Falar sobre a luta em favor da equidade racial e de gêneros requer, obrigatoriamente, destaque para o protagonismo de Lélia Gonzalez (1935-1994). A intelectual representa, por meio de sua trajetória, um farol para os movimentos negro e feminista em favor da luta por equidade.
Parte importante da aura relativa à atuação de Lélia Gonzalez diz respeito à sua versatilidade e polivalência por meio do trabalho em áreas diversas. Nesse sentido, a mobilização contrária ao mito da democracia racial, a partir do desenvolvimento de publicações que destacavam dados para corroborar a desigualdade sociorracial e de gênero, a sua produção acadêmica e o trabalho como professora, o interesse em psicanálise e a aproximação com intelectuais negras e negros em âmbito internacional são alguns dos exemplos de sua importância histórica.
“Flávia Rios e eu falamos que eram muitas Lélias, pois ela era múltipla”, comenta Alex Ratts, doutor em Antropologia Social, professor titular na Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador na área dos estudos étnico-raciais e de gênero. Alex Ratts produziu uma biografia sobre Lélia Gonzalez, com parceria com Rios, socióloga, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Afro-Cebrap), dentro da série “Retratos do Brasil Negro”, da Selo Negro Edições.
Um aspecto emblemático na trajetória da intelectual foi o fato de chamar a atenção para a ausência de dados em âmbito racial nos Censos de 1960 e 1970, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A partir da produção acadêmica de Lélia Gonzalez, que neste caso evidenciou a invisibilização da desigualdade sociorracial no país, estudos com esse teor pressionaram o IBGE a captar dados sobre cor e raça a partir do Censo de 1980.
“Lélia tinha uma habilidade, reconhecida e mencionada por pessoas que a conheceram: ser didática. Ela fazia, com muita habilidade, textos curtos e falas públicas”, explica Ratts. “Como na ditadura militar não se podia falar em racismo e havia a propaganda do mito da democracia racial, ela participou de grupo de intelectuais ativistas para romper o silêncio sobre o racismo - que tem muitas formas e dimensões para ser captado e mensurado. Ela foi a pessoa quem protagonizou a mensuração dos efeitos do racismo.”
Perspectiva e estar no mundo interseccionais
Antes mesmo de o conceito de interseccionalidade ter sido cunhado pela pensadora crítica da raça Kimberlé Crenshaw, em 1989, a relação intrínseca entre disparidades em âmbitos racial e de gênero tinha espaço central na trajetória acadêmica e na atuação política de Lélia Gonzalez - por meio do que se pode chamar de perspectiva interseccional.
Nesse sentido, Lélia Gonzalez já se pautava pela perspectiva interseccional quando essa premissa ainda não era tão bem compreendida. Mais do que isso, essa lógica contemplava também classe social. “A mulher negra já é o ser interseccional”, reforça Alex Ratts. “Lélia foi, provavelmente, uma das primeiras a falar racismo e sexismo, pois a perspectiva interseccional não contempla somente raça. Vamos atualizar para gênero e classe - é entre racismo, sexismo e segregação espacial.”
Além disso, Lélia Gonzalez - e demais referências para o movimento negro, como Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento e a psiquiatra Neusa Santos Souza - romperam com a perspectiva aceita, por meio do mito da democracia racial, sobre os estereótipos relacionados ao lugar de pessoas negras na sociedade. Nesse contexto, trata-se de postos subalternos, seja nas relações sociais ou no mercado de trabalho.
Todavia, ainda que ela e demais intelectuais negros tenham quebrado paradigmas social e racialmente excludentes, inclusive na academia, elas depararam-se com barreiras que ainda precisam ser totalmente superadas - seja nas suas próprias trajetórias, seja em espaços de poder e de decisão. “Mulheres negras até hoje não são consideradas sujeitas do pensamento. Nos cursos de antropologia, [a obra de] Lélia Gonzalez tem entrado mas não em disciplinas teóricas - somente sobre feminismo e relações raciais. Há ainda um limite para recepção”, detalha Ratts.
Sobre o pretuguês e novos horizontes
“Cumé que fica” a ruptura com o status quo excludente, inclusive em âmbito linguístico? Reflexões com esse teor tiveram espaço central na obra de Lélia Gonzalez por meio do pretuguês, conceito criado pela própria intelectual para destacar a influência africana na língua portuguesa.
