Preconceito
O preconceito é um conjunto de representações, crenças e valores preconcebidos e internalizados durante a formação dos indivíduos. Esse processo os levam a nutrir expectativas e opiniões positivas ou negativas sobre pessoas que pertencem a determinados grupos sociais.
O preconceito pode ser religioso, racial, étnico, de classe social, de castas, de gênero e sexualidade ou ainda de preferências culturais e estéticas. Toda vez que generalizações são fixadas contra um indivíduo, independentemente das variações e diversidades internas presentes no grupo social, pode-se dizer que há presença de preconceito.
Essas generalizações podem ser baseadas em expectativas positivas, como a crença de que determinado perfil social é mais adequado para exercer determinadas funções do que outras. Uma situação é considerar o homem branco mais capaz de ocupar posições de comando em uma empresa, escolha baseada apenas na presunção de competência e na repetição de vezes em que esse perfil ocupa tais posições – além da visão positiva sobre esse grupo social em várias dimensões da vida, não apenas no mercado de trabalho. A crença de que asiáticos são melhores nas áreas de exatas do que nas biológicas ou humanidades é outra variante de preconceito supostamente positivo, que cria rótulos sobre um dado grupo, não permitindo que indivíduos pertencentes àquele segmento possam expressar suas particularidades e seus destinos individuais.
Apesar de ter alguma face supostamente positiva quando favorável a determinado grupo social, em geral o preconceito é associado a problemas sociais. Ele é conhecido por estar na base da discriminação, da segregação e das desigualdades e injustiças sociais.
O termo preconceito racial é comumente utilizado para se referir a expressões e ações dirigidas contra segmentos étnicos e culturais de uma sociedade. Dizemos que uma pessoa é preconceituosa contra negros, por exemplo, quando apresenta comportamentos verbais ou não verbais que expressam expectativas negativas ou rótulos sociais baseados na cor ou raça.
Na educação infantil são numerosos os relatos de crianças negras que são insultadas ou apelidadas nas escolas com termos racialmente pejorativos. Atitudes discriminatórias são visíveis também quando essas crianças são apelidadas por nomes associados à cor de pele ou a certos personagens televisivos ou quando são escaladas para representarem apenas personagens sem centralidade. É o caso de situações em que uma professora nunca escolhe uma menina negra ou um menino negro para protagonizarem uma peça teatral, atitude provavelmente orientada por preconceito racial.
Durante décadas no Brasil, somente mulheres brancas e homens brancos são escalados para atuar como protagonistas na maior parte da produção televisiva do país. No documentário A negação do Brasil, o diretor Joel Zito Araújo (1954) revela que negros são frequentemente escalados para papéis de subordinação social, enquanto brancos ocupam posições de mando e poder no século XX. A representação da mulher negra como doméstica se torna padrão na dramaturgia nacional, e grandes atrizes negras vivem por um longo tempo quase como figurantes na televisão. Esse exemplo indica como o preconceito racial se reproduz na cultura de massa do país.
Na história política do Brasil do século XIX ao XXI, são comuns as denúncias de preconceito de cor. Na imprensa negra brasileira, são frequentes os relatos de atitudes desfavoráveis a negros em ambientes de lazer e trabalho e nos espaços públicos. As representações e ações orientadas pela preferência racial por pessoas brancas em detrimento das negras recebe esse nome de preconceito de cor, que pode ser considerado como sinônimo de preconceito racial.
Em anúncios de serviços domésticos, a preferência por pessoas de “boa aparência”, na prática, significa que pessoas negras não são admitidas. Nas biografias de mulheres negras e homens negros, há relatos de que, em relacionamentos afetivos ou matrimoniais, é comum a família branca nutrir desconfiança do parceiro ou da parceira negra, provocando conflitos e tensões no ambiente familiar.
O sociólogo Oracy Nogueira (1917-1996) elabora uma definição importante para as ciências sociais sobre o preconceito racial. Segundo o autor, o preconceito racial pode ser de origem ou de fenótipo. O preconceito de origem se refere à ascendência racial de uma determinada pessoa. Nos Estados Unidos, o preconceito racial de origem é conhecido pela famosa frase “basta uma gota de sangue”. No Brasil, o preconceito racial se manifesta como preconceito de marca, isto é, como preconceito estético ou fenotípico. Embora a ascendência seja importante, a manifestação preconceituosa está presente em contextos em que sejam visíveis a cor e outros aspectos fenotípicos, como textura do cabelo, pigmentação da pele e traços faciais.
Visões negativas, imagens estigmatizantes e rótulos são formas de expressão do preconceito, que está na base das injustiças históricas e sistemáticas. Os movimentos sociais, as legislações por equidade racial e as políticas antirracistas combatem os preconceitos arraigados na sociedade para garantir mais igualdade e liberdade para todos no Brasil, em particular as pessoas que pertencem a grupos historicamente discriminados.