Uma grande aula magna com elementos de celebração. Essa foi a essência do evento de abertura do Festival Kwanzaa-Escrevivência, realizado pela Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência - parceria do Itaú Cultural com o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP).
Os três dias do Festival Kwanzaa-Escrevivência foram realizados também por meio de parceria com Itaú Social, Grupo de Estudos em Escrevivência e Fundação Tide Setubal, por meio da Plataforma Ancestralidades. O objetivo do evento consistiu em socializar debates e repercussões da titularidade da Cátedra, da qual a escritora e professora Conceição Evaristo esteve à frente no biênio 2022-2023. O evento contou com sete rodas de conversas, as quais passaram por diversos eixos temáticos relacionados aos sete princípios do Kwanzaa.
O Kwanzaa consiste em celebração cultural não religiosa afro-estadunidense, voltada ao resgate de patrimônios culturais e históricos africanos por meio da comunhão familiar e comunitária. Os sete princípios, cujos termos originais são conhecidos por meio do idioma suaíli, são:
- União (Umoja)
- Autodeterminação (Kujichagulia)
- Trabalho Coletivo e Responsabilidade (Ujima)
- Economia Cooperativa (Ujamaa)
- Propósito (Nia)
- Criatividade (Kuumba)
- Fé (Imani).
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Sobre trabalho coletivo, propósito e criatividade
A abertura do Festival Kwanzaa-Escrevivência contou com participações de Guilherme Ary Plonski, diretor do IEA-USP; Martin Grossmann, coordenador acadêmico da Cátedra Olavo Setúbal; Patrícia Motta, superintendente do Itaú Social; e Jader Rosa, superintendente do Itaú Cultural.
Grossman destacou, durante sua participação, que um dos papéis de um instituto de estudos avançados - no caso, o IEA-USP - é propor perspectivas acadêmicas. Dentro dessa perspectiva, esse é o papel da Cátedra Olavo Setúbal dentro do IEA e na USP. “O fator estraneidade é fundamental nesse desconforto, deslocamento e estranhamento que buscamos com parceiros que vêm de fora da universidade. Trata-se de fatores externos que nos colocam sempre em desafio e nos vêm proporcionando momentos como este.”
Durante sua fala, Jader Rosa destacou o processo de construção conjunta entre a Cátedra Olavo Setúbal e o Itaú Cultural, que vem desde 2015, e o papel de Conceição Evaristo durante o período em que esteve à frente do núcleo - inclusive para haver maior participação de pesquisadoras e pesquisadores negros. “Desde o momento em que chegou, ela mudou o modo como estávamos preparando e atuando com o modelo da cátedra. Ela nos provocou para [a inclusão de] um número muito maior de pessoas dentro da cátedra também, para poderem participar dessa formação”, pondera.
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"“A nossa escrevivência está em outro âmbito e lugar, e tem outra intenção: acordar os [indivíduos] da casa grande. [A escrevivência] da qual falamos é semantizada por um processo histórico e ancestral. A nossa escrevivência é outra.”
Sobre Kwanzaa, escrevivência e novas perspectivas
Mais do que viver ou escreviver, Conceição Evaristo destacou a importância da escrevivência em sua trajetória. Ou melhor: a abordagem mais precisa diz respeito ao papel central que esse conceito teve durante a primeira noite do Festival Kwanzaa-Escrevivência.
O conceito, criado pela própria escritora e veiculado pela primeira vez em meados dos anos 1990, tem como elemento central o protagonismo e o destaque para a escrita a partir da vivência - por meio de marcadores de raça e de gênero. Ou seja, narrativas dissidentes, com destaques para as de mulheres negras, têm protagonismo a partir de suas experiências, percepções e estar no mundo.
Nesse sentido, a escrevivência tem papel ímpar para fomentar e fundamentar o protagonismo de pessoas negras no contexto literário - especificamente no caso da Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência, por meio da produção acadêmica, com destaque para o trabalho do qual pesquisadoras e pesquisadores negros estão à frente.
“Pensar escrevivência como suporte teórico e desenvolver pesquisa em vários campos do conhecimento, cujos objetos estão marcados pela experiência de sujeitos negros, em que guardamos consciente ou inconscientemente uma memória negra, consistem também em promover em solo brasileiro a nossa Kwanzaa”, destacou a escritora, durante a abertura do evento.
Em outro momento de sua fala - ou aula magna, como preferir -, Conceição Evaristo homenageou a aclamada e lendária escritora Carolina Maria de Jesus, autora de obras como o clássico Quarto de Despejo e Diário de Bitita. Para a escritora, a trajetória e obra de Carolina Maria de Jesus consistem em “textos literários sobre os quais é possível discutir a questão da escrevivência e reconhecê-la como uma das escritoras que podemos compreender como produtora desse estilo.”
Por fim, a escritora ressaltou também que um dos aspectos fundamentais à escrevivência é intrínseco ao debate sobre equidade racial. “A nossa escrevivência está em outro âmbito e lugar, e tem outra intenção: acordar os [indivíduos] da casa grande. Por isso, quando pessoas brancas perguntam se elas podem fazer escrevivência, elas podem. Ninguém impede, mas aquela da qual falamos é semantizada por um processo histórico e ancestral. A nossa escrevivência é outra”, completa.