“Foi uma virada de chave da minha vida. Quando comecei a pesquisar a história da geração e encontrei a Mina Du Veloso, minha vida teve o antes e o depois. Minha vida como homem negro, porque mesmo tendo formado engenharia na Escola de Minas, em Ouro Preto, nunca ouvira falar da contribuição dos povos negros na construção da cidade.” Esta fala de Eduardo Evangelista Ferreira, mestre em Geociências pelo Departamento de Geologia da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e idealizador do projeto turístico relativo à Mina Du Veloso, em funcionamento em equipamento construído no século XVIII, em Ouro Preto (MG), fala sobre a premissa do projeto e a finalidade à qual ele se destina.
Mais do que funcionar como um projeto turístico, a Mina Du Veloso tem como objetivo trazer à tona aspectos invisibilizados sobre a trajetória de pessoas negras escravizadas e sequestradas - e cujo grupo foi submetido, por séculos, a trabalhos forçados em frentes diversas. A história de Eduardo, também conhecido como Du Evangelista, está intrinsecamente ligada a Ouro Preto - precisamente com a do Bairro São Cristóvão, também conhecido como Veloso.
Até a reinauguração da Mina Du Veloso com a proposta atual, onde mais de 300 metros estão abertos à visitação, que pode ser feita através das galerias subterrâneas lá abertas para a escoar o ouro encontrado no espaço por meio de atividade mineradora, o modo como a população do bairro se relacionava a mina era marcado por uma espécie de distanciamento em dimensões diversas - sejam físicas, sejam históricas.
E essa dinâmica foi semelhante com Eduardo Evangelista Ferreira: ele graduou-se em engenharia civil pela Ufop. Por meio da especialização em geotecnia, ciência cujo objeto de estudo consiste nas relações do solo e de rochas às intervenções humanas, o seu foco estava em compreender e buscar soluções para episódios de deslizamentos de terras em áreas de encostas em seu território. Todavia, além da busca por alternativas para conter os riscos existentes, os elementos relacionados à história da mineração em Ouro Preto entraram em seu caminho.
Esse processo, inclusive, permitiu ver além do que as lembranças da infância sobre o espaço permitiam enxergar - inclusive pela falta de iluminação no local. “Quando coloquei a minha visão de engenheiro dentro do espaço, reconheci a grandeza e a sabedoria de quem fez aquele trabalho. Comecei a ver os nossos ancestrais com outra visão: não mais de escravos, mas de grandes conhecedores de várias técnicas de mineração. Mais ainda: de metalurgia também, por causa das ferramentas de ferro usadas para fazer a abertura manual das galerias, que eles já confeccionavam”, comenta.
A perspectiva inerente à proposta principal da Mina Du Veloso, agora como projeto de ecoturismo voltado à valorização dos saberes da população negra sobre engenharia e arquitetura, dialoga com a ruptura de estereótipos degradantes sobre a população negra - a começar pelo imaginário desumanizador do período da escravidão. É o que explica Juvenal de Carvalho Conceição, professor de História da África da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
“A estratégia de exclusão, exploração e massacre de afrodescendentes passa, desde os tempos da escravidão, por inferiorização, invisibilização e negação de todas manifestações de origem africana. Quebrar essa lógica, resgatando a importância dessas trajetórias, tem impacto direto na autoimagem e na capacidade de se organizar e lutar para a conquista de condições de existência dignas. Saber e conhecer o protagonismo de antepassados impulsiona a sua construção no presente”, descreve.
"A estratégia de exclusão, exploração e massacre de afrodescendentes passa, desde os tempos da escravidão, por inferiorização, invisibilização e negação de todas manifestações de origem africana. Quebrar essa lógica tem impacto direto na autoimagem e na capacidade de se organizar e lutar para a conquista de condições de existência dignas. Saber e conhecer o protagonismo de antepassados impulsiona a sua construção no presente."
Novas estruturas históricas
Lado a lado com o destaque para a história invisibilizada e apagada da população negra, que resultou na retroalimentação de estereótipos que desumanizaram as pessoas que a compuseram e seus descendentes, o trabalho desenvolvido na Mina Du Veloso tem abrangência também no fomento à autoestima de pessoas pretas e pardas.
O idealizador da fase atual da Mina Du Veloso destaca o papel do projeto para ressignificar a presença da população negra na cidade. Isso passa por atividades nas quais são abordados aspectos como a técnica de pau a pique, conhecida e disseminada por pessoas negras e escravizadas à época, e questões estruturais que ajudam a alicerçar a fama de Ouro Preto. “Fala-se da arquitetura colonial barroca de Ouro Preto, como se fosse um pedaço da Europa fora da Europa, mas não se fala de quem construiu, lapidou aquelas pedras e fez as obras de arte que temos também nos casarões coloniais da cidade.”
Em paralelo com a parte arquitetônica, o projeto turístico apresenta dimensões que passam, juntamente com a ressignificação da história da Mina Du Veloso, com a relação reconstruída da população local por meio desse capítulo. Isso passa, entre outros pontos, pela preparação de jovens do Bairro São Cristóvão para atuarem como guias do espaço.
“Trabalhamos sempre com jovens do bairro como guias que levam dentro da mina, que contam a história e fazem as palestras aqui. Elas e eles voltaram para as casas e começaram a falar que o bairro é outro. Todos eles que passaram por aqui chegaram à universidade. Uns já estão fazendo mestrado e outros já estão no doutorado. Para nós, é um motivo muito de orgulho colocarmos a mina como esse polo irradiador de conhecimento”, ressalta Du Evangelista.
O trabalho desenvolvido na Mina Du Veloso rendeu, inclusive, reconhecimentos como o fato de ter sido um dos projetos vencedores do 32° Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Como se pode imaginar, iniciativas como a Mina Du Veloso representa uma contranarrativa à perspectiva da educação como um caminho histórico para consolidar a perspectiva hegemônica. É o que ressalta Juvenal de Carvalho Conceição. “Trata-se de uma ordem excludente, racista e violenta contra os povos negros, os da ‘terra e os da Guiné’. A simples presença desses povos nos espaços escolares já abre espaço para que essa ordem seja questionada. Conquista-se espaço para colocar em pauta as demandas, os anseios, experiências e histórias até aqui invisibilizadas”, detalha o professor de História da África da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
E essa virada de chave epistêmica, por fim, está na essência da Mina Du Veloso, seja pelo resgate histórico, seja pela transmissão de conhecimento para quem a visita - na maioria dos casos, pessoas brancas que não têm letramento racial. “É legal observar quem nunca teve letramento racial entender o que o guia falou, porque entraram nessa estrutura. Ao ingressar, tem de respeitar quem fez, pois é fenomenal o que foi feito com trabalhos manuais com esse conhecimento. O guia, passando isso para eles, cresce também internamente. É um processo muito importante de empoderamento, que a mina causa nos guias, moradores do bairro e nas pessoas que visitam a mina”, completa Du Evangelista.
No mapa da mina (dos saberes ancestrais)
A visitação na Mina Du Veloso está aberta diariamente, das 9h às 17h. Confira também o perfil do projeto no Instagram: instagram.com/minaduveloso.