Cabe a nós trazermos conosco as nossas ancestrais que foram histórica e socialmente silenciadas - Entrevista com Quézia Lopes

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“Quando fico até o final dos filmes, durante as exibições, para assistir aos créditos, são também os homens brancos a maioria nas equipes técnicas e criativas. Ironicamente, vejo essas mesmas pessoas ovacionando os filmes durante as premiações celebran...

Cabe a nós trazermos conosco as nossas ancestrais que foram histórica e socialmente silenciadas - Entrevista com Quézia Lopes
Acervo Ancestralidades

“Quando fico até o final dos filmes, durante as exibições, para assistir aos créditos, são também os homens brancos a maioria nas equipes técnicas e criativas. Ironicamente, vejo essas mesmas pessoas ovacionando os filmes durante as premiações celebrando a ‘diversidade do cinema brasileiro’.” Esta fala da cineasta Quézia Lopes, diretora do documentário Corpos Invisíveis, lançado em 2023, traz consigo um questionamento necessário quando se fala em diversidade e identidade nacional, em particular no cinema. “Qual diversidade e para quem? O audiovisual brasileiro reflete a exclusão social, de gênero, raça e classe da sociedade brasileira.”

O questionamento tem razão de ser e é derivado de um cenário que, assim como em diversos segmentos sociais, escancara a desigualdade sociorracial e de gênero no país. De acordo com estudo divulgado em 2018 pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), apenas 8% de profissionais no segmento audiovisual abrangiam pessoas negras. À época, inclusive, nenhum filme contava com roteiro ou direção assinados por mulheres negras.

Desse modo, Corpos Invisíveis coloca em evidências novas perspectivas em frente e atrás das câmeras. Se o filme conta com entrevistas feitas com mulheres negras e intervenções artísticas entre elas, a equipe técnica considera também a intersecção entre raça e gênero - “para mim, isso é sobre aquilombar-se”, destaca Quézia Lopes.

O documentário passa por relatos nos quais as entrevistadas partilham experiências que afetam suas corporeidades, seu ser e estar no mundo, a partir de marcadores como gênero, raça, classe e território. Alguns dos temas abrangem a invisibilidade da mulher negra em espaços públicos, identidade e ancestralidade, o mito da agressividade da mulher negra, solidão, afetividade e carência afetiva, maternidade, sexualidade, saúde emocional, vida acadêmica, racismo, machismo, hipersexualizçaão, entre demais tópicos que permeiam o seu cotidiano.

Confira a entrevista a seguir.

 

O documentário aborda dimensões diversas sobre a invisibilização social de mulheres negras e como repercutem na subjetividade delas. O que você pode dizer sobre o processo para desenvolver o argumento, a premissa e a abordagem sobre o tema?

A motivação para a escrita do documentário nasce, num primeiro momento, de minhas vivências como mulher e como corpo racializado. Nasce também do meu encontro com os movimentos negros e de mulheres, com os estudos sobre raça, relações étnico-raciais e gênero. A partir daí, me lanço num processo de pesquisa, de leitura, formações e escuta de outras mulheres negras, considerando que somos muito diversas dentro da experiência de ser negra no Brasil. Nesse processo de escrita, me interessava muito as interseções de gênero, raça, classe, origem, as vivências partilhadas ou em comum, o que se repete nas nossas histórias e trajetórias, pois é aí onde está a estrutura, aquilo que há de estruturante no racismo, machismo, misoginia e nas relações de classe. 

Entendendo o pessoal como político, queria que as histórias narradas nascessem dos relatos pessoais, para entender o que se repete nas nossas histórias, que, ao mesmo tempo, também são plurais e diversas. Mas este não é ainda o filme. É no encontro com outras mulheres negras que o filme de fato se faz. Cada uma vai se somando ao processo criativo e trazendo suas vivências, sua arte, seu trabalho, sua perspectiva, suas crenças, seu artivismo. Não digo apenas com relação ao elenco e às personagens dessa narrativa, mas também à equipe técnica. E, para mim, isso é sobre aquilombar-se.

