O território tem papel central para pesquisas dentro do segundo eixo do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 - Ciências e Tecnologias em Perspectiva com os Saberes Afro-Brasileiros, primeiro edital da Plataforma Ancestralidades voltado ao apoio à produção acadêmica de pesquisadoras/es negras/os sobre os múltiplos saberes afro-brasileiros.
Por meio da categoria Desenvolvimento territorial, regeneração ambiental, ecologia e revitalização urbana e rural, as pesquisas apresentadas nessa categoria tiveram, na maioria dos casos, recorrência de tópicos que abrangeram conceitos sobre territórios e quilombos.
Dentro da perspectiva territorial, duas abordagens podem ser destacadas: uma sobre a periferia, por aproximar-se da gestão do espaço como tecnologias de sobrevivência/empreendedorismo; e a etnobotânica, que é associada à manutenção e disseminação de saberes ancestrais/tradicionais sobre agricultura, segurança alimentar e quintais urbanos.
Confira a seguir mais detalhes sobre os seis projetos relativos a este eixo:
Erica Portilho, autora de Escola cosmorgânica e medicina tradicional afropindorâmica (RJ) - pesquisa em andamento
Há milhões de anos, os seres humanos desenvolvem tecnologias agrícolas e de domesticação e criação de animais. Como continente geográfico e geneticamente mais antigo do planeta, a África é o berço de tais tecnologias. De Kush a Kemet, dos Impérios Mandinga e Ashanti, passeamos por berços que inventaram a irrigação, tecnologias sustentáveis para manejo do solo e da água, respeito à Grande-Mãe Natureza e uma relação de equilíbrio entre seres humanos e Natureza.
No Brasil, sequestradas para ser escravizadas no país, as populações em diáspora trouxeram, nos porões dos navios, sementes e tecnologias de poli e monoculturas que tornaram o Brasil uma rica nação às custas do sangue e sofrimento das pessoas escravizadas e de seus saberes agrícolas ancestrais. As mulheres afro-brasileiras, herdeiras desse legado, têm mantido vivos os saberes ancestrais africanos e indígenas sobre a agricultura cosmorgânica e a medicina tradicional e integrativa. Ambas interrelacionadas, agregam saberes tradicionais que vão dos conhecimentos climáticos e geológicos aos saberes biológicos e botânicos.
A floresta, de propriedade dos povos originários, integrando saberes afroindígenas, oferece uma verdadeira farmácia viva e acessível ao cuidado da saúde física e mental de pessoas em desequilíbrio energético/psíquico/espiritual, que reflete no corpo, doenças e transtornos causados pelo frenesi da modernidade. E onde estão esses saberes? Como é possível usar a TI para difundir esses conhecimentos?
Andréia Regina Silva Cabral Libório, autora de Mulheres quilombolas luta, resistência: a cultura tradicional no Quilombo Peropava (SP) - pesquisa em andamento
Idealizado a partir da necessidade de valorizar o trabalho artesanal das mulheres quilombolas de Peropava, o projeto apresenta imensa relevância social, cultural e sustentável, pois visa incentivar a comunidade quilombola, especialmente as mulheres que desenvolvem os produtos da alimentação tradicional, na sociedade por meio da valorização e divulgação dessa cultura secular que passa de geração para geração.
O projeto tem como objetivo possibilitar o fortalecimento da cultura quilombola e propiciar a divulgação da cultura local e da alimentação tradicional para as demais regiões. De acordo com a Fundação Cultural Palmares (FCP), há cerca de 5 mil comunidades quilombolas no Brasil, sendo que no até 2020, 3,5 mil haviam recebido o certificado de reconhecimento pela FCP.
A comunidade, apesar de ter recebido o reconhecimento pelo Estado, ainda não possui a titulação de suas terras, o que dificulta o seu acesso a diversas políticas públicas - ademais ainda é pouco conhecida, sobretudo no município de Registro (SP). Conforme estabelece o Decreto n.º 6.040, de 7 de fevereiro de 2007, os “territórios tradicionais”, além de serem espaços cruciais para o desenvolvimento social e econômico dos povos e comunidades tradicionais, são também imprescindíveis à “reprodução cultural”.
Luar Vieira Santos, autora de Paisagens Negras: espaço, tempo e relações em Águas Claras-Salvador/BA (BA) - pesquisa em andamento
Foi durante o processo investigativo iniciado no trabalho final de graduação, intitulado Parque Municipal Águas Claras: Preservação e Inclusão Social, realizado em 2018 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFBA, com foco em (re)constituir as paisagens por meio da arquitetura, do urbanismo e do paisagismo social, que o interesse pelo conceito de paisagem construía suas noções de entendimento, derivando, na pesquisa de mestrado Paisagens Negras: espaço, tempo e relações em Águas Claras-Salvador/BA, em desenvolvimento pela proponente e ex-moradora do bairro.
Percebe-se então, que a apreensão das paisagens têm interpretações polissêmicas, atravessadas pelas especificidades da(e) corpa(e), do lugar e do cosmos, logo, que é ressignificada por meio dos recortes de raça, classe e gênero e suas relações no tempo e espaço. Por isso, esta produção trará características da escrita negra e feminina, por vezes autoetnografica, introduzindo, a partir de histórias, um caráter transcendente, ficcionando a realidade, apropriando-se de linguagens negras para constituir a própria episteme.
Apreendendo as paisagens negras invisibilizadas e apagadas historicamente, as movimentações tentam (re)construir / (re)constituir coletivamente e comunicar propostas e adequações feitas por habitantes das margens, analisando criticamente o território de Águas Claras e como o planejamento urbano excludente interfere nas relações e práticas socioespaciais e ambientais.