Alguns dos signos de valorização e soberania de um povo dizem respeito ao poder de contar as suas próprias histórias e colocar em evidência os seus próprios saberes. Assim sendo, essa lógica parte pela premissa segundo a qual um determinado grupo tem agência e autonomia para falar por si próprio, em vez de se conformar com a posição de objeto narrativo ou de estudo.
Para tanto, a produção acadêmica e a ocupação de espaços estratégicos em segmentos diversos - literário, audiovisual ou imprensa, por exemplo - são fatores fundamentais para propor novas perspectivas e propostas para construções de mundos possíveis. Isso compreende, inclusive, o desenvolvimento de contranarrativas a discursos hegemônicos tratados como verdades únicas.
Estes aspectos nortearam a entrevista com Fernanda Felisberto, professora do Departamento de Letras da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e doutora pelo Programa de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Com foco na esfera literária, o diálogo contou com, entre outros pontos, analogias com o contexto editorial do século XIX e o momento atual, assim como a importância de se preservar conceitos feitos sobre e para vivências de pessoas negras.
Confira a entrevista a seguir.
Ainda que o protagonismo narrativo da população negra tenha aumentado nos últimos anos, obras com esse perfil étnico-racial não são consideradas como frutos de experiências universais. Quais fatores podem ser considerados nesse contexto? O que esse aspecto indica quanto ao público consumidor e a quem está à frente de espaços decisórios nesse contexto, como editoras e canais de produção de conteúdo?
Os motivos são óbvios. Estamos falando de racismo em relações de poder. Falarei do meu lugar - sobre literatura. Há uma produção significativa desde o século XIX. É muito importante marcar que a literatura produzida por pessoas negras desde o século XIX encena liberdade. Os nossos escritores, em sua maioria, não trazem narrativas sobre a escravização. Ou seja: quem faz a literatura desde o século XIX o faz em uma nova página da história, pois não fazem sobre narrativas de escravização - mas sim de liberdade.
Machado de Assis não foi escravizado. Lima Barreto e Maria Firmina dos Reis não vêm da experiência de escravização. Outro autor ao qual estou me dedicando - Teixeira e Souza - e Cruz e Sousa tampouco. É importante deixarmos essa marca fundamental: as letras pretas brasileiras do século XIX não vêm da experiência da escravização. Pelo contrário: elas encenam a experiência da liberdade, mas a historiografia oficial brasileira optou em rasurar essas pessoas.
Condicionou-se que a descendência de Machado de Assis era incompatível com a sua genialidade. Ou poderia ser genial, ou negro - essa equação não fechava para a historiografia literária brasileira. Por muito tempo, Machado de Assis foi condicionado para nós, pessoas pretas, como um autor branco - ou que negava sua raiz. Hoje, esse mercado vem cada dia mais entendendo que uma casa editorial brasileira, para ter sucesso, precisa ter autoria negra e não sobrevive mais sem um escritor preto. A maior casa editorial brasileiro, a Companhia das Letras, tem um catálogo todo voltado para autores pretos e tradução, principalmente, pois não temos acesso às feiras internacionais para acessar esses autores pretos que estão despontando no mercado internacional.
Não avançamos na teoria muitas das vezes, pois nós, que estamos na crítica literária, não conseguimos acessar as grandes plataformas para podermos publicar. Logo, uma crítica literária branca continua a operar sobre nossos textos - e da maneira como sempre quis, muitas das vezes sem a devida sensibilidade sobre os nossos textos. Mas, é claro, falamos de mercado quando se trata da não circulação de nossos textos e obras.
Quando você falou sobre Maria Firmina dos Reis e a trajetória do Machado de Assis, veio à tona a questão da invisibilização. Pensando na parte jornalística e na trajetória de Paula Brito também, também sobre como a imprensa negra foi invisibilizada nos primórdios.
Temos uma grande dívida no caso de Paula Brito - não apenas no campo literário. Ele foi tradutor e o primeiro editor preto brasileiro. É fundamental resgatarmos esse lugar no momento da história quando editores eram, na maioria, portugueses que estavam no Brasil. Ele tinha essa tarefa, hoje muito próxima das editoras pretas hoje no país, que apostam nesse escritor preto em seu começo.