 

Um ponto emblemático da produção diz respeito à equipe de produção ser composta por profissionais negras. Como Corpos Invisíveis traz também à tona o debate sobre sub-representação no segmento audiovisual?

Escrevi Corpos Invisíveis exatamente no contexto da pesquisa divulgada pela Ancine e Gemaa e queria que o filme abordasse essa temática não apenas na frente das telas, mas também atrás das telas também. Temos filmes com temática negra lançados recentemente, neste ano inclusive, com elenco integralmente negro, mas a equipe técnica por trás das telas é majoritariamente branca e masculina.

Enche-me de orgulho dizer que o nosso longa tem equipe de 98% de mulheres negras, à frente e atrás das telas, e isso é mais incomum do que gostaria que fosse. Somos a exceção e não a regra. Isso não é sobre pioneirismo: é sobre exclusão. Quando escrevi Corpos, queria visibilizar essa temática na prática, não apenas falando dela, mas para as pessoas poderem ver os cinemas, obras, filmes, feitos por mulheres negras, não de modo individualizado ou localizado, mas com mulheres negras à frente e atrás das telas, do elenco à equipe técnica, das funções de assistência às de chefe de departamento, das funções técnicas às criativas: em todas elas.


A Casa das Pretas foi uma das locações. Quão simbólica foi a presença no filme do local onde Marielle Franco fez o seu último evento político? É correto pensar em correlações sobre apagamento, resistência e renascimento?

A Casa das Pretas foi um espaço que nos acolheu com todo carinho. A Casa das Pretas foi um espaço que nos recebeu e nos abraçou, mesmo diante de um contexto tão difícil - a perda recente de Marielle, na mesma noite em que participou de um evento na Casa.

Quando gravamos lá, em 2019, fazia um ano que Marielle Franco fora assassinada. Foi um momento de comoção para todas nós estarmos lá após isso - inclusive, durante os ensaios feitos lá, em novembro de 2018. Mas também foi um momento de afirmação da nossa luta e existência. A morte de Marielle faz parte de um contexto de apagamento e silenciamento de mulheres negras. Mas também faz parte, como o filme, de um contexto diário de resistência de mulheres negras e aquilombamento para resistir e enfrentar, lutar. Do luto também como verbo, apesar da dor.

 

 

+ Assista ao trailer de Corpos Invisíveis

+ Entrevista com a cineasta e diretora Joyce Prado Almeida

 


Uma das premissas do filme é a invisibilização e desumanização a partir da intersecção entre raça e gênero. É pertinente associar esse aspecto à invalidação de saberes e construção intelectuais de pessoas negras, em especial mulheres?

Sim. Segundo bell hooks, uma vez que chegou à teoria, pois estava sofrendo, a dor dentro dela era tão intensa que não poderia continuar a viver. Chegou “à teoria desesperada, querendo compreender, querendo entender o que estava acontecendo” ao seu redor, quando chegou à teoria, acima de tudo, pois queria fazer a dor ir embora; que viu na teoria um local para a cura. Esse foi o papel cumprido pela arte na minha vida.

Mas logo entendi que, para minha arte ser reconhecida ou validada socialmente, eu precisaria passar pela academia, por espaços de formação - e não estou dizendo que esse processo é legítimo ou igual para todo artista, mas foi assim para mim. Foi como, naquele momento, interpretei e entendi ser necessário, ou um caminho possível. Passei anos na academia sem me reconhecer lá, sem me sentir parte, sem ver outros iguais - meu primeiro ingresso na academia foi em 2006 e, depois, em 2010 - pois também queria ocupar aquele espaço. A arte que eu queria fazer também parecia não caber em lugar algum. Estar lá me trouxe dor, mas também força para movimentar e transformar a raiva em movimento, a minha dor em cura. É isso o que tenho feito da arte e da teoria: é para isso que elas me servem. É travessia. É afetação, afetar e ser afetada.

A minha cura veio do encontro com tantas artistas e intelectuais negras, mestres negros e negras, que a academia nunca me apresentou. Quem cumpriu esse papel pedagógico em minha vida foram os movimentos negros e de mulheres negras. Foi um processo de fato de travessia, descoberta, empoderamento e cura. Ainda estou nesse processo cada vez que me lanço na arte, na pesquisa e no artivismo.

