Mais do que ser tema de estudos, o território pode ser o agente e o fio condutor da análise de saberes ancestrais e caros para a formação sociocultural e intelectual da população afro-brasileira. Compreender e evidenciar tais conhecimentos foram premissas por meio das quais foi realizado o Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022.
A ação, que foi a primeira da Plataforma Ancestralidades voltada ao fomento de pesquisadoras/es negras/os que focaram na produção acadêmica sobre os múltiplos saberes afro-brasileiros, teve o eixo Tecnologias ancestrais afro-brasileiras aplicadas à contemporaneidade como uma de suas categorias.
Uma das pesquisas selecionadas na categoria foi Alumiar: caminhos possíveis no acendimento a partir das ancestralidades, de Eunice Pita de Oliveira, cuja proposta foi abraçar o reconhecimento, afeto e ancestralidade enquanto ferramentas possíveis para estabelecer relações entre arquitetura e comunidade, a partir da realidade do povoado do Terreirão, território do município de Muniz Ferreira (BA).
Para Eunice, a sua pesquisa surgiu por ao valorizar a sabedoria de ancestrais e pessoas mais velhas - tal ensinamento teve como origem o ambiente e os terreiros em que ela viveu e se formou como cidadã. “‘Alumiar’ e ‘oralidade’ são perspectivas que se entrelaçam e não podem ser vistas sozinhas. Nesse sentido surge o entendimento de que é possível alumiar ao seio acadêmico a partir da oralidade. Ele se torna presente na vida de todo e qualquer pesquisador que possui, em suas raízes, a valorização da sabedoria dos nossos mais velhos.”
Ao estabelecer conexões entre os saberes ancestrais e a ancestralidade com a perspectiva arquitetônica, Eunice destaca que a estrutura arquitetônica no Brasil, inclusive a colonial, tem forte relação com os saberes ancestrais afro-brasileiros e indígenas, pois a maioria dos espaços e edificações foi construída por mãos negras e/ou indígenas.
“Quem constrói deposita também seus saberes, tecnologias e cultura na construção dos espaços e da arquitetura em si. No caso de comunidades que mantêm parte de suas tradições vivas, como acontece no Terreirão, em Muniz Ferreira, é possível ler a presença delas das tecnologias e saberes ancestrais na linha do tempo de suas edificações, e entender como essa presença conflui com princípios da filosofia Bantu, como os presentes nos escritos do Professor Henrique Cunha: ‘a natureza, o meio ambiente, a localidade, a comunidade ou os lugares na sua complexidade ou integralidade fazem parte do ancestral”, destaca Eunice.
Acesse a íntegra da pesquisa de Eunice Pita na biblioteca da Plataforma Ancestralidades
História escrita por intelectuais negras
“O percurso formativo da consciência negra no mundo científico é uma forma de nos conectarmos com os saberes ancestrais, ensinando e aprendendo a potência intelectual, política e espiritual da comunidade negra ao longo da história no Brasil e na diáspora africana.”
É deste modo como Giovana Xavier, doutora em História Social e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca um dos pontos emblemáticos de sua pesquisa, História Intelectual de Mulheres Negras: um novo território existencial: a formação de uma comunidade científica negra. O ponto de partida para Giovana desenvolver a pesquisa a partir da perspectiva intelectual de mulheres negras está relacionada à sua trajetória pessoal, por meio da vivência com sua mãe, avós e tia e dos ensinamentos transmitidos por eles - ao considerá-los como referências de intelectualidade negra.
“Sou historiadora e cientista humana que produz teorias para iluminar as formas de ser, pensar e existir de mulheres negras na condição de protagonistas das próprias histórias e da história do Brasil - isso aprendi em uma casa de vila no subúrbio do Méier. O meu trabalho científico e a minha vida, dentro e fora da academia, é dedicado a esta missão na qual essas pessoas me iniciaram dentro de um pacto ancestral. Esse percurso também diz respeito a expandir formas de investigar e escrever as histórias de mulheres negras, levando em conta experiências múltiplas de ser mulher”, detalha.
"O percurso formativo da consciência negra no mundo científico é uma forma de nos conectarmos com os saberes ancestrais, ensinando e aprendendo a potência intelectual, política e espiritual da comunidade negra ao longo da história no Brasil e na diáspora africana.” (Giovana Xavier)
Sobre território, culinária e saberes ancestrais
A pesquisa Afro Paladar: a culinária quilombola de Mato Grosso como patrimônio imaterial, de Jackeline Maria da Silva, tem como ponto de partida e central a culinária quilombola como um conector de relações. Isso deve-se ao fato de a culinária, ao contemplar o processo de plantio e colheita de alimentos, assim como processos familiares e culinários, contribuir para o fortalecimento de identidades e representar um ato de resistência nos lares e na comunidade em que estão inseridas - para Jackeline, trata-se de circularidade do saber.