Hoje, as pessoas supervalorizam sobre Paula Brito ter publicado Machado - mas Machado estava começando quando Paula Brito o publicou. Paula Brito entendia o que era publicar um escritor negro que estava começando, assim como a maioria das editoras pretas que tem à frente dos seus negócios um editor preto. Trata-se, em sua maioria das vezes, de uma pessoa intelectual negra que vê o hiato existente no mercado editorial frente a alguns conteúdos e sabe da importância de publicar aquele conteúdo - por isso, ele faz aquela aposta.
Em muitas das vezes é uma aposta muito mais de conteúdo do que comercial. Ele está apostando que é importante aquele conteúdo ser publicado, mas não necessariamente significa que aquilo ali vai ser um sucesso comercial. Foi a aposta feita por Paula Brito em torno do Machado de Assis: ele entendeu a importância de publicar aquele jovem escritor. Isso se repete hoje. Ou seja: a trajetória feita pelas editoras pretas hoje abre o caminho para outras editoras de grande porte. Quando chegam em alguns autores e autoras, elas já o fazem quando esses autores já estão consolidados.
Faço parte do conselho editorial da Carolina Maria de Jesus na Companhia das Letras. Os dois volumes de “Casa de Alvenaria” e o romance “O Escravo” são publicados na Companhia das Letras quando Carolina Maria de Jesus já era um nome consolidado. E que bom que está na Companhia, pois infelizmente nós, editoras pretas, hoje não temos como bancar um direito autoral para a quantidade de herdeiros - o que é uma realidade.
+ “Acordar a casa grande”: Conceição Evaristo fala sobre protagonismo negro no Festival Kwanzaa-Escrevivência
+ O legado de Carolina Maria de Jesus para as gerações atuais e futuras
Em âmbito acadêmico, como você considera que pesquisas feitas por pessoas negras com temática afro-brasileira, em segmentos diversos, funcionam como um dos elementos para colocar as pautas e saberes da população negra em evidência e como elementos estratégicos para produção de conhecimento?
Há, hoje, um ativismo negro dentro da academia. Sou professora no ensino superior e tenho pares espalhados pelo Brasil afora, não apenas na literatura, mas em várias áreas de conhecimento. Estamos produzindo conhecimento: temos publicados livros, assim como artigos em várias revistas. Essas, indiscutivelmente, são fontes de disseminação de saber e de conhecimento.
Acontecerá este ano, em Belém, o Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros (Copene), o nosso congresso diário realizado a cada dois anos. É um congraçamento nosso não apenas de encontro físico de pesquisadores e pesquisadoras, mas também do encontro das nossas pesquisas. E o Brasil está muito avançado no que diz respeito a esse volume do que se tem pesquisado, de coisas muito atuais, que têm sido faróis muito interessantes para a América Latina sobre o que se vem publicando e produzindo no campo das relações raciais.
Ou seja, somos um farol importante não somente pelo volume de pesquisa, mas também pelo volume populacional que acontece. Tem-se produzido muita coisa, e há representatividade em todas as áreas de conhecimento. Estamos hoje, na academia no Brasil, interferindo nessa pesquisa, e produzindo um contradiscurso na hegemonia branca que se consolidou por muito tempo.
Temos migrado com passos firmes nessa condição de objeto a sujeito de investigação. Esse é o grande passo, por esse caminho que temos feito e propondo coisas: conceitos e outras análises. Além disso, principalmente, estamos revendo um passado no qual fomos objetificados de forma não muito correta em muitas das vezes.
"Somos um farol importante não somente pelo volume de pesquisa, mas também pelo volume populacional que acontece. Tem-se produzido muita coisa, e há representatividade em todas as áreas de conhecimento. Estamos hoje, na academia no Brasil, interferindo nessa pesquisa, e produzindo um contradiscurso na hegemonia branca que se consolidou por muito tempo."
