
Vilmar Kalunga
1980
Vilmar Souza Costa (Cavalcante, Goiás, 1980). Liderança quilombola, político. Conhecida também como Vilmar Kalunga, é licenciado em educação no campo e pós-graduado em ciências da natureza com especialização em matemática pela Universidade de Brasília (UnB). Eleito por duas vezes presidente da Associação Quilombo Kalunga (AQK). Em 2020, é eleito prefeito de Cavalcante, tornando-se o primeiro prefeito quilombola do país.
Nascido no núcleo Vão do Moleque, do Quilombo Kalunga, em Cavalcante, Vilmar é o filho mais velho de uma família de agricultores e, em função da morte prematura do pai, ajuda a criar seus 11 irmãos e irmãs. Sua formação escolar é marcada pelas dificuldades de acesso e permanência, comuns aos kalunga. As dificuldades incluem, por exemplo, caminhadas de até quatro horas pelo cerrado para chegar às escolas, multisseriadas e improvisadas. Conclui o primeiro ciclo do ensino fundamental aos 14 anos e, para dar continuidade aos estudos, tem que se mudar para a casa da sua avó, um modesto barraco que abriga até 15 outros jovens na mesma situação. Cursa o ensino médio no período noturno, dedicando o turno diurno ao trabalho em fazendas da região. Na escola, destaca-se no estudo da matemática, tendo lançado mão disso para superar o preconceito que recai sobre os negros vindos do interior do município. É assim que, diferentemente de muitos colegas de comunidade, primos e irmãos, consegue completar o ensino médio em 2005.
Em 2006, depois de terminar o ensino médio, retorna ao trabalho agrícola. Mas, em 2007, participa do censo agropecuário como recenseador do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que o habilita a ocupar o cargo de professor dinamizador do município na comunidade kalunga de Engenho II, onde assume a função de auxiliar os professores no acesso às tecnologias digitais e à internet. É nesse contexto que atua também como auxiliar de campo de uma pesquisadora da UnB, em uma dissertação sobre o tema da agricultura kalunga naquela comunidade. É incentivado pela pesquisadora a se inscrever no processo seletivo do curso de licenciatura em educação do campo da UnB. Ingressa no curso em 2008 e, em 2012, defende o trabalho final de curso intitulado A luta pelo território: histórias e memórias do povo Kalunga.
Ao longo do curso, destaca-se como liderança entre os estudantes e, em 2012, encabeça o processo de organização da Associação dos Educandos Povo Terra e Campo (Epotecampo), que tem por objetivo buscar melhorias para a educação, fortalecer a cultura local e apoiar as demandas das comunidades em seu diálogo com o Estado e suas políticas públicas. A importância da iniciativa fica evidente quando a Epotecampo realiza um encontro inédito de 400 jovens dos oito municípios que compõem o Território da Cidadania da Chapada dos Veadeiros (São João D’aliança, Alto Paraíso de Goiás, Colinas do Sul, Teresina de Goiás, Cavalcante, Monte Alegre de Goiás, Campos Belos e Nova Roma) para discutir políticas públicas que afetam suas vidas e seus projetos de futuro em seu território. O evento também mobiliza, por meio de caravanas, lideranças locais e regionais de assentamentos, das comunidades kalunga e de uma terra indígena.
Em 2014, nas eleições para a presidência da AQK, o grupo de jovens kalunga mobilizados em torno da Epotecampo decide intervir no processo eleitoral, até então restrito às lideranças mais velhas e realizado sem as garantias de uma ampla participação. A AQK, criada em 1999, com o objetivo de representar os moradores do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, compreende 39 comunidades de três municípios e aproximadamente duas mil famílias ou oito mil pessoas. Conhecida também como Associação Mãe, a AQK é o resultado da mobilização comunitária em torno da defesa e titulação do território Kalunga, ameaçado pela grilagem de terras desde a década de 1940, que se expande para a região norte do estado de Goiás e se intensifica na década de 1960, com a mudança da capital para Brasília.
Com isso, pela primeira vez, em 2014, são realizados debates entre os candidatos e é garantida a presença de urnas eleitorais acessíveis a todos os povoados. Vilmar é eleito com 1.642 votos contra 92 do segundo colocado. Ao assumir a presidência da associação, elabora o primeiro regimento interno e o primeiro planejamento estratégico com base em um levantamento socioeconômico, realizado com auxílio da UnB, e em debates com cada um dos 39 núcleos de referência Kalunga. Isso habilita a associação a acessar, também pela primeira vez, uma linha de crédito do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Em 2014, Vilmar ingressa na coordenação da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq).
Entre 2014 e 2016, Vilmar se torna monitor no auxílio a candidatos e estudantes da UnB em território kalunga. Com isso, há um substancial crescimento de matrículas e bolsas destinadas a estudantes rurais da região, que atualmente alcança cerca de 400 jovens.
Em 2016, é convidado a compor a chapa do Partido Socialista Brasileiro (PSB) nas eleições para a prefeitura do município de Cavalcante, como vice-prefeito, ficando em segundo lugar. Nas eleições de 2020, o PSB o convida a encabeçar a chapa, como candidato a prefeito do mesmo município, no qual cerca de 80% da população é quilombola. Na mesma eleição, ingressam quatro vereadores kalunga, que hoje formam uma espécie de bancada na câmara de vereadores de Cavalcante.

