Theodoro Sampaio
1855 - 1937
Theodoro Fernandes Sampaio (Santo Amaro da Purificação, Bahia, 1855 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1937). Um dos mais importantes engenheiros brasileiros, atua nas grandes expedições científicas de exploração e reconhecimento do território nacional, financiadas pela Coroa portuguesa, e no trabalho de construção da infraestrutura urbana e rural, empenho que caracteriza o esforço de modernização e integração do Estado brasileiro no final do século XIX e início do XX.
Descrito como cientista, viajante naturalista e romântico, Theodoro Sampaio é conhecido por seus inúmeros talentos. Habilidoso desenhista, deixa legado importante como cartógrafo e observador das paisagens e populações do sertão. Formado em engenharia civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde ingressa em 1871, em seus trabalhos desempenha função de geógrafo, etnólogo, historiador, linguista, planejador urbano e sanitarista, fazendo jus à ampla formação recebida, como outros de sua geração.
Nascido em 1855 no engenho Canabrava, no coração do recôncavo baiano dos grandes senhores de terras e de escravizados, é filho de Deolinda Paixão Carmo, a quem descreveu em texto autobiográfico como uma mulher “preta” e “de notável beleza da sua raça”. Não se sabe se, quando veio ao mundo, Deolinda era liberta ou ainda cativa. Mais imprecisas são as declarações sobre seu pai, a quem se refere como “branco e homem culto de uma família de lavradores”, sem revelar, entretanto, sua identidade. Não há consenso se é filho do proprietário do Canabrava, Manoel Lopes da Costa Pinto (1809-1899), o visconde de Aramaré, ou de Manoel Fernandes Lopes, padre que o leva da Bahia à Corte, aos 10 anos, para iniciar seus estudos. O fato é que no Rio de Janeiro, valendo-se da proteção da influente família Costa Pinto, forma-se engenheiro em 1877. Sobre os anos que passa na Politécnica, destaca orgulhoso o convívio e o aprendizado com professores que são, nas suas palavras, “homens de ciências e intelectuais dos mais eminentes”, entre eles André Rebouças (1838-1898) e Visconde de Rio Branco (1819-1880).
Dois anos mais tarde, aos 24 anos, é indicado como engenheiro para integrar uma importante expedição científica que percorre os sertões de Minas Gerais e da Bahia. Criada por D. Pedro II e organizada pelo Conselheiro Cansanção de Sinimbu (1810-1906), tem por missão estudar soluções para modernizar o porto de Santos, registrar a cartografia de regiões pouco conhecidas do Império e identificar as possibilidades de navegação pelo interior. Parte do esforço de integração nacional, com projeção de estradas, ferrovias e navegação fluvial, aspirava melhorar o escoamento da produção agrícola e promover o crescimento econômico do país.
A Comissão Hidráulica do Império, como fica conhecida, sob a direção do engenheiro William Milnor Roberts (1810-1881) e do geólogo Orville Adalbert Derby (1851-1915), ambos estadunidenses, percorre da foz do Rio São Francisco até a cidade de Pirapora, em Minas Gerais, e depois a Chapada Diamantina, de Carinhanha até São Félix, na Bahia. As observações geográficas e sobre os costumes das populações locais são registradas por Sampaio em diários e cadernetas de viagem, ricamente ilustradas, e publicadas mais tarde em obras como O Rio de S. Francisco e a Chapada Diamantina (1905), Considerações geographicas e economicas sobre o Valle do Rio Paranapanema (1890). Com Orville Derby compartilha outras empresas profissionais e cultiva laços de amizade. A convite de Derby, participa, em 1886, dos trabalhos da Comissão Geográfica e Geológica da Província de São Paulo, com o intuito de cartografar o pouco explorado interior paulista e estudar as possibilidades de navegação do Rio Paranapanema. Por ocasião do falecimento do amigo, em 1915, Sampaio atribui o sucesso de sua carreira ao geólogo, por ter sempre um “conselho amigo, pela intervenção sempre oportuna”.
Nas décadas seguintes, permanece trabalhando em São Paulo, primeiramente como diretor e engenheiro-chefe do Saneamento do Estado e, mais tarde, como inspetor da empresa canadense The São Paulo Tramway Light and Power Company, atendendo à crescente demanda de planejamento urbano em uma capital em franca expansão. Intelectual reconhecido e homem de ciência intervencionista, figura entre os fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), em 1894, e participa ativamente do mesmo instituto na Bahia. Ao voltar a Salvador em 1904, está à frente da empresa que renova o abastecimento de água da capital baiana e projeta a iluminação pública de parte da cidade.
Na Bahia, reencontra o irmão Matias, a quem consegue alforriar vinte anos antes, depois de intensa negociação com o visconde de Aramaré. Dos três irmãos mais velhos que permanecem como escravos nas terras do engenho Canabrava, Matias é último a alcançar a liberdade.
A longa e bem-sucedida trajetória profissional de Theodoro Sampaio contempla um largo espectro de atividades voltadas para conhecer e projetar o futuro da então jovem nação brasileira, em um tempo marcado por transformações sociais e políticas profundas, que atravessam e definem os rumos de sua vida pessoal e as questões públicas às quais se engaja ativamente.