Apoiar a produção acadêmica de pesquisadoras/es negras/os sobre os múltiplos saberes afro-brasileiros. Este foi o objetivo do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 - Ciências e Tecnologias em Perspectiva com os Saberes Afro-Brasileiros, primeiro edital da Plataforma Ancestralidades voltado ao apoio à produção acadêmica nesse contexto.
Uma das categorias da iniciativa contemplou as Tecnologias ancestrais afro-brasileiras aplicadas à contemporaneidade. Esse eixo contou com a ancestralidade como destaque incontestável como consequência do recorte do programa, tendo como aspectos centrais as diversas manifestações que valorizam as referências africanas no fazer artístico brasileiro.
As manifestações artístico-culturais afro-brasileiras foram o ponto de partida da pesquisa A tradição entre nós: musicalidade e resistência afrobrasileira, realizada por Fernanda de França Gatto, mestranda em mídia e tecnologia. Fernanda considera que as cantigas são aspectos fundamentais da oralidade presente em terreiros, sendo que a tradição oral possibilitou a criação de espaço de compartilhamento de saberes singulares às populações que mantiveram vivas as tradições afro-brasileiras.
“Entre os motivos para isto está o que Lélia Gonzalez chama de pretuguês, expressão da língua portuguesa sobre o ponto de vista africano em sentidos sintático e semântico. Nesse sentido, é possível compreender que a oralidade presente no terreiro, a partir das suas expressões midiáticas, como as cantigas, expressa os valores de resistência da cultura afro-brasileira que se mantém viva devido à luta dos nossos ancestrais - e essa herança ancestral é fundamental para o combate ao racismo religioso nos dias de hoje”, pontua Fernanda.
A perspectiva religiosa é também aspecto central para a pesquisa Cooperativismo, povos de terreiro e desenvolvimento sustentável em Sergipe, feita pelo doutor em Direito Ilzver de Matos OIiveira. Ilzver, cuja trajetória pessoal está relacionada às religiões de matriz africana desde o início de sua vida, destaca aspectos como a proposta social mais comunitarista e coletivista inerentes à religiosidade de matriz africana, assim como a centralidade da questão étnico-racial que estrutura a organização social de povos e comunidades tradicionais.
Ainda, Ilzver destaca que sua pesquisa identifica como o cooperativismo negro tem sido realidade em diversos estados brasileiros, ao permitir o desenvolvimento de atividades norteadas por precenteis de sustentabilidade, independência tecnológica e econômica, gestão transparente dos recursos, proteção às terras, tradições e conhecimentos dos povos tradicionais.
“Nesses espaços é marcante a participação qualificada dos povos e comunidades tradicionais por meio de mecanismos de controle social direto no desenvolvimento de propostas endógenas, bem como na elaboração e execução de políticas, programas e ações que lhes dizem respeito.” Ilzver considera também que os conhecimentos sobre agricultura, artesanato, culinária, moda, medicina tradicional, e turismo étnicos, por exemplo, podem ser aproveitados “pelas famílias em suas comunidades tradicionais de terreiro para a criação de processos produtivos a partir da cosmopercepção africana e de terreiro, destacando as relações entre etnicidade e desenvolvimento.”
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“Considero essencial valer-se da ciência para exaltar outras formas de construção de saberes, como os presentes nas tradições afro-brasileiras, em grupos considerados dissidentes e povos originários. Além disso, a visão eurocêntrica tem um histórico de tratar pessoas como objetos de pesquisa. É fundamental, para haver avanço no combate à desigualdade e na ciência, que pessoas sejam colocadas no lugar de sujeitos de pesquisa.”
