“A ABPN promove a visibilidade e a valorização de pessoas pesquisadoras negras, ao mesmo tempo em que fomenta o estudo das relações raciais e a produção de conhecimento sobre a África e suas diásporas.”
Esta explicação, feita por Adilson Pereira dos Santos, presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) (ABPN), e Delton Aparecido Felipe, coordenador da Área de Políticas e Ações Afirmativas da organização - e que foi secretário-executivo da associação entre 2022 e 2024 -, ajuda a compreender a dimensão e a abrangência do trabalho exercido para fomentar e apoiar o ensino, a pesquisa e a extensão acadêmica e científica, com foco na temática étnico-racial.
Ao atuar pela defesa da pesquisa acadêmica e científica realizada prioritariamente por pessoas pesquisadoras negras sobre temas de interesse direto da população afro-brasileira, a ABPN destaca-se por sua articulação com órgãos do poder público, ONGs e demais organizações das sociedade civil e academia para mostrar que “a construção de uma sociedade antirracista deve ser um esforço coletivo e comunitário” em todas as suas esferas.
Em entrevista à Plataforma Ancestralidades, Adilson Pereira dos Santos e Delton Aparecido Felipe falam sobre o trabalho que a ABPN desenvolve com esse propósito, a articulação com esferas diversas para mostrar as múltiplas dimensões da incidência da pauta antirracista na sociedade. Essa abordagem destaca, desse modo, a intenção da associação em visibilizar a pesquisa acadêmica, “pois a escola não fala delas e ensina uma ciência branca" e, com isso, "a negritude moderna se valoriza sem desvalorizar o outro.”
Confira o diálogo a seguir.
Como a ABPN visa, por meio do trabalho de defesa à produção acadêmica de pessoas pesquisadoras negras, influenciar a academia e demais segmentos sociais, por meio de evidências, sobre o combate às desigualdades sociorraciais e defesa de pautas fundamentais para a população afro-brasileira?
A ABPN nasceu com o compromisso de lutar para o Estado reconhecer a essencialidade da população negra na constituição do Brasil e na produção de conhecimento do país. A associação também visa construir ações de reparação e valorização da população negra, considerando suas intersecções sociais. Para cumprir esse propósito, ao longo de seus 25 anos de existência, a ABPN tem atuado na produção, organização e divulgação de conhecimentos antirracistas no ambiente acadêmico e em outros espaços da sociedade. Nesse sentido, a Associação atua em três frentes estratégicas:
- Divulgação acadêmica: fomentar a produção e a difusão do conhecimento científico sobre a temática racial. Isso é realizado por meio da organização de eventos, da publicação de livros e periódicos especializados, e da promoção de debates e seminários;
- Articulação social: estabelecer conexões entre diversos setores da sociedade, unindo pessoas pesquisadoras, movimentos sociais, ONGs, órgãos governamentais e a comunidade em geral. Essa articulação é crucial para fortalecer a luta antirracista e assegurar que as demandas da população negra sejam ouvidas e consideradas;
- Formação de lideranças: investir na formação de novas lideranças negras, capacitando jovens e pessoas adultas para atuarem como agentes de transformação social, por meio de cursos, oficinas e workshops.
Atualmente, a ABPN possui mais de 5 mil pessoas associadas, incluindo docentes, discentes, técnicos administrativos do Ensino Superior e da Educação Básica, além de ativistas de movimentos sociais, em diversas instituições de ensino do Brasil. A Associação busca, sobretudo, desenvolver ações, trabalhos, conferências, reuniões, cursos, debates e pesquisas focadas em temas relacionados à população negra.
Além disso, a ABPN também promove o intercâmbio com outras associações brasileiras e estrangeiras, como a Asociación de Investigadores/as Negros/as de América Latina y el Caribe (AINALC) e a World Education Research Association (WERA). O objetivo é propor medidas para a política de ciência e tecnologia, por meio de seus associados, visando a promoção da igualdade racial. A ABPN também atua ativamente em diversos espaços, como universidades, terreiros, sindicatos, ONGs, igrejas, empresas, conselhos - como o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (COMPIR) - federações e outras entidades de pesquisa, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). A associação também tem participação em jornais, imprensa e mídias, além de colaborar com organizações de mulheres, juventudes, quilombolas e grupos LGBTQIA+. Afinal, a população negra é diversa e deve estar representada em todos os espaços.
Em resumo: o principal objetivo da ABPN é reunir e fortalecer o protagonismo negro. A associação busca congregar quem se dedica, direta ou indiretamente, à temática racial, se identifica com os problemas que afetam a população negra e, sobretudo, tem interesse em encontrar soluções para essas questões.