De acordo com o texto “A mulher negra na sociedade brasileira: Uma abordagem político-econômica”, que integra a coletânea “Por um Feminismo Afro-Latino-Americano”, organizada por Flávia Rios e Márcia Lima, secretária de Ações Afirmativas, Combate e Superação do Racismo no Ministério da Igualdade Racial, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Afro-Cebrap), trata-se de:
"A africanização do português falado no Brasil (o 'pretuguês', como dizem os africanos lusófonos) e, consequentemente, a própria africanização da cultura brasileira."
“Lélia fala que ouviu a expressão pretuguês de um africano residente do Brasil”, relata Alex Ratts. “Naquele período, por exemplo, já era necessário estudar essas africanias no português brasileiro. Ela traduz a pedagogia política dela - o que é o pretuguês. Ela tinha a habilidade de fazer tradução popular e transpor linguagens e lugares.”
Outro aspecto afrodiaspórico da obra da intelectual dialoga com a perspectiva internacional. Ao mesmo tempo em que o caráter pioneiro do seu trabalho, inclusive pela perspectiva interseccional, tem correspondência com autoras negras estadunidenses contemporâneas dela, como Alice Walker, Angela Davis e Audre Lorde, a sua mobilização pautou-se também pelo diálogo com a produção intelectual afrodiaspórica e autoras e autores desses mesmos espaços, em particular por meio do pan-africanismo e da América Latina - ou Améfrica Ladina, como se referia à região.
Nesse sentido, a sua potência intelectual e sociopolítica recebe também reconhecimento em âmbito internacional. “Ela foi a locais como Martinica, Peru e Panamá. Esse contato reflete-se em seus textos - tanto que ela cunhou a expressão feminismo afro-latino-americano. Lélia Gonzalez já não é uma pensadora brasileira, nos limites e no horizonte nacionais. Ela é uma pensadora internacional e tem sido muito conhecida, estudada e publicada”, descreve Alex Ratts.
Psicanálise, raça e gênero
Outro segmento de interesse para Lélia Gonzalez abrange a perspectiva psicanalítica, em particular por meio da perspectiva interseccional com negritude. Por meio do contato com a obra de Jacques Lacan (1901-1981), a filósofa usa o conceito de sujeito suposto saber para demonstrar - e problematizar - o fato de existir alguém que fala pelo negro e tem tal suposto saber sobre a sua condição.
Nessa esfera, a imersão de Lélia Gonzalez dialoga com o conceito de racismo por denegação, ou seja, dissimulado em teorias culturais que normalizam e celebram miscigenação, assimilação e o mito da democracia racial - ou seja, a aceitação de saberes e contribuição afro-brasileiras, mas em âmbito subalterno. “Ela usa termos que Lacan também usava, como infant - ou seja, a criança. O negro seria a pessoa pela qual alguém falaria”, destaca o professor titular na UFG.
Vale destacar que, de modo contemporâneo, mas em segmentos diversos, intelectuais do nível de Neusa Santos Souza e Beatriz Nascimento pensavam também em relações entre psicanálise e condição de pessoas negras, passando, respectivamente, por análises representacionais da pessoas negras da classe média e da autoconsciência racial. “Elas têm caminhos diferentes. Mas as três mulheres negras que tiveram um livro autoral no período preocuparam-se com a questão da psique negra”, conta Ratts.
Legado e horizontes para o futuro
Quando se fala no trabalho e nos ensinamentos de Lélia Gonzalez, logo o legado deixado pela pensadora para as gerações atual e futura do movimento negro vem à tona. A perspectiva interseccional logo vem à tona, inclusive ao considerar o seu pioneirismo nos diálogos e articulações com o atual movimento LGBTQIAP+. Idem o debate sobre saúde mental e população negra, assim como a adoção de perspectiva afrodiaspórica.
Ainda assim, pode-se considerar que a influência de sua obra transcenda todos esses e demais eixos de atuação. Logo, é necessário falar que Lélia Gonzalez propôs um projeto de país, de universidade e de teoria política em âmbitos inclusivo e igualitário. Logo, os seus ensinamentos atemporais passam pela perspectiva afrodiaspórica e pelo processo de descolonização - inclusive em âmbito estético, por meio da afirmação de signos de vestuário, corporais e comportamentais inerentes à pessoa negra no mundo.
“O grande legado e contribuição da Lélia Gonzalez é repensar esse país de forma constante. Uma coisa é repensá-lo em plena ditadura, outra coisa é a redemocratização ou, enfim, nos dias atuais. Gosto de ter uma atitude sankofa: voltar nessas autoras e em Lélia para pensar o que vivemos hoje”, finaliza Alex Ratts.