Ancestralidade, coletividade e construção social
O modelo coletivista inerente à organização social relativa aos povos tradicionais norteia a pesquisa Clubes Sociais Negros como Tecnologias Quilombolas: o caso da Associação Satélite Prontidão, realizada por Karla dos Santos Guterres Alves, doutora em Educação em Ciências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A pesquisa analisou, a partir do trabalho da Associação Satélite Prontidão, situada em Porto Alegre (RS), como a sua inserção nas redes sociais possibilitou a colocar em prática novas dinâmicas relativas ao trabalho realizado pela organização, assim como preservar a memória de clubes sociais negros - e da própria associação - na história da formação política da negritude contemporânea. Outro ponto compreende a participação da comunidade da associação em eventos acadêmicos por meio de oficinas, apresentação oral, relatos de experiência e participações em grupos focais e na atuação no movimento negro gaúcho.
“Tratamos os clubes negros como tecnologias que rearticulam o conjunto de outros objetos técnicos em torno das cosmopolíticas da ancestralidade - buscamos saber como operar as tecnologias digitais em prol do modo de vida próprio da ASP. Defendemos que os clubes sociais negros são importantes suportes de memória negra e que o momento de crise da maioria deles revela uma mudança de época na história negra no Brasil e traz a tarefa de rearticulação dessas entidades no século XXI”, explica a pesquisadora.
A oralidade tem também papel central na pesquisa desenvolvida por Fernanda de França Gatto, ao considerar que ela pauta a cadeia de conhecimentos em terreiros. “O terreiro tornou-se um local tão potente devido à oralidade, por constituir esse espaço em que é possível compartilhar saberes, manter viva a tradição e a ancestralidade por meio de cantos e diálogos. Isso mostra como a fala é relacionada com o axé, que todo esse axé é essencial para a manutenção e sobrevivência das tradições ancestrais. Eu me arrisco a dizer que não é possível estudar e valorizar os saberes de terreiro sem se deparar de alguma forma com a oralidade.”
Valorização acadêmica e ancestral
A matriz ancestral inerente a tais pesquisas é um dos vetores para a pluralidade e a riqueza temática dos estudos apoiados. O trio de pesquisadoras/es destaca a perspectiva eurocêntrica na produção acadêmica, seja por meio dos temas analisados e os procedimentos usados para fazê-lo, seja nos perfis de quem as realiza.
Fernanda de França Gatto destaca este aspecto por meio da hierarquização das formas de construção do conhecimento, ao mesmo tempo em que evidencia o papel fundamental da busca por novas perspectivas no ambiente acadêmico. “Considero essencial valer-se da ciência para exaltar outras formas de construção de saberes, como os presentes nas tradições afro-brasileiras, em grupos considerados dissidentes e povos originários. Além disso, a visão eurocêntrica tem um histórico de tratar pessoas como objetos de pesquisa. É fundamental, para haver avanço no combate à desigualdade e na ciência, que pessoas sejam colocadas no lugar de sujeitos de pesquisa.”
Já Ilzver de Matos OIiveira destaca um estudo feito em 2015 sobre a distribuição de bolsas de pesquisas por raça, cor e etnia, segundo a qual 26% das/os pesquisadoras/es de quem as recebia declaravam-se como pessoas negras - sendo que as bolsas de produtividade em pesquisa apresentam, de forma mais nítida, a exclusão de pretas e indígenas em projetos sobre ciência e tecnologia. “Assim, como único pesquisador negro nos programas de pós-graduação nos quais estive, posso afirmar que fazemos a diferença quando somos devidamente reconhecidas/os e apoiadas/os financeiramente, pois nossas pesquisas carregam as marcas da nossa escrevivência e apontam para lugares para os quais as pesquisas tradicionais não olham.”
Por fim, Karla dos Santos Guterres Alves destaca a perspectiva das ancestralidades afro-brasileiras na produção acadêmica, ao evidenciar como a valorização de conhecimentos ancestrais demonstra o valor do afeto, do corpo, das cosmovisões existenciais e mudando a compreensão sobre filosofia, ciência e tecnologia. “Por um lado, fazemos coro aos avanços dos estudos críticos em tecnologia que demonstram que o racismo se instala nos objetos e redes digitais - ou seja, não há tecnologia neutra. De outro, expandimos o conceito de tecnologia e suas possíveis operações, destacando a necessidade de repensá-las na localidade da cultura.”