Por Amauri Eugênio Jr.
A presença continuamente maior de profissionais negras/os em espaços estratégicos é um dos diversos fatores fundamentais para o enfrentamento de estruturas marcadas pela desigualdade racial e de gênero e, como consequência, para fomentar o protagonismo de pessoas que fazem parte desses mesmos grupos - em especial quando há intersecção desses respectivos aspectos.
Apesar de mais da metade da população brasileira ser negra de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a sub-representação de pessoas negras é veemente em diversos espaços, inclusive na imprensa.
É dentro deste contexto que profissionais como Semayat Oliveira têm conseguido se destacar e, por meio do trabalho que desenvolve, mostra quão fundamental é a presença de cada vez mais profissionais cujos perfis vão além dos que ainda são hegemônicos. Semayat é uma das fundadoras do Nós, Mulheres da Periferia, site jornalístico cuja premissa é desenvolver conteúdos e análises com foco em classe, raça, gênero - ou, como as cofundadoras destacam, é uma organização feita por mulheres focada em produzir o melhor conteúdo para mulheres.
Além do trabalho no Nós, Mulheres, Semayat tem também papel fundamental dentro do podcast Mano a Mano, capitaneado por Mano Brown. Se o projeto, que é um dos mais ouvidos no Brasil, é conhecido pelas entrevistas conduzidas por Brown com figuras emblemáticas de segmentos diversos no país e pelos temas abordados em cada programa, isso tem participação para lá de importante de Semayat.
Se nos créditos do programa ela é responsável pela consultoria jornalística, a cada programa ficou mais e mais nítido - ou mais audível, como preferir - o papel estratégico exercido por ela para todas as informações que vêm à tona serem fidedignas e ancoradas na realidade.
Em entrevista à Plataforma Ancestralidades, Semayat Oliveira falou sobre a sua presença no programa. Mais do que isso, ela trouxe ao diálogo questões relacionadas à equidade de raça e gêneros no jornalismo. Confira no bate-papo a seguir.
Segundo o relatório Perfil do Jornalista Brasileiro 2021, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 29,9% das/os jornalistas consideram-se negras/os - 20,6% pardos/as e 9,3% pretos/as. Mesmo sendo possível identificar o crescimento em comparação com 2012, quando 23% das/os profissionais eram desse grupo, trata-se de números aquém da realidade sociorracial brasileira
O Nós, Mulheres da Periferia tem como uma das premissas básicas trazer protagonismo para grupos historicamente sub-representados, com destaque para mulheres negras de origem periférica. Como a sua vivência jornalística anterior e, posteriormente, como uma das fundadoras do Nós, Mulheres influenciou a sua relação com o jornalismo?
A experiência de iniciar a carreira no jornalismo em um veículo comprometido com uma narrativa oposta ao que estamos acostumados a ler na imprensa hegemônica é transformador. Isso porque é possível encontrar um jeito de fazer, de abordar e de pensar a notícia.
No caso do Nós, escolhemos ter mulheres negras e periféricas como fontes principais. Essa é uma escolha política e profissional, já que acreditamos ser necessário ter mais mulheres escrevendo e falando sobre o Brasil e o mundo. Além disso, aprendemos a gerir um negócio de mídia, o que é um desafio. Então, além de aprender a pensar conteúdo, aprendemos a empreender.
De acordo com o relatório Perfil do Jornalista Brasileiro 2021, 30% dos profissionais da área são negras/os, ante 23% em 2012. Apesar do aumento identificado, há ainda sub-representação racial no jornalismo. Quais medidas você considera necessárias para haver equidade racial em âmbito jornalístico?
A equidade é um objetivo final e ainda levará um tempo. Para isso, é necessário defender a continuação da política de cotas. Este ano é muito importante para esta política, já que completamos 10 anos desde a aprovação da lei e há no regulamento a previsão de uma revisão.
Sem investir na acessibilidade ao ensino superior, e progressivamente no ensino básico e fundamental, esse número não crescerá. Nos últimos anos, mostramos que, mesmo em desvantagem social, temos competência não só para cumprir o padrão tradicional do jornalismo, mas, sobretudo, subverter essa lógica. O aumento de pessoas negras nas redações, assim como colunistas de opinião, já mostra um avanço substancial nas coberturas sobre raça, gênero e classe.
Ainda assim, não podemos deixar de criar nossos próprios veículos e esse também é um ponto crucial. Isso exige investimento não só de quem empreende, mas de grandes empresas e fundações. A transformação de fato só acontece se houver pessoas pretas e mulheres, também, na estrutura da coisa, com poder de decisão, criação e contratação.
