Cabanagem
A cabanagem, ocorrida entre 1835 e 1840 na Província do Grão-Pará [1], é uma das revoltas mais violentas do Período Regencial e é causada, sobretudo, pelas condições econômicas e políticas críticas às quais a população pobre da região estava submetida.
Deriva seu nome das cabanas dos habitantes pobres do interior da Amazônia, protagonistas dessa revolta nativista liberal. A cabanagem é resultante da luta pelo poder entre várias facções da elite: absolutistas, liberais moderados e exaltados. Nesta luta, um grupo incendeia a plantação do líder do grupo político liberal radical e oficial da Guarda Nacional, Malcher, que é detido. Logo em seguida, em 6 de janeiro de 1835, as tropas em Belém se levantam em apoio a Malcher, que é libertado e aclamado como novo governador. No ato de proclamação enviado ao Rio de Janeiro, povo e tropas pedem às autoridades centrais que não enviem mais governadores até que o imperador D. Pedro II atinja a idade adulta.
O primeiro governo cabano é reconhecido pela elite local. Apesar de proclamar a defesa da propriedade e da escravidão, a rebelião facilita a fuga de diversos escravizados, que se organizam em quilombos independentes, como o do Patriota. As elites, por outro lado, abandonam a cidade.
Os cabanos reocupam a capital, Belém, e tentam organizar a sua defesa, mas são derrotados em 1836 pelas tropas vindas do Rio de Janeiro, comandadas pelo general Francisco José de Sousa Soares de Andrea. Na última fase da revolta, as tropas legalistas, em perseguição aos rebeldes pelo interior da província, cometem diversas atrocidades contra os tapuios, caboclos e indígenas Mundurucu e Murra. Estima-se que o episódio culmina em 40 mil mortos, ou seja, o equivalente a um terço da população recenseada. Desse modo, um movimento nativista, patriota e liberal, que conta com significativa participação de brasileiros brancos, acaba provocando, por parte das forças conservadoras, uma repressão racializada com características de genocídio, cujas consequências são devastadoras para a Amazônia.
Nota
[1] A Província do Grão-Pará é uma região administrativa do final do Período Colonial e de todo o Período Imperial que, atualmente, corresponde às áreas do Pará, Amazonas, Amapá, Roraima e Rondônia.