Valorizar a produção intelectual e a mobilização sociocultural e econômica de lideranças com trajetória periférica para evidenciar a potência de territórios colocados à margem - seja em âmbitos geográfico ou sociopolítico e epistêmico. Essa premissa é fundamental e uma das razões de ser do Prêmio Mestre das Periferias.
A iniciativa, que é idealizada pela UNIperiferias e cuja segunda edição aconteceu em 24 de janeiro, consiste em celebração da potência e da cultura das periferias. Dentro dessa lógica, o evento promoverá homenagens a pessoas que se destacam em suas trajetórias e contribuem para a expansão de narrativas desses múltiplos e potentes territórios.
Desse modo, a segunda edição do Mestre das Periferias premiará a filósofa Sueli Carneiro, conselheira da Plataforma Ancestralidades; o escritor Daniel Munduruku; Dani Balbi, professora e deputada estadual no Rio de Janeiro; e Frei David Santos, criador e diretor executivo da Educafro.
A título de informação, a primeira edição do prêmio, realizada em 2018, laureou Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro quando foi vítima de atentado político no mesmo ano; o pensador e liderança quilombola Nêgo Bispo, que nos deixou em dezembro de 2023; o filósofo e ambientalista Ailton Krenak, que se tornou o primeiro intelectual indígena a ingressar na Academia Brasileira de Letras, também em 2023; e a escritora e professora Conceição Evaristo.
Para Felipe Moulin, diretor da UNIperiferias, a valorização de culturas e trajetórias periféricas auxilia a criar consciência pública e coletiva sobre o valor e riqueza de histórias e culturas com trajetória periférica para além da perspectiva segundo a qual algumas trajetórias de cidadãs e cidadãos desses mesmos territórios são excepcionais. Ou seja, um dos objetivos do prêmio é evidenciar saberes ancestrais, tradicionais e filosóficos oriundos de estilo de vida e arranjo comunitário e coletivo - originado também por meio da oralidade.
“Tudo isso questiona algumas ideias socialmente aceitas segundo as quais há apenas uma forma de produzir conhecimento, a racionalidade somente pode ser científica e um título acadêmico pode dar autoridade para falar sobre algo. [O prêmio] ajuda também a diluir uma dicotomia sobre haver os ‘centros’ e as periferias, a qual reflete muitas características do que foi a colonização dos povos e estabelece o ‘centro’ como modelo a ser seguido e pretensamente ‘universal’”, comenta Moulin.
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Para quebrar paradigmas
Um dos aspectos centrais na segunda edição do Prêmio Mestre das Periferias consiste em propor contraponto à visão que estigmatiza negativamente territórios e sujeitos periféricos, ao desumanizá-los e impedi-los de ter agência sobre as suas respectivas realidades em âmbitos sociocultural e político.
Nesse sentido, o diretor da UNIperiferias ressalta que a segunda edição do Prêmio Mestre das Periferias objetiva celebrar as existências e trajetórias periféricas, assim como reconhecer que esses mesmos locais “têm, acima de tudo, potência”. “Reconhecer e valorizar as diferenças fortalece também a nossa capacidade de conviver - isso não é trivial nestes tempos, em que o ódio está presente nas narrativas políticas. Para promovermos uma cultura de convivência, é necessário reconhecermos que a diferença é uma dimensão fundamental da interação humana”, reforça.
Essa lógica dialoga com dois episódios emblemáticos ocorridos em períodos próximos às duas edições do prêmio, mas que passam longe de ser casos isolados e são reflexos de disparidades territoriais e sociais - em particular contra grupos político e socialmente minorizados. Houve, em 2018, uma campanha popular em favor da escolha de Conceição Evaristo como a primeira escritora negra a ingressar na Academia Brasileira de Letras - o que não ocorreu. Já o biênio 2023-2024 foi marcado pela não escolha de uma magistrada negra para integrar o Supremo Tribunal Federal (STF), o que nunca ocorreu em sua história.
Tais episódios são dois exemplos da realidade marcada pela sub-representação de lideranças periféricas em espaços de poder e de decisão. Por fim, romper com essa lógica e atribuir o poder de criar, propor e produzir conhecimento à população das periferias está no DNA do Prêmio Mestre das Periferias.
“O que propomos é uma mudança de paradigma e instituirmos [o padrão] da potência em vez da ausência. Para isso, precisamos construir novas representações sociais e de imaginários sobre as periferias, bem como difundir e celebrar mestras e mestres que estão construindo bases conceituais e epistemológicas que nos permitem olhar o mundo de formas mais inclusivas”, finaliza Felipe Moulin.
Saiba mais
A segunda edição do Prêmio Mestre das Periferias conta com parceria da Prefeitura do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, Fundação Itaú, Fundação Tide Setubal, Gerdau, Textual Comunicação, DiversaCom e Museu do Amanhã.
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