Uma fala de Ana Pi, no filme NoirBlue, é tão linda e tem sido meu mantra ultimamente e preenchido tantos lugares do meu ser: “Porque a gente está no futuro. E no futuro, nós falamos com as nossas próprias bocas. E no futuro, a roda é ainda maior. E no futuro, há espaço para coisas que a gente nem imaginou, que nem esse momento”.

"Enche-me de orgulho dizer que o nosso longa tem equipe de 98% de mulheres negras, à frente e atrás das telas, e isso é mais incomum do que gostaria que fosse. Somos a exceção e não a regra. Isso não é sobre pioneirismo: é sobre exclusão."

Os últimos tempos foram marcados por debates intensos sobre a nomeação de uma ministra negra para o STF. Como o fato de nunca ter havido nenhuma ministra negra na história do STF, assim como a resistência de determinados grupos sociais, dialoga com a invisibilização histórica de mulheres negras em sua opinião?

Estamos falando de 132 anos do STF sem uma mulher negra ter sido um/a das/os 171 ministras/os que passaram por lá. Se falarmos de raça, apenas três homens negros fizeram parte da corte como ministros nesse mais de um centenário; se falarmos de gênero, apenas três mulheres passaram por lá: a primeira muito recentemente, no ano 2000. Se falarmos da interseção entre gênero e raça, nenhuma mulher negra foi ministra do STF. Por isso, essa pauta é urgente e necessária.

Não é identitária: é sobre estrutura e como racismo e machismo/misoginia vem estruturando as relações sociais brasileiras, instituições, organizações e toda sociedade. É sobre apagamentos históricos. Recentemente, o presidente teria dito que raça e gênero não seriam critérios para a indicação de um nome ao STF. Porém, até hoje raça e gênero têm sido, sim, critérios: a branquitude precisa aprender a se racializar. Por isso, o privilégio dessa nomeação tem sido quase exclusivo de homens brancos.

 

Alguns momentos do filme mostraram as protagonistas falando do empoderamento de gerações futuras de mulheres negras. É possível pensar no empoderamento de jovens negras para combater a perspectiva racista da invisibilização e subalternização? Por quais motivos?

Sim. Danielle Anatólio, uma das entrevistadas e performer do filme, que fez também a preparação corporal e de elenco das performers -, fala, na entrevista, sobre sermos a geração que podemos falar. Por isso, cabe a nós trazermos conosco, junto com nossas narrativas, falas, artes e artivismos, as nossas ancestrais que não puderam falar e foram histórica e socialmente silenciadas. Vou para a arte-educação justamente com o desejo de fazer mudança, movimentar as estruturas, contribuir com o empoderamento das novas gerações de meninas e mulheres negras, para que elas tenham uma infância, adolescência, juventude melhor em comparação com eu e minha geração tivemos. No caso, com mais representatividade e boas representações sobre nós mesmas, protagonismo, que contem as histórias sobre nós que ainda não foram contadas, e silenciadas, apagadas ou estereotipadas por anos

Como Chimamanda Ngozi Adichie disse, o problema com os estereótipos não é que eles sejam ou não verdade, mas se tornam a única história sobre nós. O racismo nos generaliza, uniformiza e achata, apaga nossas diferenças e individualidades, nos faz sermos vistos sempre como grupo, número ou estatística. Mas nunca como indivíduos, protagonistas e seres humanos complexos e imperfeitos como quaisquer outros, com erros e acertos, qualidades e defeitos, diversos, humanos, demasiadamente humanos.

Quando o filme estreou no Festival do Rio, em outubro, fiz questão de convidar minhas jovens alunas, todas jovens mulheres negras, do Cinema Nosso, para a sessão de pré-estreia do filme - fechada para convidados. Eu queria que elas vivessem aquele momento de ver uma equipe inteira de mulheres negras e um elenco inteiro de mulheres negras, que percebessem que para cada dor, existe cura quando nos juntamos, quando nos permitimos, quando nos acolhemos e abraçamos. Quando amamos como escolha, como ação, mais do que apenas um sentimento - como bem nos ensinou bell hooks.

