As múltiplas camadas do trabalho (e da vida) de Novíssimo Edgar

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Ouvir, ver e sentir a obra de Novíssimo Edgar proporciona, invariavelmente, uma nova experiência, mesmo após revisitar o mesmo trabalho. Isso tem um motivo, é claro: a cada audição ou apreciação de projetos do multiartista, a sensação é ver um mundo de...

As múltiplas camadas do trabalho (e da vida) de Novíssimo Edgar
Foto: Gor Geozalyan

Ouvir, ver e sentir a obra de Novíssimo Edgar proporciona, invariavelmente, uma nova experiência, mesmo após revisitar o mesmo trabalho. Isso tem um motivo, é claro: a cada audição ou apreciação de projetos do multiartista, a sensação é ver um mundo de possibilidades e de interpretações ser aberto diante dos olhos e ouvidos.

Muito dessa impressão vem das diversas camadas que compõem os seus trabalhos e da perspectiva espiralar como Edgar Pereira da Silva, o seu nome de pia, encara o seu fazer artístico - e a vida, o universo e tudo o mais. É como se estivéssemos diante de uma grande história oral, audiovisual e estética do mundo. Ou perceber que premissas potencialmente distópicas para nós no primeiro momento podem ser a realidade nua e crua em outra região do mundo - ou em um bairro próximo ao seu, dependendo do caso.

Todas essas impressões ganharam formas, rimas, prosas, cores e texturas durante o diálogo com Novíssimo Edgar para Plataforma Ancestralidades. Um dos motivos para isso passa, inclusive, pela relação que vida e trabalho têm entre si. “A minha vida pessoal interfere no meu trabalho e meu trabalho interfere na minha vida, sabe? Tem sido muito natural. Acho que agora tenho começado a conceitualizar e entender isso. A memória é imaterial, mas pode permear uma matéria e virar um gatilho, seja para coisas boas ou ruins, e assim por diante.”

É inevitável pensar que essa relação é reverberada em produção artística para lá de intensa. Tanto que a entrevista para esta matéria acompanhou o ritmo dinâmico de seu trabalho e de sua agenda: ele estava em meio aos preparativos para a exposição A Invenção do Espelho, que estreou na galeria A Gentil Carioca em 27 de maio.


 

Perspectivas multiculturais

 

A trajetória artística de Novíssimo Edgar para além da música, em especial nas artes plásticas, dialoga também com a sua verve inventiva e disruptiva - o que pode ser visto na exposição A Invenção do Espelho. Nesse caso específico, o seu estilo remete à perspectiva estética assemblage, em particular pela composição por meio de colagens. “Seria uma colagem com tecido, mas faço tudo costurado. E aí ocorre um destravamento maior no visual”, explica.


Suas obras, independentemente do meio em que são produzidas, trazem elementos simbólicos e fortes relacionados à ancestralidade. Novíssimo Edgar falou sobre a sua relação com o tema durante a série Ancestralidades, exibida no canal Arte1 e que estará disponível em breve no Itaú Cultural Play.

E, é claro, a verve artística multimeios de Novíssimo Edgar reverbera também para o audiovisual - o que é tranquilamente identificável em videoclipes de músicas suas, como as faixas Print e Boi, Bala e Bíblia. Deste modo, você acha que um passo lógico para ele é o universo gamer? Se sim, acertou.

Isso não é de hoje: o seu mergulho nesse universo, seja por meio do storytelling ou na produção de trilhas sonoras, o levou a passar uma temporada na Dinamarca e o fez reencontrar o artista visual Gabriel Massan, com quem havia começado anos antes o desenvolvimento de um game anos antes.

O resultado deste reencontro? A produção do projeto Third World: The Bottom Dimension, em cartaz na Serpentine North Gallery, em Londres. “[Third World] está sendo um dos maiores investimentos de tecnologia da Serpentine nos últimos anos”, explica, para dimensionar o tamanho do projeto.

“O ocidente pensa o futuro e a vida como uma cronologia reta: passado lá atrás, presente aqui e o futuro lá na frente. Eu tenho tentado viver um pensamento espiralado.”