Por meio do aumento no ingresso de pessoas negras em universidades, pode-se ver crescimento significativo na produção acadêmica com foco em aspectos diversos sobre a população negra e na ancestralidade afro-brasileira. É possível considerar que esse fato tende a resultar em mudanças de paradigmas, mesmo tímidas, na estrutura acadêmica e no modo como pautas da população negra são vistas?
O aumento do número de pessoas negras nas instituições de ensino superior e, consequentemente, de pessoas pesquisadoras negras, contribui significativamente para mudança de paradigma. Por muito tempo, a academia minimizou ou ignorou saberes e práticas da população negra na sociedade brasileira, em uma estratégia de exclusão e negação de direitos. Sem dúvida, políticas de ações afirmativas, como a reserva de vagas para pessoas negras nas instituições de ensino, foram essenciais para essa transformação.
Ciente da importância da presença negra nas instituições de ensino e em outros espaços, a ABPN nasceu com uma proposta de inclusão. A Associação oferece oportunidades para pessoas pesquisadoras negras poderem construir conhecimentos sobre suas culturas, povos e tradições. Esse é um passo fundamental para combater o racismo que ainda permeia o tecido social do país. Sendo assim, a Associação constitui-se como espaço de congregação da intelectualidade negra - acadêmica e não acadêmica.
A Associação atua em múltiplos níveis e espaços, com o objetivo de reconhecer e organizar a produção científica e as contribuições da população negra em diversas áreas do conhecimento e, desse modo, evidencia o papel da força intelectual negra no desenvolvimento do Brasil e do mundo. A crescente presença de intelectuais negras e negros no ambiente universitário tem sido fundamental para a formação de grupos de estudo e pesquisa sobre as relações raciais no Brasil e fora dele. Tais iniciativas, com abordagem investigativa e crítica, têm possibilitado novas interpretações da realidade social. Ao promover o diálogo interdisciplinar, a ABPN facilita a troca de experiências e a construção de pontes entre saberes distintos, o que se traduz em estratégias concretas para a promoção da igualdade racial e o combate ao racismo estrutural.
A ABPN é uma reunião dessa intelectualidade negra (seja acadêmica ou não) que acontece em diversos níveis e espaços e que reconhece a contribuição negra sobre diferentes perspectivas, organiza o que essas intelectuais têm feito, as pesquisas que fazem, o que desenvolvem, o subsídio da população negra, da força intelectual negra para o desenvolvimento do nosso país e do mundo em geral. Ao contrário do que muitos pensam provavelmente, de que uma associação somente de pessoas pesquisadoras negras seria uma espécie de racismo ao contrário ou segregação, a intenção é dar visibilidade a elas, pois a escola não fala delas e ensina uma ciência branca. Nesse sentido, a negritude moderna se valoriza sem desvalorizar o outro.
A maior presença de pessoas negras nas universidades abriu espaço para composição de grupos de estudos e pesquisas sobre as relações raciais no Brasil, a partir de olhar investigativo e crítico conduzido a outras formas de interpretação da realidade. Ao congregar e incentivar o diálogo entre essas pessoas pesquisadoras de diferentes áreas do conhecimento, a ABPN promove a troca de experiências e a construção de pontes entre saberes distintos. Isso se traduz em estratégias para a construção de ações de promoção da igualdade racial e combate ao racismo. Embora não se possa exigir que toda pessoa negra que ingressa na universidade se dedique à discussão sobre o racismo, a crescente presença dessa população no ambiente acadêmico tem gerado impacto significativo. Em grande parte, a participação de pessoas negras, parte delas oriundas de movimentos sociais, tem impulsionado a pauta racial para o centro do debate e dos estudos.
Esse protagonismo tem acelerado a efetivação de marcos legais e políticas públicas, como a Lei 10.639/2003. Além disso, essa mobilização tem fortalecido a luta pela garantia da permanência dos estudantes que ingressaram no Ensino Superior por meio da Lei de Cotas, pela reserva de vagas em concursos públicos recentemente atualizada no Congresso Nacional, o cumprimento do Estatuto da Igualdade Racial, a implementação do Programa da Saúde da População Negra e o desenvolvimento de políticas específicas para as comunidades quilombolas, entre outras iniciativas.
"Ao contrário do que muitos pensam provavelmente, de que uma associação somente de pessoas pesquisadoras negras seria uma espécie de racismo ao contrário ou segregação, a intenção é dar visibilidade a elas, pois a escola não fala delas e ensina uma ciência branca. Nesse sentido, a negritude moderna se valoriza sem desvalorizar o outro."
