O reconhecimento da intelectualidade das mulheres negras faveladas é um motor de capacitação na luta por soberania e justiça alimentar - Entrevista com Karina de Paula Carvalho

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“Como pesquisadora, lanço um olhar atento para essas dinâmicas e busco captar as encruzilhadas discursivas pela perspectiva da interseccionalidade - de gênero, raça, classe, localidade, território, entre outras - para poder tecer uma análise desses div...

O reconhecimento da intelectualidade das mulheres negras faveladas é um motor de capacitação na luta por soberania e justiça alimentar - Entrevista com Karina de Paula Carvalho
Acervo Ancestralidades

“Como pesquisadora, lanço um olhar atento para essas dinâmicas e busco captar as encruzilhadas discursivas pela perspectiva da interseccionalidade - de gênero, raça, classe, localidade, território, entre outras - para poder tecer uma análise desses diversos elementos que aparecem no cotidiano e como eles são mobilizados nas lutas sociais em busca de direitos.” A pesquisadora Karina de Paula Carvalho, selecionada na edição 2024 do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa, destacou o caráter multidisciplinar de seu estudo e das diversas variáveis no desenvolvimento de ações para soberania alimentar em territórios vulnerabilizados.

Com o título "Produzir soberania alimentar está para além do plantar’’: a experiência do centro de integração na serra da Misericórdia/RJ na promoção de soberania e justiças na favela terra prometida, o estudo mostra a pesquisa Karina referente aos esforços mobilizados por mulheres que vivem na favela Terra Prometida, Complexo da Penha, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, na luta para a promoção da soberania alimentar e de justiça pela agroecologia, educação, cultura e arte, no Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM).

Nesse sentido, a pesquisa objetiva investigar possibilidades na experiência do CEM com foco em agricultura urbana e enfrentamento de injustiças sociais que se refletem no acesso em direitos elementares para toda e qualquer pessoa, como o acesso à alimentação e o direito à cidade.

O diálogo com Karina de Paula Carvalho passa por essas dimensões e sobre como a promoção da soberania alimentar por meio da atuação do CEM incentiva a autonomia e o protagonismo das mulheres do território. Outro ponto da entrevista passa pelo debate sobre preservação ambiental, por meio da COP 30, em regiões metropolitanas.

Confira a entrevista.
 

Com base na sua pesquisa, como os debates sobre soberania alimentar, preservação socioambiental, direito à cidade e equidade de gênero se retroalimentam e mostram que um aspecto depende do outro para ser mais efetivo?

Karina de Paula Carvalho: Ficou evidente para mim, acompanhando a experiência do CEM, na favela Terra Prometida, bem como sua presença significativa na Serra da Misericórdia, que a luta por soberania alimentar envolve múltiplas questões para além do plantar. Alguns desses aspectos abrangem moradia digna e geração de renda, acesso à água e ao saneamento básico, espaços verdes, comida de verdade, saúde e segurança pública.

As mulheres da comunidade, sobretudo negras, fazem do coletivo um instrumento de força para garantir comida de verdade na mesa. Mais do que isso, elas fazem do alimento um instrumento de transformação comunitária. Por isso, a agroecologia - como prática e sabedoria ancestral - é bandeira de luta para dialogar e unir forças com outras experiências na cidade do Rio de Janeiro. Estão inseridas em um complexo maior e disputam o sistema alimentar local pela ótica da preservação ambiental, do direito à cidade e no enfrentamento das injustiças por razões étnico-raciais e de gênero.

Como pesquisadora, lanço um olhar atento para essas dinâmicas e busco captar as encruzilhadas discursivas pela perspectiva da interseccionalidade - de gênero, raça, classe, localidade, território, entre outras - para poder tecer uma análise desses diversos elementos que aparecem no cotidiano e como eles são mobilizados nas lutas sociais em busca de direitos. Isso me permite identificar e trabalhar com uma diversidade de questões. 

Desse modo, fica menos difícil observar os entrelaçamentos entre a questão ambiental e climática, da insegurança alimentar e nutricional, as desigualdades socioespaciais na cidade e o papel das mulheres na esfera local. Observo-as apropriando desses elementos como inseparáveis: eles servem para nomear as injustiças e capacitar suas ações em busca do bem-viver. 
 

Quais são os efeitos percebidos nas mulheres participantes resultantes da luta pela promoção da soberania alimentar e de justiça pela agroecologia, educação, cultura e arte no CEM? Como você identifica a relação que elas criam com a terra e a preservação socioambiental? 

Karina de Paula Carvalho: Ao longo desse tempo em que estou junto delas, percebi como o CEM se configura como um espaço de afetividade, emancipação e acolhimento. Os efeitos observados estão no desenvolvimento de maior autonomia, autoestima, afetividade e os cuidados que as mulheres desenvolvem entre elas e com suas famílias. Não digo isso com intuito de essencializar seus esforços cotidianos.

