O escritor, educador e conferencista indígena Kaká Werá tem muito a nos ensinar sobre a relação com o tempo, o meio ambiente e, em sentido amplo, com a vida. Esse é, inclusive, o mote da entrevista que ele concedeu à Plataforma Ancestralidades.
Autor de 20 livros, como ‘A Terra dos Mil Povos’ e ‘Menino-Trovão’, e vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura Infantojuvenil com ‘Apytama, Florestas de Histórias’, o intelectual é contundente ao dizer que o tempo cronológico é falso, não é saudável e nos aprisiona em algo fundamental para existirmos de modo pleno. Ele não nos permite estarmos, por diversas vezes, presentes nas vidas das pessoas que amamos. Isso sem contar que nos leva a viver em iminente estado de burnout.
Mais do que falar sobre precisarmos repensar o modo como nos relacionamos com o tempo em virtude do modo como modos de produção e estruturas sociais o condicionaram às suas respectivas organizações, Kaká Werá mostra como essa dinâmica tem impacto definitivo no meio ambiente. Desse modo, os ciclos do tempo “nos ensinam algo fundamental sobre pertencermos a uma mesma unidade de vida.”
Dedique um tempo para você, leia a entrevista a seguir e desenvolva um novo modo de se relacionar com ele para além da perspectiva cronológica.
Uma reflexão que vem à tona quando falamos na pauta ambiental passa pelas populações em grandes cidades obedecerem o tempo cronológico - ou do relógio mesmo. Como mudarmos esse padrão e passarmos a seguir mais o tempo da natureza nos ajudará a mudar a nossa relação com o meio ambiente e a cuidar melhor dele?
Kaká Werá: A sociedade não indígena, de modo geral, segue o tempo do relógio - o tempo cronológico. Esse tempo está muito associado ao trabalho, à produção e aos compromissos e atividades do mundo exterior. No entanto, com o passar do tempo, o tempo cronológico criou no cidadão não indígena uma ideia de que tempo é dinheiro e trabalho. E isso fez com que se distanciasse, cada vez mais, de outra perspectiva de tempo presente nas culturas chamadas indígenas, que não tem a ver com o tempo ligado à crença - mas com o tempo como ele é. Para os povos indígenas, tempo é pertencimento. Através do tempo e de relacionamento direto com os ritmos e os ciclos do tempo - do frio, do calor, do dia, da noite, de acordar, de plantar, de esperar e de colher, da lua certa para cortar o cabelo ou deixá-lo crescer, de celebrar e de festejar -, que estão presentes na rotina da cultura dos povos indígenas, nos ensinam algo fundamental sobre pertencermos a uma mesma unidade de vida.
Mesmo sendo diferentes - povos, cores, culturas e línguas diferentes -, o tempo nos iguala e nos ensina que existe um ritmo de vida que dentro e fora é igual. O tempo nos ensina a nos relacionarmos com as diferenças. O tempo nos ensina as aulas práticas de pertencimento, de que as coisas estão interligadas, sobre por que a lua crescente também faz o meu cabelo crescer, por que o tempo das marés altas com a lua, quando está na sua fase cheia, também implica em eu perceber o meu estado interior de uma maneira mais plena. O tempo nos ensina que a vida é uma rede interdependente dentro e fora. O tempo cronológico ensina para as pessoas que a vida é curta e que não há tempo para nada, além de ansiedade e separação.
Mas para a cultura indígena, o tempo da natureza é riqueza, mas não é a mesma que o tempo cronológico espera do ser humano: é a riqueza da presença. No tempo da natureza, no momento em que estou com os meus filhos, com o meu neto, com o meu companheiro ou companheira, o tempo de estar é riqueza - mas, na sociedade não indígena, o tempo de estar junto é considerado perda de tempo. Para a cultura indígena, o tempo de não fazer nada é rico de potência, de possibilidade de interação, integração e relacionamento com o outro. Fazer nada nos possibilita reconstituir o nosso corpo e saúde mental e emocional.
Já para a sociedade não indígena, fazer nada pode ser vadiagem, vagabundagem - coisa menor -, mas se trata da importância da presença, do estar aqui agora no presente e da importância de dizer que essa presença é a verdadeira riqueza. Quantas pessoas, por não terem tempo para passar com seus filhos, depois de décadas falam sobre ter perdido uma oportunidade, pois não se resgata esse tempo. Essa riqueza não gera juros e dividendos, mas sim dor e nostalgia de perder o tempo precioso da presença com o outro.
"O tempo cronológico, do relógio, desnaturalizou o ritmo das pessoas e acelerou de tal maneira que há uma sociedade que vive entre o estresse da toxicidade dessa pressão de um ritmo antinatural, ou em situação do que chama de burnout."
Trata-se de desacelerarmos não no sentido cronológico, mas sim quanto à nossa relação com o meio ambiente, o mundo e com a sociedade propriamente dita?
Kaká Werá: Exatamente. O tempo cronológico, do relógio, desnaturalizou o ritmo das pessoas e acelerou de tal maneira que há uma sociedade que vive entre o estresse da toxicidade dessa pressão de um ritmo antinatural, ou em situação do que chama de burnout. O tempo cronológico e acelerado é falso, não é saudável e aprisiona as pessoas justamente quanto ao que existe de mais precioso para elas, que é a oportunidade da presença.
Por quais motivos a construção de futuros possíveis passa, de modo urgente, por revisarmos práticas hegemônicas adotadas no passado e, consequentemente, priorizarmos cosmovisões para além da eurocêntrica?
Kaká Werá: Temos um grande desafio sobre o que chamam atualmente de paradigma. Os pensamentos hegemônicos que constituem grande parte da sociedade baseiam-se em uma ideia centrada na exploração indiscriminada não somente da natureza, mas também de pessoas e relações. Quando se vê, na aparente diversidade de linhas de pensamento, tem-se como fundamento hegemônico a ideia de que se pode explorar indefinidamente as pessoas, a natureza e as relações.
Outros pensamentos de culturas mais ancestrais e antigas, que são paradigmas, pensamentos e visões de mundo, partem da ideia de que, em primeiro lugar, não existe somente a hegemonia chamada ser humano enquanto pensamento ou inteligência. Nas culturas ancestrais, consideram-se o pensar e a inteligência também dos seres não humanos. Nesse sentido, animais, árvores, montanhas e rios são reconhecidos como possuidores distintos de inteligências diversas. No pensamento hegemônico da sociedade não indígena, além da necessidade de imposição de linha de pensamento de uma ou mais linhas ideológicas, parte-se da ideia de que somente o ser humano pensa e tem inteligência. Mas, nas tradições indígenas e culturas mais ancestrais, há uma pluralidade de inteligências, de sistemas e de pensamentos que envolvem não apenas o ser humano, mas todos os entes de vida.
Nesse contexto, a natureza não é algo a ser explorado de maneira indeterminada e inconsequente. Ela, no caso desses outros paradigmas, é também um ente, um ser que também tem os seus pensamentos, não da mesma maneira que o ser humano. Tais pensamentos se manifestam por meio dos ciclos da natureza e da maneira como ela nos oferece os seus recursos, e eles têm limites, regras e condições próprias.
Uma das condições é o que chamaremos de cuidado, pois há tempos, ritmos e limites a serem considerados. Esse outro pensamento que não tem hegemonia dentro da sociedade humana, curiosamente, pode servir para não ser seguido à risca, mas para inspirar o ser humano a rever a sua maneira de ser e se relacionar com o que produz e consome. Idem rever sua maneira de relacionamento com os seres. Há, então, esses dois grandes pontos entre culturas ancestrais e culturas chamadas modernas.