Mostrar o protagonismo, a autonomia e a resistência das mulheres trabalhadoras da pesca em Ipixuna, município localizado no sudoeste do Amazonas, e as estratégias que elas desenvolveram para contornar as desigualdades e invisibilidades de gênero enfrentadas por elas.
Esse é o objetivo da pesquisa ‘O trabalho das mulheres pescadoras da Amazônia: identidade, empoderamento e resistências da colônia de pescadores Z-41, município de Ipixuna (AM)’, desenvolvida por Suane do Nascimento Saraiva. O estudo foi um dos selecionados na edição 2024 do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa.
Nesse sentido, os objetivos do estudo consistiram em compreender as questões de gênero e as relações trabalhistas que as mulheres pescadoras desenvolveram frente à cultura patriarcal predominante no território, assim como identificar práticas tradicionais pesqueiras e desafios que elas enfrentam na região para fazerem valer o seu protagonismo nem processos decisórios.
Isso tudo passa também pela mobilização dessas mulheres em busca de empoderamento e autonomia para, enfim, enfrentar o status quo patriarcal e machista predominante na Colônia de Pescadoras Z-41 - que foi o tema de estudo de Suane do Nascimento Saraiva.
Para além desses aspectos, a entrevista com a pescadora passou por aspectos como o papel que as mulheres pescadoras do território têm para fortalecer a preservação ambiental e a necessidade de haver abordagem comercial e socioambiental que fuja de abordagens patriarcais e eurocêntricas.
Confira a entrevista a seguir.
Um aspecto emblemático na sua pesquisa diz respeito à relação entre meio ambiente e gênero, e economia. Como a apresentação de contrapontos a modelos patriarcais é, a partir dos aspectos que você identificou em seu estudo, estratégica para a preservação socioambiental?
A pesquisa abrange aspectos ambientais sobre como as mudanças climáticas estão afetando os espaços pesqueiros e a vida das mulheres pescadoras artesanais. Outros pontos do estudo são sobre a desigualdade e invisibilidade de gênero enfrentada por elas e a respeito da valorização do trabalho e a importância do que as pescadoras artesanais de Ipixuna fazem para a renda de suas famílias e comunidades.
O trabalho que as mulheres realizam nos territórios pesqueiros já é um contraste aos modelos patriarcais, assim como quando elas, com sua força de trabalho, estão sob sol e chuva realizando atividades consideradas masculinas. Mas, em relação a contrapontos aos modelos patriarcais na estratégia de preservação ambiental, considera-se que as mulheres nos espaços pesqueiros são as principais responsáveis pelo cuidado com o meio ambiente.
Elas também desempenham papéis centrais na gestão dos recursos naturais em suas comunidades. Elas buscam, então, respeitar a piracema e o defeso, que é um momento importante para a reprodução dos peixes. [N.R.: piracema é o período de reprodução dos peixes, quando eles nadam contra a correnteza, rio acima, até as nascentes para realizar a desova. Já o defeso é o período no qual é proibida a pesca de determinadas espécies para preservá-las.]
As pescadoras também atuam na coleta de lixo adequada para não contaminar os rios e lagos quando estão pescando. Além disso, elas são contra modelos patriarcais de desenvolvimento que visam a exploração intensiva nos territórios pesqueiros, como a pesca industrial, masculinizada e direcionada ao mercado global. Logo, as estratégias femininas ligadas ao ecofeminismo na pesca vão na contramão aos modelos patriarcais e ao encontro da preservação socioambiental.
Ainda, quais associações e paralelos, com base na sua pesquisa, você observa quando se fala em gênero e ancestralidade?
Na pesquisa, as mulheres pescadoras de Ipixuna estão vinculadas às ancestralidades indígena e ribeirinha. Essa relação molda, inclusive, a sua identidade e o contato com o ambiente em que vivem - no caso, a Amazônia. A pesca é uma atividade ancestral e vem sendo desenvolvida há muitos séculos no Brasil pelas populações negras, indígenas, ribeirinhos e quilombolas. Esses grupos tradicionais sempre usaram os recursos pesqueiros como fonte de subsistência. Além disso, foram as nossas ancestrais que lutavam nos territórios pesqueiros pelo reconhecimento da profissão e pela participação nas tomadas de decisão nas organizações da pesca e movimentos sociais.