Cidadão do Brasil e do Mundo


Nascido em Guarulhos, cidade da Grande São Paulo, Novíssimo Edgar tornou-se um cidadão do mundo - a sua ida em breve a Londres é um exemplo disso. A sua relação com o exterior é marcada por uma expansão inquestionável quando se fala na sua carreira e com a pluralidade étnico-racial para além das nossas fronteiras.

Um exemplo: durante uma turnê na França, ele relatou que as pessoas com quem dialogou estranharam quando ele se autodeclarou negro, pois o viam como uma pessoa originária da Cabília, região situada no norte do continente africano - no caso, kabilye. Com isso, essas mesmas pessoas explicaram para ele que pessoas negras - noir, na interpretação local - eram lidas como retintas. 

“É uma pluralidade de negritudes, mas a dos corpos noir se impõe nesse lugar. Caiu para um tom mais avermelhado ou amarronzado, eles começam a jogar para os kabilyes. Tanto que uma galera me chamava de kabilye na segunda vez em que fui. Aí virou o meu apelido na época: ‘e aí, Kabilye?’. Tomou uma proporção maior do que eu imaginava”, relembra.

A vivência no exterior lhe mostrou novas interpretações sobre como determinados grupos veem o Brasil - como no caso da música Bíblia, Boi e Bala, resultante de uma observação na sua primeira viagem feita à França. “Eu estava assistindo a um jornal francês e o jornalista havia falado que o Brasil era somente Bíblia, boi e bala. Eu falei: “Moro [à época] lá há 23 anos e nunca ouvi isso.” Vão virando outras outras possibilidades de leitura.”

Como é de se imaginar, o reflexo destas e de outras experiências é a necessidade de sair mais vezes do Brasil para criar mais - e, é claro, arejar o olhar para entender melhor o país. “Sabe quando você está em um projeto há muito tempo? Aí, você faz uma viagem, aparece outro trampo que é prioridade e aprende com ele, conhece pessoas novas que falam coisas geniais, e quando você o retoma, tem outros olhos, outra mente e voltou outra pessoa? E consegue também resolver, ampliar e finalizar o projeto, e começar novos? Isso tem acontecido quando saio: tem sido muito bom, pois vejo o Brasil de fora.”
 

 

Tempo, vida, obra e mundo espiralares

 

Um ponto de intersecção entre todas as vertentes artísticas nas quais Novíssimo Edgar transita dialoga com a perspectiva do tempo espiralar, tão presente na obra da poeta, ensaísta, dramaturga, professora Leda Maria Martins. Essa perspectiva tem forte presença nas letras de seus trabalhos, como no caso do álbum Ultrassom, de 2018, que é visto como um trabalho com elementos afrofuturistas - algo que o próprio artista é reticente em afirmar.

“Como dizer que é futuro? É um futuro próximo, muito colado na gente. Não foi nem dois, três anos, um monte de coisa que aconteceu nas músicas. Coisas que eu achava que seriam distopia, que eu estava ficcionando, acabaram virando uma ficção especulativa depois de dois anos, sabe?”. Esse ponto dialoga com a questão de perspectiva: fatos que são lidos como distópicos e dignos de ficção científica em uma região formam a realidade vivida em outra área.

Para Novíssimo Edgar, o caráter visto como afrofuturista em seu trabalho dialoga com o pensamento espiralar ou, por exemplo, análogo a ondas sonoras: quando ela é propagada, fica em circulação. “O ocidente pensa o futuro e a vida como uma cronologia reta: passado lá atrás, presente aqui e o futuro lá na frente. Eu tenho tentado viver um pensamento espiralado.”

Por fim, uma possível explicação para o tom certeiro de suas letras feita pelo Novíssimo Edgar: “São coisas que fui lançando e, às vezes, o tempo só maturou e condensou.” Parafraseando versos da música Print, pode-se dizer que ele é o homem que vê tudo sobre o futuro do mundo através da janela do absurdo.

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