A ABPN apresenta parcerias com instâncias do poder público, institutos de pesquisa e entidades científicas de segmentos diversos. Como o trabalho em conjunto com tais instâncias é estratégico para disseminar evidências mapeadas e pautas caras à população negra? E como cooperações com esse perfil possibilita o diálogo com a sociedade civil para além da academia?
Com mais de duas décadas de existência, a natureza científica e política da ABPN a posicionou como um ator central na articulação de diversas organizações antirracistas. A ABPN é membro-fundadora de importantes entidades, incluindo o Fórum Permanente de Igualdade Racial (FOPIR) e a Convergência Negra, ambas criadas em 2016. Em 2019, participou da fundação da Coalizão Negra por Direitos. Além disso, a ABPN atua em parceria com órgãos governamentais e não-governamentais. Sua participação como membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), órgão consultivo da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), exemplifica seu engajamento em espaços de formulação de políticas públicas.
Recentemente, a ABPN e Defensoria Pública da União estabeleceram um acordo de cooperação para atuar conjuntamente no combate ao racismo, com foco na divulgação acadêmica, articulação social e formação de lideranças no que diz respeito às políticas públicas antirracismo. Essa parceria visa ampliar o conhecimento sobre o racismo por meio da disseminação de pesquisas, fortalecer a colaboração entre diferentes grupos e movimentos na luta antirracista e capacitar pessoas para atuarem na criação e fiscalização de políticas públicas. Um dos resultados da parceria foi a publicação e a divulgação de uma pesquisa em 2022, sobre a implementação da Política de Cotas Raciais nas Universidades Federais, com dados recolhidos entre 2013 e 2019 para subsidiar o debate sobre a eficácia da Lei 12.711/12. E, com isso, incidir diretamente na sua atualização, como ocorreu em 2023, com a aprovação da Lei 14.723/23.
A ABPN tem como objetivo principal o fortalecimento da igualdade racial e o combate ao racismo. Para alcançar essa meta, a organização estabeleceu, nos últimos anos, inúmeras parcerias com instituições governamentais e não-governamentais. Entre as iniciativas de destaque, a ABPN articula as Negras Reitorias, que evidenciam as estratégias adotadas por gestões negras para implementar ações afirmativas em suas instituições. Outro projeto relevante é a Sistematização de argumentos da grande mídia sobre Cotas, que analisa a evolução da posição da mídia quanto às cotas raciais no Brasil.
Recentemente, a ABPN lançou o Observatório de Impacto das Cotas Raciais, para ampliar a discussão e a divulgação sobre a temática, buscando fortalecer e aprimorar as ações afirmativas para pessoas negras tanto na educação quanto no mercado de trabalho. A Escola de Políticas e Ações Afirmativas visa disseminar o conhecimento teórico e prático acumulado para operacionalizar a efetivação dessas ações. Além disso, a ABPN firmou um Acordo de Cooperação Técnica com o Tribunal Superior Eleitoral e uma parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) para a criação da Plataforma Inclua, ferramenta de recursos voltada à promoção da equidade em políticas públicas.
O que se pode dizer sobre a incidência e influência da ABPN na articulação e diálogo com academia e sociedade civil para valorizar o trabalho de pessoas pesquisadoras negras?
Com seus anos de atuação, a ABPN consolidou-se no cenário nacional como uma organização fundamental. Por meio de suas áreas de conhecimento e projetos, a associação contribui ativamente para produção, organização e divulgação de conhecimento antirracista no Brasil. A ABPN promove a visibilidade e a valorização de pessoas pesquisadoras negras, ao mesmo tempo em que fomenta o estudo das relações raciais e a produção de conhecimento sobre a África e suas diásporas.
Guiada pela filosofia Ubuntu, a ABPN entende que a construção de uma sociedade antirracista deve ser um esforço coletivo e comunitário. Por essa razão, a associação estabelece parcerias estratégicas com ampla rede de instituições, que incluem organizações governamentais e ONGs - nacionais e internacionais -, Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs) e grupos afins, e movimentos sociais e diversos setores da sociedade civil.
A ABPN destaca-se por envolver pessoas pesquisadoras negras desde a educação básica. Essa abrangência garante um forte senso de continuidade e futuro para as novas gerações, enquanto valoriza e potencializa o legado construído pelos mais velhos. Dessa forma, a associação desempenha um papel crucial na estruturação de uma sociedade mais democrática, equânime e antirracista.