Destacar o papel central que tem o território para a realização de pesquisas relativas ao campo da ciência e tecnologia. Esse foi o foco referente ao eixo Desenvolvimento territorial, regeneração ambiental, ecologia e revitalização urbana e rural do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022.
O edital, relativo à Plataforma Ancestralidades, contemplou três pesquisas em andamento relativas a este eixo:
- Escola cosmorgânica e medicina tradicional afropindorâmica, de Erica Portilho
- Mulheres quilombolas luta, resistência: a cultura tradicional no Quilombo Peropava, de Andréia Regina Silva Cabral Libório
- Paisagens Negras: espaço, tempo e relações em Águas Claras-Salvador/BA, de Luar Vieira Santos.
Luar Vieira, mestranda em Arquitetura e Urbanismo, destaca como a sua vivência no bairro Águas Claras, em Salvador, e no curso de arquitetura e urbanismo da UFBA estimulou o seu olhar em âmbitos teórico, crítico e analítico para compreender o processo urbanístico e problemas estruturais do território. A mesma dinâmica vale para a busca, por meio de memórias e trajetórias da população do bairro, descrições e apreensões das paisagens negras que revelam conexões culturais e ancestrais com a natureza, para além da organização das cidades dentro da lógica comercial. Idem para fomentar, por meio da pesquisa acadêmica, o pertencimento urbano e a valorização da identidade negra.
“A paisagem é a relação da sociedade com o espaço. Assim, por meio dela, tentamos coletivamente recontar e reconstituir o que foi apagado e/ou invisibilizado durante os processos urbanos. Ao buscar memórias do bairro, as moradoras enfatizaram em suas histórias a existência de quintais, frutas em abundância encontradas na mata, água e até peixe. Por isso, ao disseminar o material que está sendo produzido para a comunidade, contaremos histórias que nunca foram ouvidas, assim ressignificando conceitos e olhares”, destaca a mestranda em arquitetura e urbanismo.
A relação entre território e população negra tem papel central também para a doutoranda em Educação Andréia Regina Silva Cabral Libório. Andréia mostra em sua pesquisa como a comunidade quilombola de Peropava, em Registro (SP), a luta cotidiana contra a desigualdade e a exclusão conta com o protagonismo das mulheres do território, por meio da valorização do trabalho artesanal e intelectual, que se torna signo de luta política, empoderamento feminino e valorização da cultura quilombola em favor da promoção da equidade - vale destacar que em âmbitos social, cultural, política, ambiental, econômica, de gênero, entre outras vertentes.
“Os conhecimentos e saberes ancestrais são vivos e presentes nas técnicas de manejo, produção e cultivo agrícola e de mudas de plantas nativas utilizadas no reflorestamento da Mata Atlântica. Eles abrangem também as técnicas de produção da alimentação tradicional, como cuscuz, beiju, farinha de mandioca, bolo de roda, as ervas medicinais, entre outros elementos que se fazem presentes. Dessa forma, pressupostos teóricos como protagonismo quilombola, multiculturalismo, interculturalismo, diversidade étnico-cultural, igualdade de gênero, feminismo, culturas e educação antirracista são conceitos centrais na pesquisa”, explica Andréia.
O cosmorgânico antecede qualquer conceito ocidental…
… Pois é baseado na circularidade, na integralidade e no holismo - leia-se vertente filosófica segundo a qual tudo deve ser visto de forma global e integrada em vez de isolada. O princípio cosmorgânico, segundo o qual, em linhas gerais, coloca a natureza em papel central na gestão de recursos para todas/os terem acesso ao que pode oferecer, é explicado deste modo pela doutoranda em antropologia social Erica Portilho.
A partir desta premissa, a pesquisa de Erica Portilho, que analisa a escola cosmorgânica e a medicina tradicional afropindorâmica, ou seja, práticas medicinais realizadas por povos da resistência contracolonial brasileira - populações indígenas e negras escravizadas -, destaca o papel central e pioneiro dessa perspectiva medicinal, fazendo contraponto à medicina integrativa. Para a pesquisadora, essa vertente consiste na apropriação europeia de saberes ancestrais dos povos originários do Brasil e das Américas, assim como dos povos africanos em diáspora.