Do mesmo modo, quando o filme estreou internacionalmente no Festival LABRFF (Los Angeles Brazilian Film Festival), fiz questão de manter a aula online que estava ministrando semanalmente aos alunos, todos negros e periféricos, do curso de Multimídia do Geledés - Instituto da Mulher Negra. Dois dias antes da premiação, em pleno Festival, ministrei de lá minha última aula no curso como educadora do módulo de Direção, para eles poderem vislumbrar que é possível chegarmos em muitos lugares com nossas narrativas e corpAs, que são, sim, potentes. Para minha alegria e surpresa, o filme recebeu Menção Honrosa no Festival, na categoria Documentário – Special Recognition Documentary. A certeza do poder das nossas narrativas só se validou e cresceu ainda mais.


Dentro da lógica da branquitude, para além do enfrentamento das múltiplas dimensões do racismo, quais medidas podem ser, em sua opinião, relevantes para romper a lógica da invisibilização por parte desse grupo?

Tenho visto, nos espaços por onde tenho passado com o filme, que, com muita frequência, obras que chegam às salas de exibição, inclusive com protagonismo de personagens e atores e atrizes negras/os, são dirigidos, produzidos e escritos por pessoas brancas - sobretudo homens brancos. Não à toa, ao analisar décadas de longas-metragens que chegaram ao circuito comercial ou às melhores bilheterias do país, o Gemaa e a Ancine não encontraram nenhuma mulher negra como diretora ou roteirista. Não é porque não façamos filmes, mas por eles enfrentarem o dobro de barreiras para serem produzidos e chegarem ao grande público e às salas comerciais de exibição, para serem distribuídos pela indústria, e acessarem os recursos públicos, especialmente os altos montantes, como os do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

Mesmo quando a narrativa tem protagonismo negro no elenco, na hora de “colher os louros” nos festivais, quem encontro lá são, sobretudo, homens brancos. Quando fico até o final dos filmes, durante as exibições, para assistir aos créditos, são também os homens brancos a maioria nas equipes técnicas e criativas. Ironicamente, vejo essas mesmas pessoas ovacionando os filmes durante as premiações celebrando a “diversidade do cinema brasileiro”. Qual diversidade e para quem? O audiovisual brasileiro reflete a exclusão social, de gênero, raça e classe da sociedade brasileira. A conduta antirracista que a branquitude deve e pode adotar é recuar em seus privilégios e abrir mão deles para os grupos minorizados socialmente - por vezes, são maioria na população brasileira , poderem assumir também lugares de protagonismo e narrar suas próprias histórias e narrativas, e visibilizar sua própria arte.

No final das contas, me parece que todos amam a cultura negra, mas amar o negro já é outro assunto para eles. Mas, queira a branquitude ou não, faremos isso, assumiremos cada vez mais nosso protagonismo, com nossos próprios discursos, saberes, artes e práticas culturais. Como a escritora Carolina Rocha, uma das nossas entrevistadas, diz no filme, “para o desespero deles, a gente existe”, queiram ou não abrir mão dos seus privilégios sociais, econômicos, políticos.

De minha parte, por vezes, me sinto muito cansada diante dessa estrutura, mas tenho raiva - tenho canalizado-a para mudar o que não aceito e não podemos mais aceitar ou permitir. Quando passei pela imigração nos EUA, em Houston, a caminho de Los Angeles, para participar do Festival, recebi uma pergunta que vem ecoando nos meus ouvidos desde então: “você fez um filme?”, me perguntaram incrédulos. Respondi que sim: mulheres negras também fazem filmes. O que desejo: um dia, quando pedirmos para as pessoas fecharem os olhos e imaginarem a figura de um/a diretor/a de cinema, elas naturalizem imaginar uma mulher negra e não mais apenas homens brancos. Tenho muita pressa para isso se naturalizar e se tornar uma constante na nossa sociedade.

 

Glossário

Os verbetes a seguir apareceram no decorrer da entrevista:

 

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