Contudo, certamente, a valorização, a validação e o reconhecimento da intelectualidade das mulheres negras faveladas têm se mostrado motores de capacitação na luta por soberania e justiça alimentar. Ver sua cultura, ancestralidade e conhecimento sendo valorizados e reconhecidos dentro do coletivo, na comunidade e fora dela, tem contribuído para potencializar seus esforços no território em busca de reverter as injustiças e acessar direitos. 

Elas fazem isso em várias frentes: nos seus quintais produtivos, cultivam alimentos e ervas para o autoconsumo e trocas; na cozinha comunitária, processam alimentos para ofertar em feiras, eventos e instituições; na Roda de Mulheres, em que realizam quinzenalmente atividades emancipatórias de saúde dentro SUS [Sistema Único de Saúde].

Pelo eixo Agroecologia e Saúde, elas ensinam e aprendem sobre cuidado em saúde de maneira dialógica com profissionais de saúde e pesquisadores. Além disso, elas participam de espaços institucionais públicos, em eventos e ações de intercâmbios das redes de agroecologia em escala local, regional, nacional e até mesmo internacional. Ainda, as educadoras populares ensinam as crianças, na escola popular de agroecologia, a valorizarem sua ancestralidade e a cuidarem e serem cuidadas pela terra. As crianças aprendem de maneira leve, por meio da arte, do esporte e cultura.

"As mulheres da comunidade, sobretudo negras, fazem do coletivo um instrumento de força para garantir comida de verdade na mesa. Mais do que isso, elas fazem do alimento um instrumento de transformação comunitária."

Pode-se considerar também que o projeto incide no debate sobre racismo ambiental? Por quais motivos?

Karina de Paula Carvalho: Com certeza o conceito de racismo ambiental está presente na minha leitura sobre a luta do CEM. Não teria como não estar. Ao analisar a história do coletivo, é possível notar que a luta começa pela questão ambiental pela preservação da Serra da Misericórdia, o último fragmento de área verde na região, e logo foi incorporada a demanda do Direito Humano à Alimentação Adequada, devido à presença forte da produção de alimentos nos quintais das moradoras da comunidade. Hoje, tem o propósito de ‘‘fortalecer a soberania alimentar, feminista, antirracista e emancipatória na Serra da Misericórdia construindo bem-viver na favela’’. 

Enxergo a favela Terra Prometida como um sonho de uma comunidade que luta por terra, moradia, trabalho e dignidade. Certamente, se há a necessidade de luta por direitos sociais fundamentais, está aí a presença das desigualdades. Há mais de uma década a comunidade desponta como uma nova favela dentre as 13 já registradas no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Para o Plano Diretor do município, a comunidade não existe. Então, os moradores não têm no território equipamentos públicos de saúde, educação, saneamento, calçamento de vias, rede de energia e esgoto. No entanto, o território existe para a política de “guerra às drogas” do Estado, no enfrentamento do narcotráfico. As operações policiais e o cerceamento do ir e vir pelos confrontos são rotineiros.

Nestes anos de resistência no território, o CEM tornou-se o instrumento de luta por esses direitos. Foi assim que elas levaram o SUS até a comunidade na pandemia de Covid-19, construindo com madeira improvisada uma “casa de apoio” e conseguiram levar profissionais de saúde para atendimento no território.

 

Ao pensarmos também na COP 30 e no debate sobre preservação socioambiental e ancestralidade, como o desenvolvimento do projeto ajuda a pensar-se em novos caminhos para a produção econômica e alimentar com base na preservação socioambiental e na promoção da equidade racial e de gênero?

Karina de Paula Carvalho: A luta por soberania de plantar, colher e comer os alimentos, em respeito às culturas tradicionais e aos modos de vida, nasce na América Latina como um movimento contra a hegemonia dos sistemas alimentares dominantes, os quais são, por sua vez, considerados alguns dos maiores responsáveis pelas mudanças climáticas e danos ambientais. É uma radicalização das populações do Sul Global tomando parte das escolhas da política agrícola, alimentar e do desenvolvimento rural e, recentemente, o planejamento urbano.

Meu trabalho na tese é de territorializar os conceitos de soberania alimentar e de justiça alimentar em solo urbano favelizado partindo do local para compreender essas questões, sabendo que elas se condensam em uma escala global. A COP 30 é a coalizão de interesses diversos sobre clima, economia e soberanias nas tomadas de ações sobre o rumo da vida na terra. Sediada no Brasil, é um importante espaço de não somente debater essas questões, mas deliberar e conduzir as políticas, sobretudo aqui, em que temos uma economia dependente de commodities agrícolas. 

Fico atenta à participação popular nesses espaços e insisto em ver algo diferente nos coletivos e organizações do movimento alimentar por soberania e justiça alimentar, ambiental e climática que tem como princípio inegociável a promoção da justiça racial e de gênero. Compreender como eles mobilizam o conhecimento ancestral agrícola, que hoje denominamos como agroecologia, indica caminhos em direção a uma mudança social transformadora. Tudo isso envolve um projeto político baseado no bem-viver, que traz consigo a equidade de raça e de gênero.


 

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