Ainda nesse contexto, como você considera que a presença cada vez maior de jornalistas negras/os e de trajetória periférica tende a trazer mais representatividade e pluralidade na abordagem de temas e nas perspectivas em que tais assuntos são retratados?
Pessoas negras e periféricas têm uma cultura, um jeito de ver um mundo e marcas da desigualdade que não se apagam. Ainda que muitos de nós cedam à pressão da branquitude e prefiram evitar confrontos com estruturas brancas por receio, medo ou por ainda não terem se conectado com suas origens, outra significativa parcela prefere se impor e combater estruturas brancas de dentro pra fora. Isso significa embates com empregadores, editores, defesas profundas de pautas.
Vimos nos últimos anos as empresas abrirem setores específicos para tratar a importância da diversidade e inclusão. Mérito da pensadora Cida Bento, intelectual fundamental e que provoca organizações a romperem com o pacto narcísico da branquitude e iniciarem a busca com mais igualdade. Mérito de cada pessoa preta que bate de frente com o racismo diário dentro de seus locais de trabalho.
Mérito nosso, que mesmo não nos sentindo pertencentes a determinados lugares, permanecemos, mesmo desconfortáveis, a ocupar espaços que podem beneficiar outros de nós no futuro - mas não a qualquer custo e de qualquer jeito. É mérito nosso também quando nos retiramos de espaços que insistem em nos desvalorizar, cercear e oferecer o mínimo.
Enxergar a ponta, que é a mudança do conteúdo, não é tudo. Todo esse bastidor, muitas vezes desgastante, conta. É por isso que notamos que aquele veículo que antes não escrevia “racismo” passou a escrever. Ou aquele que não dava nome aos jovens vítimas do genocídio e passou a dar. Ou ainda quem não falava sobre a dor das mães que perderam filhos para o estado e agora contam sua história. Tudo isso é mérito do Movimento Negro Brasileiro, do qual sou fruto, dos Movimentos de Mães, dos movimentos culturais das periferias e de veículos de comunicação que têm usado a internet para mostrar que dá e devemos fazer diferente.
Não uso a palavra mérito no sentido meritocrático liberal - nesse não acredito. Digo mérito porque há interesse em crescimento coletivo e em uma transformação que favoreçam o Brasil como ele é, em maioria: mulher, negro e pobre. Então, a representatividade importa quando ela nos move adiante, no plural.
Um dos destaques do Mano a Mano diz respeito à consultoria jornalística que você faz, como quando ouvimos as suas intervenções para contextualizar fatos e trazer dados para manter a precisão dos temas abordados durante os episódios. O que você pode dizer sobre a sua participação no programa? E quais são os retornos na média recebidos por você?
Esse é um trabalho que me alegra e faz aprender. Aprender porque nunca fiz nada igual e porque me desafia. Tenho buscado desempenhar meu papel da melhor forma. Relacionar entretenimento com jornalismo tem sido uma experiência que mostra o quanto é possível levar informação de um jeito que inclui, atrai e emociona. E isso se deve ao respeito, magnitude e ao poder de comunicação de Mano Brown - ele faz isso no rap e faz isso no Mano a Mano.
Portanto, ter a chance de contribuir para um podcast que tem provocado o desejo de pensar profundamente sobre o Brasil, se disposto a ouvir diferentes vertentes e opiniões, tem despertado discussões políticas, além de registrar o pensamento e a opinião de pessoas fundamentais para o nosso país, é algo imensurável - ainda mais feito a partir de uma perspectiva preta e periférica, genuinamente.
As pessoas têm me relatado emoção, o quanto Mano a Mano é uma companhia no transporte público e tem contribuído para provocar diálogos entre familiares, amigos e amigas. E isso alegra toda a equipe, que tem trabalhado com dedicação e muito carinho.
Ainda sobre o Mano a Mano, você considera que o trabalho exercido por você no podcast pode servir como modelo para programas com formato semelhante e pode mostrar que todo e qualquer tema abordado, mesmo sem ter propósito jornalístico, precisa pautar-se pela precisão e pelo respeito com ouvintes ou espectadores? O que você pode falar a respeito?
Eu não diria isso. Tem muita gente produzindo coisas incríveis. Mas espero que todos nós, produtores de conteúdo, encontremos formas de entregar o melhor que podemos aos consumidores que estão do outro lado, ouvindo ou assistindo com atenção.