Centro de Cultura do Maranhão

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O Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN-MA) é fundado em 1979, na sede da recém-criada Sociedade Maranhense de Defesa dos Direitos Humanos (SMDH). Os principais objetivos do grupo são promover encontros e manifestações de caráter político, educativo e cultural, bem como divulgar a história e a luta do povo negro por meio de atividades em associações de bairro, sindicatos, escolas de samba, escolas de ensino fundamental, médio e universidades. Em 1985, o CCN conquista sede própria, no prédio da Casa da Pólvora do Maranhão, antigo espaço de mercado de escravos. Conta, entre seus fundadores, com Mundinha Araújo, Isidoro Cruz Neto, Silvia Black, Maria do Rosário Carvalho, Luizão e João Francisco.

Inspirado pelas lutas por direitos civis da população negra estadunidense e das lutas anticoloniais dos países africanos, o grupo se reúne para ler intelectuais negros brasileiros. Nesse contexto, a jornalista, pesquisadora e ativista maranhense Maria Raimunda Araújo (1943), conhecida como Mundinha, inicia o levantamento de fontes documentais referentes à história da África e da escravidão negra, trabalho que desenvolve por décadas. Essa pesquisa cobre arquivos públicos federais, estaduais e municipais, bibliotecas, museus, instituições de pesquisas ou documentação, cartórios, igrejas em São Luís e outros 29 municípios maranhenses. Entre 1991 e 2002, ela dirige o Arquivo Público do Maranhão e monitora o projeto Guia de fontes para história da África, da escravidão negra e do negro na sociedade atual, publicado em 1988 [1].

Além da investigação em arquivos, Mundinha realiza pesquisas em campo, visitando comunidades negras dos municípios de Dom Pedro e Alcântara, onde reconhece um modo de vida que a remete aos filmes sobre a África: populações negras altivas, vivendo de modo autônomo, em casas de barro cobertas de palha, conversando em suas portas, enquanto pilam arroz, e cujas mulheres parecem liderar a vida comunitária. Dessas pesquisas resulta a cartilha ilustrada Essa história eu não conhecia, distribuída gratuitamente pelo CCN-MA nas escolas públicas de São Luís, e o mapeamento cultural de povoados localizados na área de segurança do Centro de Lançamento de Alcântara, projeto executado por um convênio entre a Secretaria Estadual de Cultura do Maranhão (Secma), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1985.

Em 1984, o CCN-MA cria o bloco afro Akomabu, cujo significado na língua fon é “a cultura não deve morrer”. O grupo organiza desfiles anuais que funcionam como atividades educativas e artísticas para celebrar a diversidade étnico-racial. Considerado síntese do modo de operar do CCN-MA, o Akomabu promove e tematiza a história e a cultura africanas e afro-brasileiras por meio da pesquisa e produção de música, enredo, dança, vestuário e estamparia.

Em 1986, o centro promove o primeiro Encontro Estadual das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, com o tema "O negro e a constituinte brasileira". O encontro possibilita a reunião  do CCN e do Movimento Negro do Pará com o Movimento Negro Unificado (MNU) para promover da I Convenção Nacional do Negro pela Constituinte, realizada em Brasília no mesmo ano.

Em 1988, em parceria com a SMDH, o CCN-MA cria o projeto Vida de Negro, com o objetivo de identificar e legalizar as áreas para titulação de posse definitiva dos quilombolas. Pioneiro no Brasil, o projeto exerce pressão para o cumprimento do Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988. A mobilização conquista a inclusão do artigo 229 na Constituição Estadual do Maranhão (1989), que garante, em nível estadual, a titulação das terras quilombolas. Em 1992, o projeto contribui também para a primeira titulação de uma comunidade negra rural maranhense, por meio da Reserva Extrativista do Quilombo do Frechal. Em 20 de novembro de 1997, o CCN-MA apoia a criação da Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranhão (Aconeruq).

O CCN-MA é um importante centro de organização política e produção cultural da população negra do estado do Maranhão. Com trabalhos iniciados ainda durante o regime militar, cumpre o papel de arquivo público sobre a história e a cultura negra, bem como potencializa a organização política negra local. Entre suas ações, destaca-se o protagonista no fomento das articulações políticas das comunidades quilombolas, organizando em sua sede encontros importantes desde os anos 1990.


Notas

[1] Desde 1959, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e o Conselho Internacional de Arquivos desenvolvem o programa "Guia de Fontes para História das Nações". Em 1984, o Arquivo Nacional recebe o convite para coordenar a realização do Guia brasileiro de fontes para a história da África, da escravidão negra e do negro na sociedade atual.

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