“O Estado precisa entender que investir em cinema é investir no país”, afirma diretor de “1798 - Revolta dos Búzios”

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“Homens, o tempo é chegado para a vossa ressurreição. Sim, para ressuscitares do abismo da escravidão, para levantares a sagrada bandeira da liberdade. A liberdade consiste no estado feliz, no estado livre do abatimento. A liberdade é a doçura da vida,...

“O Estado precisa entender que investir em cinema é investir no país”, afirma diretor de “1798 - Revolta dos Búzios”
Acervo Ancestralidades

“Homens, o tempo é chegado para a vossa ressurreição. Sim, para ressuscitares do abismo da escravidão, para levantares a sagrada bandeira da liberdade. A liberdade consiste no estado feliz, no estado livre do abatimento. A liberdade é a doçura da vida, o descanso dos homens com igual paralelo de uns para com outros. Finalmente, a liberdade é o repouso e bem-aventurança do mundo.”


As aspas acima compuseram os papéis afixados em postes da Salvador às vésperas de 12 de agosto de 1798. Tais documentos, vale dizer, integravam o anúncio de um desejado mundo onde pessoas negras e brancas pudessem viver em condições igualitárias e sem vínculos escravagistas. Tratava-se, no caso, do anúncio do episódio que seria conhecido como Revolta dos Búzios, Conjuração Baiana, Revolta das Argolinhas ou Revolta dos Alfaiates.

Esse episódio é o tema central do filme documental “1798 - Revolta dos Búzios”, dirigido e roteirizado pelo cineasta Antônio Olavo, que está em cartaz em cinemas de capitais brasileiras.

Essa mesma citação foi resgatada pelo diretor, em entrevista à Plataforma Ancestralidades, para referir-se ao apagamento histórico ao qual o episódio, assim como os seus líderes - Lucas Dantas do Amorim, Luiz Gonzaga das Virgens, João de Deus e Manuel Faustino dos Santos -, foram submetidos. “Homens negros escravizados escrevendo coisas tão lindas quanto essas. A historiografia tradicional omitiu, marginalizou, não deu protagonismo a esses escritos, sonhos e lutas”, reforça.


Revolta e argumento

A Revolta dos Búzios - Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, como preferir chamá-la - representou um marco na luta pela abolição do regime escravocrata no Brasil. Com protagonismo de homens negros, sendo os líderes alfaiates, vindo daí a outra nomenclatura pela qual é também conhecida, o movimento que idealizou o levante contra o status quo político então vigente tinha forte influência da Revolução Francesa (1789), inclusive com menções por meio do termo francesias.

O processo de desenvolvimento da revolução, a dinâmica para debelá-la após as primeiras delações e a condenação das pessoas envolvidas, que ao total durou 15 meses, foram registrados nos Autos da Devassa, documento elaborado pela polícia à época, composto por mais de 2 mil páginas. O material foi, inclusive, a fonte primária para o desenvolvimento de “1798 - Revolta dos Búzios”, sobre o qual Antônio Olavo se debruçou e estudou minuciosamente de 2005 a 2018, ano no qual o filme foi lançado.

O caráter veementemente antiescravagista da Revolta dos Búzios, cujo registro permeia os Autos da Devassa, difere de demais movimentos de independência, como a Inconfidência Carioca (1794) e a Insurreição Pernambucana (1824). Idem quando se fala na Inconfidência Mineira (1789), episódio com o qual Antônio Olavo traça paralelos sobre a lembrança histórica.

“O dia 21 de abril é feriado por causa de Tiradentes, e Minas Gerais e Ouro Preto vivem em torno da Inconfidência Mineira”, detalha. “Na Bahia, se você procurar onde moravam os conspiradores - sei onde moravam -, suas casas foram derrubadas ou não estão identificadas. Os bustos sobre quatro deles estão no lugar que permanece com o nome de Praça da Piedade, graças à igreja Nossa Senhora da Piedade. Mas essa praça devia se chamar Praça dos Mártires da Revolta dos Búzios.”

A negação à memória é um ponto emblemático na história que envolve a Revolta dos Búzios. Ao mesmo tempo em que Lucas Dantas do Amorim, Luiz Gonzaga das Virgens, João de Deus e Manuel Faustino dos Santos foram condenados à infâmia, essa pena foi estendida aos seus filhos e netos. “O que significou para os filhos, netos e bisnetos? A negação da ancestralidade. Ninguém ia assumir que era filho de João de Deus, Lucas Dantas ou de qualquer um dos outros, pois seriam considerados infames para sempre. Por isso, hoje, não temos identificado nenhum descendente dos conspiradores que participaram da Conjuração Baiana”, descreve o diretor.

Outro ponto emblemático diz respeito também à participação de pessoas integrantes da elite socioeconômica de Salvador no desenvolvimento e apoio da Revolta dos Búzios. O envolvimento delas foi considerado incontestável, assim como o de figuras como o político, jornalista e médico Cipriano Barata (1762-1838), conforme a documentação do poder público à época - “foi um constrangimento quando os Autos da Devassa registraram prisões de alguns dos homens brancos ilustrados”, narra Antônio Olavo.

