Você já parou para pensar em como idiomas africanos, como iorubá, eve-fom e línguas do grupo banto, influenciam o modo como falamos? Caso ainda não, fique sabendo que a presença é marcante na estrutura da língua portuguesa falada no Brasil. Palavras como “caçula”, “xingar”, “marimbondo” e até mesmo “bunda” são exemplos incontestáveis desse fato.
Pois bem, a influência de idiomas africanos sobre a língua portuguesa - a versão brasileira, no caso - é a premissa da exposição “Línguas Africanas que Fazem o Brasil”, cuja abertura ao público ocorre em 24 de maio, no Museu da Língua Portuguesa, instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. A mostra conta com curadoria do músico e filósofo Tiganá Santana, conselheiro da Plataforma Ancestralidades.
É importante destacar que a influência de idiomas africanos no modo como falamos no dia a dia é reflexo - e signo de resistência idem - das pessoas africanas sequestradas, escravizadas e trazidas à força ao Brasil entre os séculos XVI e XIX. E a presença linguística, por meio de palavras, entonação e cadência na entoação das frases, é integrada a demais manifestações culturais que têm influencia dos povos da diáspora africana, como música, arquitetura, festas populares e rituais religiosos.
“Ao mesmo tempo que a gente quer mostrar ao público que falamos uma série de expressões e estruturas que remontam a línguas negro-africanas, também desejamos revelar de que maneira isso acontece. Por que falamos caçula e não benjamim? Por que dizemos cochilar e não dormitar? Essas palavras fazem parte de nosso vocabulário, da nossa vida, do nosso modo de pensar”, destaca Tiganá Santana.
Sobre obras e instalações
A exposição “Línguas Africanas que Fazem o Brasil” conta com diversas obras e instalações em formatos variados. Um dos destaques diz respeito à instalação, no espaço da mostra, de diversos adinkras, símbolos utilizados como sistema de escrita pelo povo Ashanti, que habita países como Costa do Marfim, Gana e Togo. Por meio de um único ideograma, os adinkras podem representar desde elementos culturais a até mesmo sentenças proverbiais inteiras. Como parâmetro, há diversas construções arquitetônicas, em diversas regiões do Brasil, que contam com adornos compostos por alguns dos mais de 80 símbolos existentes de adinkras.
Outros destaques ficam para duas instalações feitas pela artista visual Aline Motta, que destacam, respectivamente, formas milenares de grafias centro-africanas e quatro provérbios em quicongo, umbundo, iorubá e quimbundo - traduzidos para o português. Vale destacar que os vídeos serão exibidos em movimento nas paredes. Ainda no eixo audiovisual, a exposição disponibiliza uma projeção de imagens ao enunciar palavras como “axé”, “afoxé” e “acarajé”.
Além disso, a mostra “Línguas Africanas que Fazem o Brasil” conta também com obras que exploram linguagens não-verbais derivadas de culturas africanas ou afrodiaspóricas, como as dinâmicas relativas a tipos de tranças de cabelos e turbantes, cujas amarrações indicam posições hierárquicas dentro do candomblé.
A exposição conta também com homenagem a Lélia Gonzalez - em 10 de julho serão completados trinta anos de sua morte. Trechos de um de seus textos, Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira, faz parte de cenografia que conta também com tambores e imagens de mar. Será possível observar no espaço, por meio das partes escolhidas de sua obra, elementos que remetem ao uso de pretuguês, conceito cunhado pela intelectual para evidenciar a influência afrodiaspórica na língua portuguesa.
Por fim, a iniciativa retrata também canções populares criadas a partir da integração entre os idiomas africanos e o português, como Abre a Roda e Escravos de Jó - por exemplo, “jó” advém de línguas quimbundo e umbundo e significa “casa”.
“Escravizados ladinos, crioulos e mulheres negras, que realizavam trabalho doméstico e falavam tanto o português de seus senhores quanto a língua dos que realizavam trabalhos externos, foram a ponte para a africanização do português e para o aportuguesamento dos africanos no sentido linguístico e cultural”, completa Tiganá Santana, com base nas pesquisas da professora Yeda Pessoa de Castro.
“Ao mesmo tempo que a gente quer mostrar ao público que falamos uma série de expressões e estruturas que remontam a línguas negro-africanas, também desejamos revelar de que maneira isso acontece. Por que falamos caçula e não benjamim? Por que dizemos cochilar e não dormitar? Essas palavras fazem parte de nosso vocabulário, da nossa vida, do nosso modo de pensar.” (Tiganá Santana)
Serviço
A exposição “Línguas Africanas que Fazem o Brasil” conta com patrocínio máster da Petrobras, patrocínio da CCR, do Instituto Cultural Vale, e da John Deere Brasil; e apoio do Itaú Unibanco, do Grupo Ultra e da CAIXA.
A mostra fica aberta ao público entre 24 de maio e janeiro de 2025. Visitações poderão acontecer de terça-feira a domingo, das 9h às 16h30 (com permanência até as 18h).
Ingressos: R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia). Há gratuidade para crianças até 7 anos. Além disso, a visitação é grátis aos sábados - o acesso ocorre pelo Portão A.
As vendas de ingressos ocorrem na bilheteria e pela internet, por meio deste site.
* Com informações da assessoria de imprensa do Museu da Língua Portuguesa