Colorismo
O colorismo é um discurso elaborado em sociedades formadas pela experiência colonial e estruturadas pelo racismo como forma de dominação e hierarquização de grupos, notadamente de descendentes de africanos e indígenas. Nesse contexto, o colorismo se refere às hierarquizações baseadas no critério de cor e nas experiências inter-raciais e intrarraciais, e está associado, em particular, aos processos de miscigenação e de embranquecimento social de uma nação. deespecialmente na lógica de valorização de pessoas com pele mais clara e traços fenotípicos associados pelo senso comum aos de origem europeia. É exemplar o caso de pessoas negras de tez clara elogiadas pela beleza “exótica”, enquanto pessoas pretas enfrentam resistências para serem consideradas modelos de beleza.
Nos Estados Unidos, ainda que pese a notável diferença entre as relações raciais estadunidenses e brasileiras, sobretudo porque a regra da ascendência é determinante na dinâmica racial do país norte-americano, também se fez presente a distição entre negros de pele clara (light skin) e negros de pele escura (dark skin). Em alguns países africanos, como Angola, Moçambique, Cabo Verde e África do Sul, essa diferença é notável, princialmente nos casos de filhos de casamentos inter-raciais ou de famílias com histórico de miscigenação racial.
Seja no Brasil, seja em outras partes do mundo que passaram pela experiência colonial, o discurso sobre colorismo tem como fundamento o problema da miscigenação e a cultura do embranquecimento como processos de diferenciação social entre grupos de cor. Por essa razão, seu impacto é mais evidente nos debates sobre a identidade das pessoas autodeclaradas pardas ou mestiças. O debate sobre o colorismo encontra legitimidade em sociedades baseadas em um contínuo cromático (do branco ao preto), como é o caso do Brasil. Essas sociedades tendem a dar pequenas vantagens às pessoas negras de pele mais clara – como na preferência por modelos negras de pele clara nas ações de publicidade e propaganda –, embora não necessariamente permitam a este segmento livrar-se do racismo. Isso evidencia que o racismo baseado nos processos de embranquecimento busca preterir pessoas de pele mais escuras em favor de pessoas mais claras, ainda que essas últimas nunca sejam tratadas como brancas.
O colorismo é um debate reducionista sobre o problema das hierarquizações raciais, pois, como nos ensina as autoras da teoria da interseccionalidade, os imbricamentos das múltiplas formas de opressão – a exemplo da classe e de gênero – são considerados determinantes para a construção das identidades dos sujeitos racializados, assim como para as formas pelas quais esses indivíduos experimentam as discriminações e desigualdades.
Os estudos sociológicos brasileiros sobre disparidades sociais também mostram muitas semelhanças entre as condições econômicas de pessoas pretas e pardas, grupos bem distantes da posição social das autodeclaradas brancas no Brasil. Por essas razões socioeconômicas e por um entendimento da origem étnico-racial, os movimentos sociais negros brasileiros ao longo do século XX e XXI, ainda que percebam diferenças intragrupais, defendem que a categoria negro seria o agrupamento de pretos e pardos, formando uma identidade política e não um essencialismo cromático.
Como discurso ambivalente, o colorismo, de um lado, destaca o problema do preterimento das pessoas de tez retinta em favor das pessoas mais claras (ou seja, mais próximas do ideal desejável do padrão branco) e, de outro, reforça a lógica racista, pois, por vezes, hierarquiza o sofrimento social e enfraquece as alianças entre pardos e pretos para o enfrentamento ao racismo. Como discurso sobre a hierarquização da cor, o colorismo nos ensina sobre as armadilhas do racismo e do antirracismo no mundo contemporâneo.