguntarem por que, após tantos anos, a história do nosso principal herói está sendo apagada”, pondera de Maio.
“O modo de jogo e a dificuldade são partes do jeito de se contar histórias no mundo dos games. A nossa escolha foi colocar a pessoa na pele de quem tinha de defender o seu território para fazer as pessoas se perguntarem por que, após tantos anos, a história do nosso principal herói está sendo apagada”, pondera Alexandre de Maio.
Sobre o mercado e o país
Pode-se dizer, sem exageros, que o Brasil tem uma das maiores populações gamers do mundo. Para se ter uma ideia, o país tem a terceira maior população de pessoas jogadoras no mundo. Ainda, segundo a Pesquisa Gamer Brasil 2024, mais da metade de quem consome jogos online no país é composta por pessoas negras e mulheres - sem contar que uma parcela expressiva de pessoas das classes C, D e E está nesse segmento. Todavia, elas não se veem representadas em games.
“Há muitas histórias negras, quilombolas, indígenas e periféricas para se contar. O jogo Zumbi do Palmares é um ganho para a produção brasileira, uma vez que conta parte apagada da nossa história”, detalha a gestora do projeto Bioma Comunicação Ancestral.
Dentro dessa lógica, o potencial, em âmbitos narrativo e criativo, mostra um campo importante para se desenvolver. Um aspecto emblemático abrange o fato de o país estar entre os dez maiores mercados gamers do mundo - isso ressalta que há, sim, demanda para histórias contra-hegemônicas. Basta dizer que, desde o lançamento, o mapa de Zumbi dos Palmares dentro de Fortnite computou mais de 3.500 partidas, além do recorde de 1.700 pessoas jogando simultaneamente, em escala global, em 8 de junho.
“A ideia foi usar o poder de engajamento dos games para destacar fatos esquecidos ou pouco lembrados da nossa história, que ajudam a entender nossa identidade. Na nossa esmagadora maioria, não somos descendentes de europeus que exploraram o Brasil: descendemos dessa luta que, após o fim de Palmares, ainda teve de batalhar por liberdade e justiça até os dias de hoje”, reforça Alexandre de Maio.
“Nada sobre nós sem nós”
A frase usada como subtítulo desta seção da reportagem sobre o jogo a respeito de Zumbi dos Palmares em Fortnite expressa uma lógica cara às populações negras, indígenas e quilombolas - no caso, que visa garantir a profundidade e a complexidade de conteúdos que norteiam tais games. Assim sendo, o desenvolvimento do jogo contou com equipe negra e periférica atenta à importância histórica de desenvolver narrativas com esse teor.
“Ter pessoas negras que, além de suas vivências, letraram-se racialmente foi essencial para traduzir um cenário complexo em narrativas onde se conta a história na perspectiva de habitantes do território invadido”, pondera Juliana Gonçalves. “Se a história oficial por séculos louvou a destruição de Palmares pela perspectiva do colonizador, convidamos os jogadores a defenderem Palmares. Houve muitos cuidados narrativos para, de forma simples, revelar que defender o território significava defender a liberdade das pessoas daquele espaço.”
Tais aspectos dentro do jogo permitem, enfim, que o mapa de Zumbi dos Palmares dentro de Fortnite funcione, ao mesmo tempo, como produto de entretenimento e instrumento pedagógico sobre um capítulo fundamental da história brasileira.
“Referências no nosso imaginário de elementos culturais nossos são construídas - não se trata somente do simples consumo de ideias e estéticas de outros países. Isso inspira também que outras pessoas produzam games com essas temáticas e vejam neles uma alternativa de produção de conteúdo e entretenimento de qualidade”, finaliza Alexandre de Maio.
Para dar play
Procure, após baixar e instalar o jogo Fortnite, por “Quilombo dos Palmares” ou pelo código 6696-5695-8858 para divertir-se com o mapa de Zumbi dos Palmares.
Por fim, Fortnite está disponível para download gratuito para computadores com sistema operacional Windows e para os seguintes consoles: PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch. O jogo pode ser baixado também, em formato mobile, em smartphones com sistemas Android e iOS (iPhone).