Mais do que reivindicar o protagonismo de existências e corpos invisibilizados, o segundo dia do Festival Kwanzaa-Escrevivência, que aconteceu na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), mostrou que a escrevivência pode apontar para novos horizontes em favor da construção de uma sociedade mais inclusiva e igualitária.
A primeira mesa foi Ujima: Sujeitos, lugares e modos coletivos de enunciação, cuja nomenclatura foi baseada em um dos princípios do Kwanzaa, relativo ao trabalho coletivo e responsabilidade. A atividade teve mediação de Rosenilton Oliveira, docente na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE/USP), e pesquisador associado no Laboratório Experimental de Arte-Educação e Cultura (Lab_Arte - FE/USP) e no Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana da USP (Lab/NAU/USP), e contou com participações de:
- Flávia Martins de Carvalho, juíza de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP), juíza auxiliar no Supremo Tribunal Federal (STF) e doutoranda em filosofia e teoria geral do Direito pela Universidade de São Paulo (USP);
- Mari Costa, professor orientador de sala de leitura na Rede Municipal de Educação na Cidade de São Paulo e pesquisadora em ancestralidade, memórias trans e políticas públicas;
- João Mouzart de Oliveira Jr., doutor no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos na Universidade Federal da Bahia (UFBA), especialista nas áreas de didática e metodologia do Ensino Superior e em gestão escolar com ênfase em pedagogia empresarial.
Escreviver a Justiça
Flávia Martins de Carvalho trouxe a dimensão sobre corpos negros em espaços de poder a partir da contação de histórias, uma vez que a sua área de pesquisa é em Direito e Literatura - consequentemente, sua pesquisa de doutorado consiste em como aplicar ao Direito o conceito de escrevivência. Como exemplo, contou o caso de um réu preso por suposta ligação com uma quadrilha, mas cuja história continha nuances que o inocentava - o fato de ser trabalhador rural e analfabeto o fez ser enganado pela quadrilha e ficar detido por um ano.
“Quando o confrontei com o termo de declaração assinado da delegacia, ele finalmente confessou que não sabia ler - sabia apenas desenhar o próprio nome. Era um modo de tentar disfarçar a falta de instrução. Tinha vergonha de ser analfabeto”, contou, ao narrar posteriormente que ele fora colocado em liberdade.
Essa história, segundo Martins de Carvalho, apresenta questões muito mais profundas - para as quais, inclusive, a casa grande precisa acordar. “Nessa escrevivência que compartilho, há muitas questões sobre as quais poderíamos debater: desigualdade social, xenofobia, analfabetismo, falência do nosso sistema de ensino e muitas outras coisas para as quais não tenho resposta.”
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“Não queremos falar sobre dor - estamos cansados de falar sobre dor. Estamos falando de alegria, que perpassa o reconhecimento da nossa existência. Se o nosso futuro foi negado, é pela rua que conseguimos emancipação - em vários setores e lugares.”
Ancestralidade e corpos dissidentes
Mari Costa, por sua vez, passou pelo modo como colonização e cis-heterornormatividade compulsória se entrelaçaram e, consequentemente, como essa dinâmica invisibilizou e tentou inviabilizar a existência de corpos e gêneros dissidentes.
“Se a escrevivência é ancestralidade e consiste em imagens primordiais, a questão da mãe-preta como imagem primordial, o ponto de virada a partir do olhar contemporâneo de onde conseguimos contar essa história, qual é a ancestralidade trans e LGBTQIAP+ em que poderemos nos basear para refazermos a escrita de nós?”, pondera.
Desse modo, Costa traz a busca, por meio da escrevivência, para reivindicar a existência da ancestralidade relativa à população trans. “Contemporaneamente, muitas pessoas conseguem reconstituir essa história com olhar menos violento, mas os registros que temos são dos colonizadores. Vemos, pelos autos da inquisição, que existimos. Como sabemos? Pois hoje, [ao ver] os corpos do passado, falar isso pode ser o que, epistemologicamente, chamamos de corpos trans. Nos registros, essas pessoas estão como homossexuais, mas hoje, vamos olhar e vamos reivindicar a nossa história a partir desse outro ponto de vista.”
Fugir da narrativa da dor
Já João Mouzart de Oliveira Jr. apresentou a perspectiva escrevivente a partir da sua própria trajetória, na periferia de Aracaju (SE), e do incentivo dado por sua mãe para persistir na trilha da educação. Mas, em paralelo, precisou lidar com o fato de se ver sem saída a não ser trabalhar em paralelo e lidar com a invisibilização à qual ele, sua mãe e pares eram submetidos.
“Para chegar até aqui, tive de dar toda uma relação de apoio à minha mãe. Ela era vendedora de rua. Penso na rua não como um lugar de sofrimento, mas como um lugar de transformação e de futuros possíveis. A rua, do matuto e do caruru, de todos os elementos que compõem toda uma ancestralidade, a rua como ponto central do gosto e da alegria”, relata.
Todavia, o seu objetivo é fugir da perspectiva do sacrifício e do sofrimento, ao focar no desenvolvimento de estratégias para evidenciar existências que são apagadas - simbólica e literalmente. “Não queremos falar sobre dor - estamos cansados de falar sobre dor. Estamos falando de alegria, que perpassa o reconhecimento da nossa existência. Se o nosso futuro foi negado, é pela rua que conseguimos emancipação - em vários setores e lugares”, completa.