Cemiterada
Em 25 de outubro de 1836, uma multidão multirracial de homens e mulheres de diferentes classes sociais destroem o recém-inaugurado cemitério do Campo Santo, revolta que fica conhecida como Cemiterada.
Localizado nas cercanias de Salvador, Bahia, o cemitério é construído por uma empresa privada, por meio de concessão, por parte do poder público, do monopólio dos sepultamentos na cidade pelo prazo de 30 anos. Até então, a tradição católica resguarda às irmandades e ordens terceiras a responsabilidade dos funerais de seus membros. Os ritos são realizados com pompa e reverência, pois há a crença de que podem salvar as almas dos mortos e, por isso, os corpos são enterrados em “solo sagrado”, dentro das igrejas e ao seu redor.
Estima-se que a revolta tenha começado de manhã, estendendo-se até o pôr do sol. Os irmãos das diversas confrarias religiosas, vestindo seus hábitos e empunhando os estandartes, marcham em procissão juntamente com a multidão, em defesa do direito à espetacularização da morte e da salvação das almas.
Defendem também suas crenças e sua posição contrária a mudanças importantes na ordenação do Estado, que transfere para o poder público a preocupação com o processo de urbanização das cidades e sua salubridade. Nesse contexto, e a exemplo do que ocorre nas nações europeias, a medicina higienista ganha terreno, impondo que se separem os vivos dos mortos ao transferir os cemitérios para longe dos centros urbanos.