A partir do contexto literário, o conceito de escrevivência tem sido aplicado em contextos e áreas profissionais diversas. É correto considerar essa lógica como um aspecto que indica horizontes em favor do fortalecimento da democracia e como elemento civilizatório? Se sim ou não, por quê?
Antes de qualquer coisa, a escrevivência é um conceito pensado e gestado por uma mulher negra e sobre mulheres negras - e no campo literário. Mas um conceito somente se torna conceito pelo fato de ele andar. Hoje, ele já extrapolou o âmbito da literatura, passou a ser um conceito utilizado por outras áreas e vem apontando futuro para muitas áreas de conhecimento, pois devolve aos indivíduos uma ideia de protagonismo. Mas não necessariamente é um conceito autobiográfico, pois há uma infinidade de conceitos que apontam para autobiografia ou autoetnografia.
Ele tem muito mais uma experiência de um saber e de um ficcionalizar que não parte necessariamente de um acordo ou de querer agradar, e sim uma ideia de você poder espremer todo o seu desejo sem estar preocupado de agradar o outro. O sujeito branco não está necessariamente implicado nesse tripé de vivência, escrita e vida. E essa é a grande confusão: muitas das vezes, pessoas brancas têm se perguntado se podem utilizar a escrevivência. Existe uma infinidade de conceitos sobre a escrita de si que sempre estiveram aí para serem utilizados - e não se precisa, necessariamente, utilizar a escrevivência. Trata-se de um tripé no qual o indivíduo branco não está implicado, pois fala sobre escrita e vida para pessoas negras. E sobre isso, várias áreas de conhecimento têm sido utilizadas.
Agora, isso tem criado uma fissura e um campo de embate junto a pessoas brancas, que o veem também como possibilidade de utilizar no seu dia a dia. Esse é um nó posto no campo para a pesquisa no Brasil. Há muitos conceitos para pessoas brancas utilizarem. Agora é um desconforto toda vez que o indivíduo branco recebe limites, pois não estão acostumados.
Eu me lembrei do Festival Kwanzaa Escrevivência, quando Conceição Evaristo havia falado justamente esse ponto - a respeito da disseminação -, mas ao se ter sempre em mente que se trata de um marcador com intersecção de raça e gênero.
É um marcador teórico com essa intersecção. Existe uma infinidade de marcadores teóricos sem a marcação de raça e têm a marcação de gênero e escrita que pessoas brancas podem usar - autobiografia, autoetnografia, escritas de si, trajetórias individuais. Mas considero haver um fetiche, às vezes. Inclusive, uma das formas diante disso é desqualificar e chamar de modismo - como já ouvi por diversas vezes.
Quais são os avanços necessários para que a população negra seja, de modo pleno, agente e produtora de suas próprias narrativas e, assim, erradicar com a lógica eurocêntrica que insiste em tentar colocá-la como objeto de estudo?
Fico pensando se não há um perigo de querer também universalizar o nosso. Por exemplo, outro dia vi uma experiência de uma mãe da escola da minha filha segundo a qual a ausência de determinados padrões de histórias infantis negras, como não têm o marco da história branca, as pessoas acreditam que essas histórias não existem.
O que quero dizer? Não é pintar uma história universal de preto que vai fazer com essa história existir. São esses marcadores universais que precisamos dessa roupa para existir, pois temos construído outros caminhos para podermos caminhar. Com essa busca de um marcador - o qual não sei se atingiremos -, desperdiçam-se caminhos já alcançados nesse processo todo.
Agora, há experiências tão próprias e particulares. Temos muito a revelar sobre o espaço da casa de pessoas negras. Há tantas histórias tão particulares, tão íntimas nossas, de festas de pessoas negras, sobre como são os nossos churrascos de final de semana, como são as festas de final de ano, batizado ou gurufins de família. Fico pensando se isso de fato é universal ou é próprio nosso. Não sei se eu tenho esse parâmetro de que isso seja universal ou nosso, mas amplificado como uma experiência negra, do que buscar esse universalismo. Ainda não consegui virar essa chave.
Glossário
Confira os verbetes disponíveis na Plataforma Ancestralidades referentes às biografias de personalidades e a conceitos mencionados durante a entrevista com Fernanda Felisberto.