“A medicina tradicional afropindorâmica a é a base da medicina convencional, mas sua farmácia, a natureza, pela medicina convencional, teve seus princípios ativos isolados e sintetizados, tirando toda potência de cura do próprio corpo conectado ao ambiente. Enquanto a medicina tradicional usa meios radicais de combate a doenças, sem ao menos interligar os sentidos - olfato, paladar, tato, visão, audição, espiritualidade e energia -, a medicina tradicional cuida de todos esses aspectos, inclusive o espiritual”, pontua Erica Portilho.
“A paisagem é a relação da sociedade com o espaço. Assim, por meio dela, tentamos coletivamente recontar e reconstituir o que foi apagado e/ou invisibilizado durante os processos urbanos. Ao buscar memórias do bairro, as moradoras enfatizaram em suas histórias a existência de quintais, frutas em abundância encontradas na mata, água e até peixe. Por isso, ao disseminar o material que está sendo produzido para a comunidade, contaremos histórias que nunca foram ouvidas, assim ressignificando conceitos e olhares.”
Revitalizar caminhos para o apoio acadêmico
Um aspecto em comum trazido à tona pelas pesquisadoras selecionadas no Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 diz respeito à fuga da perspectiva eurocêntrica - e hegemônica - no ambiente acadêmico, inclusive quando o assunto é a pesquisa científica.
Erica Portilho relata que após mais de vinte anos dentro da sua linha de pesquisa, inclusive com um período estudando fora do Brasil para poder ter a sua pesquisa valorizada, a seleção no edital da Plataforma Ancestralidades representou um reconhecimento inédito - e em outros desdobramentos profissionais. “O prêmio me incentivou a enviar minha dissertação de mestrado para uma editora e ontem [10 de janeiro de 2023] tive a grata surpresa de saber que meu texto foi aprovado para imediata publicação. Isso não tem preço.”
Ainda, Erica considera que a valorização dos saberes ancestrais é um caminho sem volta. “Romper com a lógica ocidentocêntrica não é fácil, mas temos um verdadeiro exèrcito de mulheres e homens que trazem nas veias o sangue ancestral afroindígena e estão reescrevendo e realinhando a nossa história e modo de vida, incluindo, desta vez, todes.”
Luar Vieira segue a mesma linha de Erica, ao destacar também como o apoio à pesquisa acadêmica, em particular para a comunidade acadêmica afro-brasileira, é estratégica para o processo em si e para pesquisadoras/es. “Sabemos que a pesquisa científica não é valorizada no Brasil, menos ainda se a pesquisadora for negra que estuda os territórios negros, cultura e saberes ancestrais, em um curso elitista. Há momentos em que nos sentimos sozinhas/os dentro do ambiente acadêmico - racista, classista e sexista -, que insiste em se posicionar como o único meio de apoio e ‘validação’ para sua pesquisa.”
Ainda dentro da lógica de resistência no ambiente acadêmico, para enfrentar a perspectiva eurocêntrica e mostrar que povos tradicionais, como populações quilombolas, Andreia Regina Cabral destaca a importância da ruptura dessa dinâmica para mostrar que tais grupos são produtores e construtores de conhecimentos - e que não deve existir hierarquização, mas sim diferentes saberes.
“Acredito fortemente que o apoio a estudos baseados e vivenciados por meio dos saberes e conhecimentos ancestrais das culturas afro-brasileira, africana, quilombola e indígena entre outras, é primordial para rompermos a lógica academicista eurocêntrica. Dessa forma, temos as nossas vozes e culturas acolhidas, representadas e reconhecidas como um dos meios de produção do conhecimento, para falarmos por e sobre nós e termos espaço para tal. Esse é um fator essencial para o rompimento da lógica perversa do apagamento e silenciamento de determinadas vozes e culturas, como a dos sujeitos quilombolas”, completa Andreia.