Democratizar meios para obter acesso à informação e a recursos tecnológicos, assim como desenvolver estratégias com esse propósito por meio dos saberes ancestrais e valorizando a população negra, são pontos intrínsecos ao eixo Ética e justiça racial nas tecnologias digitais de informação e comunicação do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 - Ciências e Tecnologias em Perspectiva com os Saberes Afro-Brasileiros.
Uma das pesquisas selecionadas neste eixo foi Ativismo visual e a descolonização do ver: enfrentamentos em torno da vulnerabilidade escópica e da codificação sociotécnica da (in)visibilidade negra, projeto realizado por Maria Aparecida Moura, doutora em Comunicação e Semiótica e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A docente e pesquisadora explica que havia iniciado, em 2019, uma pesquisa sobre a atuação de mulheres negras na fotografia, por meio da qual constatou que o confronto à colonialidade neste campo passava pelo ativismo visual exercido por mulheres reais - com ponto de partida, segundo a própria pesquisadora, em suas “avenidas identitárias”. O foco da pesquisadora consiste na compreensão do ativismo visual no enfrentamento à colonialidade do ver e da intensificação do uso de tecnologias voltadas à conformação de imagens de controle.
“Nesse contexto, posso destacar a atuação das artistas Carrie Mae Weems, Zanele Muholi e Nona Faustine que realizam ativismo visual, autobiografia fotográfica e tradução criativa em seus trabalhos como forma de confrontar a colonialidade do ver e suas imagens de controle racializadas e contingentes", pondera Maria Aparecida. "Estamos em um momento socio-histórico em que a semiose colonial, superdimensionada pelas tecnologias da visualidade, atua de forma incisiva em todas as instâncias da vida sugerindo estéticas, comportamentos e imaginários. É necessário conhecer riscos e possibilidades de enfrentamento crítico destas questões como forma de criar ‘rotas de fuga' - e de precisão analítica - em face da vulnerabilidade escópica à qual estão submetidos os corpos não hegemônicos, especialmente a população negra.”
A perspectiva imagética é também um ponto central da pesquisa Racismo Algorítmico: representação racial e dimensões socioeconômicas em bancos de imagens digitais, feita pela psicóloga Emilly Fátima Ferreira Lima.
Lima integrou o Grupo de Pesquisa em Percepção Visual do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), cujo foco de investigação abrangia análises sobre como pistas visuais de status social e econômico poderiam interferir na percepção racial. Todavia, o processo para análises das imagens precisou ser alterado em virtude da pandemia de Covid-19. A mudança no modus operandi resultou em dificuldades grandes para a própria pesquisa, por obstáculos para a buscas em bancos de imagens por fotos de pessoas que não tivessem perfil eurocêntrico.
“Comecei a ver trabalhos sobre racismo algorítmico e a me interessar pelo tema, tendo contato com pesquisas de Tarcízio Silva e Fernanda Carrera. Estudos recentes mostram como os bancos de imagens digitais reproduzem diversos estereótipos racistas e sexistas, contribuindo para a perpetuação de opressões e microagressões contra grupos subalternizados”, explica.
O protagonismo da população negra quando se fala na esfera tecnológica é também o mote da pesquisa Territórios Livres, Tecnologias Livres, de Paulo Victor Purificação Melo, doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).Para Melo, um dos princípios mais significativos para a pesquisa diz respeito ao protagonismo de pessoas de grupos minorizados na produção de conhecimento sobre esse mesmo tópico.
“Dois exemplos para ilustrar: quem são as principais responsáveis pelas crianças que, durante um longo período da pandemia de Covid-19, não conseguiram estudar por não ter internet ou computador? Quais foram as ‘caras’ mais vistas nas filas de agências da Caixa Econômica em busca de informações sobre ‘um tal aplicativo’ que não sabiam usar, mas lhes garantiria acesso ao auxílio emergencial? As respostas nos conduzem às mulheres negras, das periferias urbanas e rurais”, destaca.
Leia a entrevista de Tarcízio Silva à Plataforma Ancestralidades
Sobre saberes aplicados
O protagonismo da população negra na construção de saberes na esfera tecnológica é refletido em dinâmicas diversas. Uma delas, relativa à pesquisa de Maria Aparecida Moura, registrar episódios de discriminação e de violência contra pessoas pretas e pardas é uma estratégia aliada da luta antirracista. Ainda assim, é necessário desenvolver mecanismos em múltiplas áreas do conhecimento para combater a normalização da vulnerabilidade escópica - ou seja, ações de reconhecimento facial - de pessoas racializadas e de trajetória periférica.
