A programação do terceiro dia do Festival Kwanzaa-Escrevivência contou com a roda de conversa Umoja: corpus estético em diferença. A mesa contou com participações de pessoas pesquisadoras integrantes do Grupo de Estudos Escrevivência: Corpu(s) Estéticos em Diferença, criado durante o período em que Conceição Evaristo esteve à frente da Cátedra Olavo Setúbal de Artes, Cultura e Ciência:
- Blenda Souto Maior, jornalista pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), mestranda do Programa Diversitas, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH USP)
- Renata Gonçalves, mestranda pelo Programa de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP USP), psicóloga pela Pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP);
- Júlia Farias, mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da FFLCH USP;
- Cajota Rodrigues, mestrande pelo Programa Diversitas da FFLCH, pedagogo, slammer, educador, multiartista e pesquisador;
- Gessica da Silva, graduanda do curso de Letras com habilitação em Latim pela FFLCH, pesquisadora sobre pretuguês na língua portuguesa e atriz.
Ocupar, escreviver e resistir
Durante sua fala, Blenda Souto Maior abordou, a partir da vivência na Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência, o fato de o grupo criar novas possibilidades de existir e ocupar espaços nos quais estão - no caso, em âmbito acadêmico. “A professora Conceição Evaristo nos ensina que a escrevivência é tecida com os fios da ancestralidade, compondo uma tessitura a muitas mãos. A nossa experiência e coletividade é substrato e substância para a produção epistemológica. Juntos, temos força para lutar contra os constantes gestos epistemicidas, para lembrar Sueli Carneiro, outra intelectual que abriu portas para nós e tornou a nossa existência possível neste espaço”, pondera.
Géssica Silva, por sua vez, destacou o seu trabalho, cujo ponto de partida foi a sua primeira pesquisa, relacionada ao pretuguês na língua portuguesa, em particular como instâncias da linguística e da sociolinguística sinalizam o funcionamento de africanismos - ou seja, termo relativo ao estudo em Letras para designar a tal influência em idiomas em diáspora. “Há africanismo no inglês, no francês e no espanhol. No português, especificamente o brasileiro, o africanismo ocupa uma instância muito maior, pois determina o modo como traduzimos o mundo. Isso é onde coaduna a questão da escrevivência, pois os nossos africanismos estão intimamente ligados a essa memória da mãe preta”, sinaliza
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Em paralelo, Cajota Rodrigues descreveu que decidiu se tornar professor nos anos 1990, quando estava no ambiente escolar. O processo de amadurecimento o levou a se dedicar a entender como crianças negras aprendem de fato a ser crianças negras, o que dialoga com o seu próprio processo - “até hoje sou uma criança negra aprendendo a ser uma criança negra. Isso está dentro da gente.”
Dentro desse processo de autodescoberta, em particular no ambiente universitário, a aproximação com o conceito de escrevivência o ajudou a encontrar novos horizontes para a sua trilha pessoal e acadêmica. “Para mim, a escrevivência virou um aparato teórico de leitura de mundo. Consigo olhar para ela, não somente na literatura negra ficcional, mas para a minha literatura negra acadêmica. A epistemologia negra pode ser olhada, analisada e pensada por meio da escrevivência”, considera.
Na sequência, Renata Gonçalves abordou o papel de acolhimento que o Grupo de Estudos Escrevivência: Corpu(s) Estéticos em Diferença representou para as e os seus integrantes, inclusive no que diz respeito à construção de estratégias de enfrentamento e de resistência. “Se a escravização é um dos pontos de partida da nossa sociedade, nos instantes em que ainda seguem a minha fala, quero tecer considerações e afetos sobre o que acontece quando nos encontramos para escreviver no contexto da universidade ocidentalizada. Esse modo de conceber e se inserir em um discurso está diretamente associado à escrevivência evaristiana, um método de escrita e de inscrição a partir de perspectiva humanizada de sujeitos excluídos historicamente no discurso social.”
Por fim, Júlia Farias destaca, em meio a exemplos para evidenciar o alcance que a escrevivência tem em âmbito acadêmico e na construção de saberes, seja por meio de congressos ou de cidades e países onde aconteceram - e a palavra da escrevivência foi levada, o papel desse conceito para decolonizar e aprofundar conceitos multidisciplinares e intrínsecos à evolução sociocultural e política. “Vejo com entusiasmo as contribuições que a escrevivência pode fazer não somente à crítica literária brasileira e à análise das texturas negras, mas também aos estudos de outras áreas do conhecimento, como história, psicologia, educação, antropologia, artes visuais, direito, entre outras”, finaliza.