Afroempreendedorismo

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Os termos afroempreendedorismo ou empreendedorismo negro são usados para designar a prática empreendedora desenvolvida por pessoas negras. Além da atividade econômica, costuma envolver debates e práticas ligadas à cidadania, inclusão racial e identidade negra.

Tendo em vista o desenvolvimento socioeconômico e cultural da comunidade negra, o afroempreendedorismo estrutura uma cadeia produtiva que privilegia práticas antirracistas em todas as etapas de desenvolvimento. Nesse sentido, o ato de empreender deve ser pautado pelo comprometimento ético de combate à exploração racial e ao racismo, tanto ao longo da cadeia produtiva, quanto na sua materialização social.

O empreendedorismo, apesar de ser um termo relativamente recente, é um fenômeno antigo que surge como alternativa à crise no mundo do trabalho e tem raízes fincadas na precariedade do trabalho experienciada historicamente pela população afro-brasileira.

Nesse sentido, os “pioneiros” do afroempreendedorismo são os chamados “escravos de aluguel”, cujos donos alugam seus serviços para outrem. Esses escravos recebem parte do valor negociado, o que possibilita comprarem suas alforrias e colaborarem para a compra da libertação de outros negros escravizados. As “baianas de acarajé” são outro exemplo de empreendedorismo que ultrapassa o período colonial. As primeiras baianas são negras africanas alforriadas, que sustentam suas famílias com a venda de iguarias, como o acarajé e o abará, pelas ruas da cidade de Salvador, preparadas nos terreiros de candomblé.

Na contemporaneidade, essas redes estão mais vivas do que nunca em entidades sociais e de classes profissionais, em coletivos diversos, entre outras organizações, que atuam em diversificadas frentes. A partir dos anos 1980,  o afroempreendedorismo se configura como uma estratégia econômica de desenvolvimento de negócios afrocentrados [1], visando à promoção das cultura, identidade e estética negras e à superação de obstáculos impostos aos afroempreendedores pelo racismo estrutural, que afeta a população negra em diversas esferas da vida social, especialmente a econômica.

Entre as décadas de 1980 e 1990, surgem as primeiras organizações de empresários negros, como o Centro de Assessoramento e Coordenação Empresarial (Cace), em 1988, em São Paulo, o Centro de Estudos e Assessoramento de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros (CEM) e o Círculo Olympio Marques (COLYMAR), ambos fundados em 1991 no Rio de Janeiro. Em 1997, é criado o Coletivo de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros (Ceabra) e, dois anos depois, surge a Associação Nacional dos Coletivos de Empresários Afro-Brasileiros (Anceabra).

Apesar do afroempreendedorismo ser um velho conhecido dos afro-brasileiros – desde a década de 2010, representam 53% dos empreendedores do país de acordo com dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) de 2017 –, somente a partir de 2015, com maior engajamento das mobilizações político-culturais, sobretudo via mídias sociais, nota-se que os consumidores afrodescendentes correspondem a 56% da população brasileira, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNADC), de 2019. Com o fortalecimento desse nicho de mercado, os afrodescendentes reivindicam representatividade nos mais diversos setores da sociedade, como na estética, na moda e na política.

Existem organizações que atuam no fomento do afroempreendedorismo e do afroconsumo como estratégias de empoderamento econômico e social, de enfrentamento à vulnerabilidade socioeconômica e de promoção da valorização da identidade e da cultura afro-brasileira. Entre elas estão o Vale do Dendê, programa voltado para empreendedores do ramo de alimentação; o Movimento Black Money, plataforma online que permite a conexão entre empreendedores e consumidores negros; e a D'Black Bank, associação de tecnologia e inovação aplicadas na solução de serviços financeiros que conecta consumidores a empreendedores negros, fornecendo uma gama de serviços financeiros 100% digitais. Um dos encontros mais simbólicos que reúne afroempreendedores brasileiros e africanos é a Feira Preta, realizada anualmente em São Paulo. Criado em 2002 pela empresária Adriana Barbosa (1978), esse evento cultural tem por objetivo fomentar o afroempreendedorismo estimulando a promoção de afronegócios, além de fortalecer o ecossistema afroempreendedor por meio do estreitamento de laços entre empreendedores negros. A feira é um espaço de celebração da cultura negra, com inúmeras atividades culturais, como shows musicais, apresentações de dança, exposições de arte, atividades de literatura, moda e gastronomia, além de palestras e oficinas voltadas à comunidade afrodescendente.

O afroempreendedorismo é a forma criativa inventada por ativistas negros como mais uma ferramenta de combate ao racismo estrutural. Não se trata de mera associação da palavra afro à palavra empreendedorismo, mas uma chave que pretende inovar e fortalecer as atividades socioculturais e econômicas destinadas à população negra.

Notas:

 ¹Os negócios afrocentrados têm como perspectiva a valorização da cultura afro-brasileira e africana, o que se faz notar nos materiais, nas cores, logos empresariais, nomes das empresas, grafismos e temas, dentre outros, usados pelos afro-empreendedores.
 

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