Na pesca, as mulheres sempre estiveram presentes nesses espaços, utilizando suas técnicas ancestrais na coleta do pescado. Ainda que exista divisão de gênero nas atividades realizadas dentro dos territórios pesqueiros, são as mulheres que estão presentes nos espaços de terra firme, trabalhando nos reparos de apetrechos e beneficiamento do pescado, assim como trabalham nas pescarias nos lagos, rios e paranás [N.R.: neste caso, paranás são canais naturais que ligam um rio ao outro.]
As mulheres são, em muitas famílias, as responsáveis por passar de geração em geração os conhecimentos ancestrais, as técnicas e culturas nas comunidades pesqueiras. Desse modo, os paralelos e associações estão presentes no silenciamento de gênero e das ancestralidades femininas no território pesqueiro de Ipixuna - no caso, a resistência aos modelos patriarcais e hegemônicos, assim como a preservação de saberes tradicionais. Por fim, quando interseccionamos as problemáticas ambientais e gênero, são as mulheres as principais afetadas, principalmente as pobres, negras e indígenas.
As mulheres são, em muitas famílias, as responsáveis por passar de geração em geração os conhecimentos ancestrais, as técnicas e culturas nas comunidades pesqueiras. Desse modo, os paralelos e associações estão presentes no silenciamento de gênero e das ancestralidades femininas no território pesqueiro de Ipixuna - no caso, a resistência aos modelos patriarcais e hegemônicos, assim como a preservação de saberes tradicionais. Por fim, quando interseccionamos as problemáticas ambientais e gênero, são as mulheres as principais afetadas, principalmente as pobres, negras e indígenas.
Em sua opinião, como epistemes que fujam de visão de mundo eurocêntrica indicam possibilidades e horizontes mais efetivos e perenes para desenvolver estratégias de preservação socioambiental?
As epistemes que fujam de visão de mundo eurocêntrica e patriarcal trazem possibilidades de pensar uma sociedade que vise a sustentabilidade muito mais do que um discurso, mas que seja empregada de fato. Que as populações tradicionais e originárias, com seus saberes, nos ensinem a utilizar recursos naturais para além do “desenvolvimento” e do modo de produção capitalista. Idem para pensarmos nas futuras gerações e não no acúmulo de capital.
Assim, acredito que as epistemes que fujam de visão de mundo eurocêntrica indicam que as possibilidades e horizontes são encontradas com nossos ancestrais, que sempre respeitaram e desenvolveram estratégias de preservação socioambiental de modo efetivo e perene.
Ao pensarmos também na COP 30 e no debate sobre preservação socioambiental e ancestralidade, como o desenvolvimento de modelos socioeconômicos que fujam de perspectiva patriarcal é estratégico para apresentar novos caminhos e paradigmas para a conservação ambiental?
A COP 30 é um evento reconhecido mundialmente e traz visibilidade para as discussões que estão sendo levantadas. Acredito, que por meio desse evento, as nações sejam cobradas efetivamente sobre a preservação ambiental. Isem quanto ao combate às queimadas, ao garimpo ilegal, ao desmatamento e para realizar ações mitigadoras das mudanças climáticas.
Isso explica-se pelo fato de que os eventos extremos e mudanças climáticas estão acontecendo. E as populações tradicionais, originárias e nós estamos sendo afetados com a poluição do ar, dos rios, do mar, secas ou cheias extremas e inundações.
Por isso, os modelos sustentáveis ancestrais, como a bioeconomia, a agroecologia e extrativismo, podem ser caminhos para a conservação ambiental, o fortalecimento da ancestralidade e o rompimento com o patriarcado.
Assim, os modelos de desenvolvimento socioeconômico que pensem além da perspectiva patriarcal podem ser uma saída para encontrar novos caminhos pensando na conservação ambiental, sendo que citei algumas alternativas mais existem muitas outras que podem colaborar com o meio ambiente e sua conservação.