Afrocentrismo
O afrocentrismo é um conjunto de formulações teórico-filosóficas de perspectiva africana e de seus descendentes. O conceito pode circular como expressão cultural, educacional, filosófica e em movimentos sociais.
De modo geral, o afrocentrismo é uma forma de pensamento que rejeita o lugar periférico da tradição e da produção intelectual africanas imposto pelo ocidente. Nesse sentido, é uma reação ao eurocentrismo, perspectiva de mundo que tem a Europa como centro civilizatório do planeta.
A visão afrocêntrica surge como resposta ao afastamento do pensamento africano do centro da produção de conhecimento por mais de cinco séculos. Desde o período da grande expansão marítima ibérica, pessoas africanas são escravizadas e levadas para as Américas pelo tráfico atlântico, marcado pela exploração compulsória da mão de obra dos africanos e de seus descendentes. Segundo o afrocentrismo, a experiência e o pensamento africanos devem ser deslocados da margem para o centro das produção intelectual, ou seja, o afrocentrismo confronta o dogma criado pelo pensamento ocidental de que o racionalismo é uma criação europeia.
Essa forma de confronto está associada ao investimento intelectual e científico na produção de pensadores africanos do período anterior à colonização europeia e do tráfico atlântico, assim como a produção africana da história moderna e contemporânea. Um grande esforço do pensamento afrocentrado é o investimento na reafricanização dos valores no continente e nas nações da diáspora africana, especialmente nos países submetidos a processos violentos de assimilação da cultura e línguas de origens europeias.
O afrocentrismo é uma corrente do pensamento humano que pretende mostrar o quão plural é a humanidade e que ela não pode encerrar uma visão única e com pretensa superioridade europeia. Ele busca mostrar o quanto o continente africano é vasto e plural, além de ser referência para as filosofias mundiais, não devendo ser reduzido a estereótipos criados pelo Ocidente.
Entre as décadas de 1960 e 1970, período de maior intensidade das lutas por independência dos países africanos sob domínio europeu, pensadores do mundo inteiro veem a necessidade de construir uma perspectiva acadêmica e política para romper com a visão branca e eurocentrada. Nessa perspectiva, Molefi Kete Asante, pensador estadunidense e fundador do periódico Journal of Black Studies, lança um livro que se torna um clássico no debate sobre o tema: Afrocentricity (Afrocentricidade em tradução livre). Desde a publicação da obra, o professor do Departamento de Estudos Africano-Americanos da Universidade Temple, Filadélfia passa a divulgar teses, princípios e objetivos dessa linha de pensamento. Seu trabalho sobre afrocentricidade influencia intelectuais, artistas e ativistas de vários lugares do mundo. O conceito impacta, em particular, os ideais e as propostas de líderes africanos e lideranças negras e antirracistas da diáspora africana.
A perspectiva afrocêntrica tem por base uma reflexão sobre a existência da pessoa negra e africana fora da construção europeia. O que seriam as pessoas negras se não existissem as pessoas brancas? Interrogações como essas fundamentam a busca por subjetividade e história africanas, com ênfase nos seus valores ancestrais e combatendo fortemente o processo de ocidentalização.
No Brasil, Abdias do Nascimento (1914-2011) e Elisa Larkin Nascimento se tornam referências teóricas do pensamento afrocentrado. A obra Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora, de Larkin, é referência incontornável no debate brasileiro em diferentes áreas do conhecimento. No campo da filosofia, o pensamento afrocêntrico, seja como teoria, seja como método, é trabalhado pelo professor Renato Nogueira, uma das principais referências para a difusão do pensamento afrocêntrico na academia brasileira.
Na área cultural e educacional, exemplos de práticas e pensamentos afrocentrados podem ser identificados na formação do Bloco Ilê Aiyê, criado na Bahia, em 1974. Na educação, um exemplo é a Escola Mãe Hilda (1988), a primeira instituição de ensino formal voltada para o ensino das crianças do bairro soteropolitano do Curuzu: a pedagogia e a formação educacional são alicerçados em saberes ancestrais africanos e afro-brasileiros. Pode-se destacar também nesse conjunto os cadernos de educação do Ilê Aiyê, uma marca da presença do afrocentrismo na educação.
Com a promulgação da Lei n. 10.639, de 2003, o estudo da África e dos africanos permite experimentações pedagógicas baseadas na afrocentricidade. Não é raro encontrar diversas reflexões sobre a necessidade de se pensar a África fora do mundo colonial. Nos movimentos sociais, há também influências importantes do pensamento afrocentrado: pode-se destacar o movimento de mulheres negras que se autodenomina Mulherismo Africana [1], de modo que essa perspectiva ganha espaço filosófico, político e educacional no Brasil. Um exemplo da presença dessa abordagem no mundo digital é o canal do YouTube Pensar Africanamente, que tem em sua matriz a proposta afrocentrada.
O afrocentrismo marca o pensamento diaspórico e africano, em especial a partir da segunda metade do século XX, com uma produção filosófica que o sustenta e impacta na vida política na África e em países americanos como o Brasil.
Nota
[1] A expressão "mulherismo africana" foi cunhada em 1987 pela intelectual negra estadunidense Clenora Hudson-Weems (1945). No Brasil, mulherismo africana também designa uma rede de mulheres negras articuladas em defesa de práticas e produção de conhecimentos filosóficos e ancestrais de matriz africana.