“O cuidado com a terra e com o território onde essas manifestações acontecem porque a vida está ali presente. A vida visível e invisível, a relação com plantas e o meio ambiente, toda a comunidade envolvida no cuidado com o território, são de suma importância para que tradições aconteçam. Isso nos provoca a pensar sobre o racismo ambiental, degradação e todas as formas de exploração das terras quilombolas, assim como também a expropriação no processo de gentrificação que temos visto nesses últimos tempos”, pondera a pesquisadora.
Essa premissa permitiu a pesquisa realizada em caráter interdisciplinar, uma vez que a culinária funciona como um exemplo do processo de educação para relações étnico-raciais, ao funcionar como elemento que contribui para o fortalecimento da história cultural e de identidades. Ainda, a perspectiva interdisciplinar é corroborada para a resistência secular mantida e preservada para além dos quilombos, com reflexos em movimentos sociais, pessoas atuantes em demais áreas do saber e que vivem em territórios urbanos.
“Isso tudo contribui para que [populações quilombolas] sejam vistas como a potência que são enquanto movimento político e luta pela preservação das memórias, do patrimônio material e imaterial. Essas perspectivas nos permitem desenvolver outros desdobramentos referentes a esse projeto e pensar tais conhecimentos, tecnologias quilombolas como um contraponto à colonialidade, enfrentamentos ao epistemicídio, ao apagamento e à invisibilização constante que ocorrem contra populações negras e, principalmente, negras rurais”, detalha Jackeline.
Confira a pesquisa de Jackeline Maria da Silva na biblioteca da Plataforma Ancestralidades
Perspectivas plurais em favor da ancestralidade
Jackeline Maria da Silva considera que a valorização em âmbito acadêmico dos saberes e tecnologias desenvolvidas pela população afro-brasileira estimula a produção de projetos que tenham as narrativas e vivências de populações minorizadas nesses mesmos espaços - ao chamar a atenção, por exemplo, para a invisibilização de problemas socioambientais relacionados à exploração e devastação de riquezas naturais e para o desmantelamento de políticas públicas voltadas para tais grupos.
A mesma lógica vale para a lógica segundo a qual compreender-se como população negra, indígena e quilombola abrange a compreensão de que a vida está diretamente ligada à terra, ao território e tudo que a gente obtém de tais espaços. “Não é apenas um trabalho de dar visibilidade, mas também de valorizar e reconhecer grupos à margem de uma geografia que prioriza, em princípio, narrativas do Sul e do Sudeste. Encontrar trabalhos como o meu e de outras pessoas, também de outras regiões do país, é muito importante para nos conhecermos, aproximarmos, apropriarmos e nos fortalecermos em todos os sentidos da nossa luta.”
Dentro da lógica da valorização e apoio aos trabalhos de pesquisadoras/es negras/os, Giovana Xavier pondera, por meio da sua pesquisa, sobre o estudo e valorização de conhecimentos científicos por meio da história afro-brasileira ser uma alternativa à lógica eurocêntrica - o que dialoga com a abertura de espaços e criação de novos horizontes científicos com foco em processos criativos de mulheres negras.
“Em meus 13 anos de professora universitária, aprendi que temos o poder de jogar luz no que funciona. Iluminar a autenticidade, brilho e autonomia intelectual de mulheres negras é um tipo de luz daquelas que aquecem nossas mentes, assim como corações, para lidar com verdades soterradas pelo eurocentrismo - elas estão debaixo da terra e, para mim, é muito especial escavá-las e evidenciá-las com meu trabalho científico”, ressalta.
Ao passo que a valorização histórica e o apoio a pesquisadoras/es negras/os tem papel estratégico na valorização de saberes ancestrais afro-brasileiros, Eunice Pita destaca que tratar perspectivas plurais ainda simboliza um espaço de disputa, resistência e desconforto dentro dos valores eurocêntricos que fundamentam o ambiente acadêmico.
Eunice destaca também o apoio recebido por sua pesquisa, assim como as demais do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022, representem força para pesquisadoras/es que queiram desenvolver projetos focados nos saberes ancestrais afro-brasileiros. “Por parte das instituições, movimentos e iniciativas aliadas e alinhadas com o propósito de alumiar a academia junto à sua produção, o apoio à estruturação do caminho dessas e desses pesquisadores é fundamental. Vejo o Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa como um veículo que potencializa o acendimento de perspectivas plurais, indígenas e afro-brasileiras. A existência do prêmio é simbólica em muitos aspectos, sobretudo sobre a questão financeira e a projeção dos trabalhos premiados”, completa.