“O enfrentamento do capitalismo de vigilância que orienta as plataformas estruturais, por meio das quais articulamos a vida em sociedade na atualidade, deve passar pela ampliação do acesso à informação e ao conhecimento que permita colocar em evidência a potência dos saberes de trajetória em perspectiva pluriepistêmica”, completa a docente da UFMG.
A busca por soluções disruptivas na esfera tecnológica que dialoguem com saberes ancestrais contempla, segundo Paulo Victor Purificação Melo, expressões dessa lógica que passam pela mobilização de mulheres se organizando via aplicativos de mensagens instantâneas para a criação de rede de apoio e de denúncia contra violência doméstica, ou o uso de smartphones para documentar e provar a invasão de seus territórios por megaempreendimentos.
Outra iniciativa consiste no “bambu drone”, criada por jovens do projeto TV Quilombo, do Quilombo Rampa (MA). O projeto consiste na instalação de aparelhos celulares em árvores para registros aéreos de eventos culturais. “Este é um dos mais emblemáticos exemplos da aliança entre tecnologias digitais e tecnologias/conhecimentos ancestrais, pois usa recursos que compõem o próprio território e o modo de vida comunitário como suporte, sem qualquer destruição socioambiental, para produzir discursos comunicacionais. Isso tem potencial de inspirar outras comunidades a pensar e desenvolver iniciativas semelhantes”, descreve.
Outra dimensão dos saberes ancestrais da população negra contempla o papel do racismo algorítmico em esferas sociais de tecnologias digitais de informação e comunicação - em âmbito imagético, na contranarrativa da construção de imaginários e socioculturais por meio de bancos de imagens. E, desse modo, transformar a dinâmica algorítmica em uma aliada na disseminação da produção intelectual da população negra e na sua valorização.
“Para alcançar a justiça racial precisamos questionar o viés algorítmico da branquitude e fazer com que estudos focados em outras realidades não-brancas, não-heteronormativas e cada vez mais diversos alcancem representatividade para povoar algoritmos para além dos chamados grupos dominantes”, comenta Emilly Fátima Ferreira Lima.
Confira a íntegra da pesquisa de Paulo Victor da Purificação Melo na biblioteca da Plataforma Ancestralidades
Valorização tecnológica
Para além do papel central da população negra na produção de conhecimento na esfera tecnológica - e em caráter multidisciplinar -, um ponto de consenso entre o trio de pesquisadoras/es é o papel que suporte financeiro tem para elas/es desenvolverem os seus projetos com condições de dedicar tempo e conhecimento para tal.
“É essencial haver mais recursos e apoios a pesquisas que se propõem a evidenciar os saberes ancestrais e a cultura afro-brasileira, inclusive no sentido de superar o epistemicídio da intelectualidade negra e indígena. Isso é estruturante na produção de conhecimento em nosso país e serve apenas à reprodução da ideia de que esse não é um lugar de atuação de pessoas negros e indígenas”, pondera Paulo Victor Purificação Melo.
Emilly Fátima Ferreira Lima considera, por sua vez, que o apoio por meio de iniciativas como o Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 funciona também como uma modalidade de divulgação científica, ao levar saberes da academia para espaços externos - o que pode ter reflexos dentro do próprio ambiente acadêmico. “O mundo acadêmico é muito eurocêntrico. Basta olhar a maioria das grades curriculares para ver que há poucas matérias sobre as culturas afro-brasileira, indígena e do Sul Global. Iniciativas como essa ajudam a valorizar pesquisadoras/es dessas temáticas e incentivar que outras pessoas olhem com carinho para tais temas ao escolherem uma linha de pesquisa.”
Por fim, Maria Aparecida Moura entende que o apoio a pesquisadoras/es pode oferecer caminhos para romper-se com o apagamento de sujeitos, imaginários e estéticas a partir do enfrentamento do que ela chama de epistemologia da ignorância, a qual que rege assimetrias existentes em processos de produção e circulação de informação e conhecimento na sociedade.
“Ao criar possibilidades de pesquisadoras/es racializadas/os e periféricas/os produzirem conhecimento, abre-se o caminho para a inclusão de novos pontos de vista, repertórios de questões e agendas de pesquisa. Isso contribui para a desnaturalização da colonialidade do saber e do conforto ontológico a ela associado”, completa a docente da UFMG.