Eurocentrismo

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Por eurocentrismo entende-se o pensamento ou o conjunto de ideias, símbolos e representações que tomam por pressuposto a superioridade técnica, cultural, econômica e filosófica dos países da Europa ocidental.

O eurocentrismo surge de forma ascendente, em termos globais, e ganha força e domínio para além do seu território. O etnocentrismo europeu toma para si a racionalidade técnica e o controle dos seres vivos na Terra, bem como das mercadorias. O conceito contempla o sentimento que sustenta todo o projeto colonial idealizado pelas potências mercantis desde o século XV, que serve de base ideológica para o tráfico de pessoas para o trabalho escravo, alimento do capitalismo moderno.

O sentimento de superioridade europeu é construído em conjunto com a racialização e a exotização de culturas não europeias, especialmente africanas, americanas e orientais. A construção de zoológicos humanos e a animalização de seres humanos durante o século XIX são evidências do projeto expansionista etnocêntrico que justifica a exploração econômica, os saques, os roubos, os estupros e a escravização com base na suposta inferioridade e selvageria dos povos conquistados.

Nesse período, são comuns exposições de grupos tidos como selvagens, a exemplo dos indígenas americanos ou mesmo de regiões como Oceania, Ásia e África. Eventos voltados para o entretenimento e para a exploração do racismo científico da época fazem parte desse processo europeu de afirmação identitária, explorando tipos humanos que servem como objeto de curiosidade, diversão e prazer.

A exposição para o público de corpos humanos dissecados ou mesmo de pessoas vivas é, à época, atração para a população de países europeus. Um exemplo é a comemoração do centenário da Revolução Francesa, em 1889, em que uma das atrações principais da Exposição Universal de Paris é a exibição Village Négre, que expõe quatrocentos nativos originários de territórios colonizados – a mostra representa a grande fronteira simbólica para separação entre civilizados e seres considerados selvagens.

Um dos casos mais escandalosos desse movimento de exotização e racialização humana no mundo europeu é o de Sarah Baartman (1789-1815). Conhecida como a Vênus Hotentote, a mulher sul-africana é levada à Europa e tem seu corpo exibido em espetáculos circenses realizados em Londres e em Paris. Mesmo após sua morte, continua a ser exposta em museus de história natural da França até 1974. Com o pedido da liderança sul-africana Nelson Mandela (1918-2013), os restos mortais de Sarah Baartman são devolvidos ao país em 2002.

No Brasil, movimentos sociais, acadêmicos e intelectuais antirracistas têm buscado denunciar o eurocentrismo, pois o conceito não apenas contém símbolos de inferiorização dos povos africanos e especialmente indígenas, mas também por valorizar o Ocidente em detrimento do Oriente.

As leis n. 10.639/03 e 11.645/08 – aparato jurídico legal brasileiro para a área da educação, do ensino básico ao universitário, em vigência no país desde a primeira década do século XXI – são construções voltadas para o enfrentamento do etnocentrismo europeu, pois propõem delineamento de processos pedagógicos que deem centralidade e protagonismo às diferenças culturais não ocidentais que fazem parte da cultura brasileira, em particular, as culturas africanas, afro-descendentes e indígenas. Nos pareceres que fundamentam uma educação que valorize esses povos há referência à sistemática discriminação, inferiorização e desumanização desses povos originais e traficados para este país. Sendo o etnocentrismo europeu o termo usado para se referir ao conjunto de valores baseados na experiência europeia, desconsiderando as trocas culturais milenares entre África, Oriente e Europa, as contribuições dos povos colonizados para as formações nacionais, seja em termos estéticos, linguísticos, técnicos, alimentares, musicais, religiosos, medicinais, dentre outros.

O eurocentrismo não é apenas a valorização da cultura europeia, ocidental e branca: trata-se da subjugação, inferiorização e exotização de outras etnias, grupos culturais e continentais que não pertencem à comunidade europeia. Por essa razão, os movimentos culturais, pedagógicos, sociais, filosóficos contemporâneos têm se esforçado para denunciar essa estrutura de pensamento, apresentando novas rotas para o pensamento global, sem hierarquização e inferiorização de outras coletividades humanas. Uma das formas de superar o eurocentrismo é o investimento no conhecimento histórico, cultural e científico das realidades historicamente sufocadas e invisibilizadas pela grande narrativa do Ocidente.


 

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