A vida e a obra de Milton Nascimento são símbolos incontestáveis de um Brasil cortês, sensível, gentil e civilizado. Pode-se dizer, sem medo de errar, que muito do que o país aspira ser, seja em nível artístico ou humanitário, passa pelo o que Milton representa.
Se Milton Nascimento fez do país - e de muitos cantos no mundo - um grande Clube da Esquina, ele proporcionou a cada um que teve contato com a sua obra a estranha mania de ter fé na vida - e de acreditar que, mesmo com diversos percalços, é possível construir um mundo pautado pela justiça e pela equidade.
Bituca, como o ícone musical também é conhecido, completa 80 anos nesta quarta-feira (26). Nenhuma homenagem, por mais bela que seja, estará à altura da magnitude do seu trabalho e de quem é.
Pelo contrário: somos nós, fãs, que somos presenteados a cada vez que o som da voz de Milton Nascimento surge, seja em vitrolas, fones de ouvidos ou na sua turnê de despedida, em palcos que são transformados em grandes terreiros graças ao clima de celebração e de devoção que sua verve provoca em quem o ouve - e ainda tem o privilégio de assisti-lo ao vivo nas suas últimas sessões de música.
Milton Nascimento tem o poder de, graças à sua voz única e aos versos certeiros das músicas que eternizou, proporcionar a quem o ouve cantar a possibilidade de sonhar - mesmo que os nossos caminhos sejam de pedra. De mostrar que sonhos não envelhecem. De ensinar a todas/os a construir um cais e de saber a vez de se lançar.
Entre vários ensinamentos que Milton Nascimento nos deixa diariamente, tal qual um ancestral vivo, é que há contextos nos quais palavras e versos, por mais bonitos que sejam, não substituem a beleza de certas coisas que não podem ser descritas de tão sublimes, como o amor maternal - os acordes de Lília e a devoção de Milton à sua mãe mostram isso sem nenhuma palavra ser necessária.
Tal qual Maria, Maria, a vida e a obra de Milton Nascimento são o som, a cor, o suor e a dose mais forte e lenta de uma gente que ri quando deve chorar - e, mais do que aguentar, quer ter uma vida com dias melhores.
Para voltar quando quiser
Ouça a playlist com clássicos da carreira de Milton Nascimento e a entrevista na qual Lô Borges e Augusto Nascimento, filho do ícone, o homenageiam.