No entanto, as pessoas brancas e integrantes da elite local sofreram penas consideradas leves - como detenção de alguns meses -, as pessoas negras se viram às voltas com a repressão. “Houve um caso de um homem branco, cuja participação era tão evidente, que o Tribunal da Relação o sentenciou a 500 açoites. Ele recorreu, o recurso dele foi acatado, obviamente, e ele se livrou dos açoites - foi condenado a seis meses de cadeia. Mas com os homens negros, as penas foram duras: degredo, 500 açoites públicos e prisão perpétua. Já a punição mais grave foi a pena de morte com o enforcamento e esquartejamento dos quatro jovens homens negros.”

 

Narrativa, estética e didática

“Foi dificílimo.” Esta fala de Antônio Olavo sintetiza a dinâmica para transformar o conteúdo dos Autos da Devassa no que se tornou o filme “1798 - Revolta dos Búzios”. Uma preocupação nesse contexto consistiu em tornar acessíveis as informações que compuseram o documento. Não por acaso, o filme contém trânsito intenso entre linguagens variadas, como dramatização das falas das pessoas envolvidas e testemunhas, assim como a narração e o uso de animações para representar momentos-chaves da narrativa.

“Várias pessoas me falam que há muitas informações ou que o filme é muito didático. Respondo que histórias fáceis são as que conhecemos da elite branca”, relata o diretor. Nesse sentido, ele considera que o desafio foi contar a história para funcionar como estímulo para quem se interessar em aprofundar sobre o tema. “Busquei transformar aquela história complexa, enigmática, misteriosa e densa, com documentações fora da cronologia e muitos pontos obscuros, em um filme documentário. Tem de ser um filme com certa dinâmica e atração, para que as pessoas consigam assistir até o final.”

Não por acaso, o filme começa com os seguintes versos, transmitidos como um rap: “Que história é esta que meu pai não me contou? Que história é essa que meu avô não contou para meu pai e meu pai também não me contou?”.

“A formação e a cultura do povo negro, principalmente nos tempos passados, ocorriam por meio da oralidade. O povo negro foi proibido se alfabetizar e dominar a escrita. Mas isso tem um ponto fora da curva nos conspiradores de Búzio: a maioria era alfabetizada e eles dominavam fragmentos do francês e do latim”, reforça Antônio Olavo.

Por narrativas plurais e democráticas

Tal qual a Revolta dos Búzios, outros episódios históricos para a população afro-brasileira, como a Revolta dos Malês (1835) e a Sabinada (1837-1838), são eclipsados pela narrativa historicamente hegemônica, a qual exalta a perspectiva de grupos que compuseram a elite socioeconômica no país. Ainda nesse contexto, produções independentes passam pelo mesmo drama. Além disso, é necessário também considerar a sub-representação de profissionais negras e negros na esfera audiovisual, seja na direção ou em demais funções no desenvolvimento de projetos audiovisuais.

Contudo, pode-se observar alguns sinais que têm ajudado a mitigar esse cenário e, mesmo de modo tímido, a promover abordagem mais inclusiva. “Aqui na Bahia é impressionante o número de jovens fazendo audiovisual. Dois fatores têm levado a essa mudança para melhor. O primeiro é a tecnologia: quando comecei a trabalhar com cinema, era com película - tudo era caríssimo”, relembra o diretor, ao traçar paralelos entre o período que começou a trabalhar no audiovisual, nos anos 1970, passando para 1993, quando lançou o seu primeiro filme, “Paixão e Guerra no Sertão de Canudos”, com os dias atuais.

O segundo fator apontado por Antônio Olavo diz respeito a políticas públicas, com destaque para editais públicos. No entanto, considera, é necessário contemplar a importância de narrativas que desafiem o status quo e resgatem histórias invisibilizadas. “O Estado precisa entender que investir em cinema é investir no país”, pondera. “O Brasil pode difundir no mundo a sua imagem através do cinema - e essa imagem [pode] atrair investimento, turistas, interesses. As políticas públicas estão indo nesse caminho. Elas têm que se aprimorar e ampliar o investimento no cinema. Idem na cultura.”

Antônio Olavo reforça a importância de que histórias contra-hegemônicas alcancem mais e mais pessoas - e mostrem o Brasil para além do senso comum. “Quero que outras pessoas produzam também sobre a Revolta dos Búzios, divulguem e difundam. Isso é bom para conhecermos essa história nossa do passado e termos orgulho dela. É necessário que saia também da academia.”

Essa lógica dialoga, por fim, com o modo como Antônio Olavo vê a sétima arte. “Faço cinema não para meu deleite pessoal. Faço cinema para contribuir e transformar o mundo em um mundo melhor.”


Saiba mais

Confira mais informações e as salas onde o filme “1798 - Revolta dos Búzios” na página e perfil no Instagram da produtora e distribuidora Abará Filmes.

+ Assista ao trailer de “1798 - Revolta dos Búzios”

+ Entrevista com a cineasta Quézia Lopes, diretora do documentário “Corpos Invisíveis”

+ Série “Ancestralidades” está disponível na plataforma Itaú Cultural Play

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