Decidir quais tecnologias queremos no futuro envolve entender como elas impactam distintos grupos no presente e no passado l Entrevista com Tarcízio Silva

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A luta pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária tem de ser realizada em todos os segmentos da sociedade. Além de contemplar espaços de poder e de decisão, a promoção de perspectivas decoloniais e voltadas à equidade para grupos minoriz...

Decidir quais tecnologias queremos no futuro envolve entender como elas impactam distintos grupos no presente e no passado l Entrevista com Tarcízio Silva
Foto: Arquivo pessoal

A luta pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária tem de ser realizada em todos os segmentos da sociedade. Além de contemplar espaços de poder e de decisão, a promoção de perspectivas decoloniais e voltadas à equidade para grupos minorizados deve acontecer também nas esferas científica e tecnológica.

Esse aspecto tem relação intrínseca com o trabalho desenvolvido por Tarcízio Silva, Tech + Society Fellow pela Fundação Mozilla, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutorando em Ciências Humanas e Sociais na Universidade Federal do ABC (UFABC).

Em entrevista à Plataforma Ancestralidades, Tarcízio, que é também autor do livro Racismo Algorítmico: mídia, inteligência artificial e discriminação nas redes digitais, fala sobre como as múltiplas dimensões por meio das quais o racismo é reproduzido e retroalimentado na esfera tecnológica, assim como grupos de extrema-direita têm se valido de tais vieses discriminatórios e sobre a urgência em romper com a lógica eurocêntrica adotada nesse segmento.

Além disso, ele aborda como a participação de profissionais de grupos minorizados no desenvolvimento de recursos tecnológicos pode ser um caminho importante - mas não o objetivo final - para romper, ao menos parcialmente, com essa lógica. Ainda, de acordo com Tarcízio Silva, a “grande tarefa do nosso tempo” consiste no deslocamento em âmbito global do poder e validação do conhecimento para resgate de conhecimentos que sempre estiveram disponíveis - mesmo sendo minorizados e excluídos de instituições hegemônicas.

Leia a seguir o bate-papo.

 

Uma das dimensões disseminadas por meio do senso comum é de que a produção científica está correlacionada à perspectiva eurocêntrica. De qual maneira você considera que o Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 - Ciências e Tecnologias em Perspectiva com os Saberes Afro-Brasileiros pode representar um contraponto a essa lógica?

O racismo epistêmico é uma constante ferramenta do colonialismo e da supremacia branca e se transformou ao longo dos séculos. Se hoje a maioria das instituições científicas rejeita grande parte das teorias que construíram a própria ideia biologizante de raça humana, por outro lado, a negação dos impactos políticos, econômicos e sociais do racismo, enquanto estrutura de poder e exploração, ainda vigora.

No Brasil, a luta do Movimento Negro pela educação justa em todas as esferas, como as ações afirmativas no ensino superior e na pós-graduação, tem promovido mais diversidades de temas, metodologias, métodos e objetos de estudo de pessoas negras na pesquisa. Iniciativas como o Ancestralidades e o edital em específico são muito importantes, pois a luta por um país melhor – com justiça racial – significa engajamento multissetorial nos objetivos de desenvolvimento.

Apoiar e premiar pessoas que trazem novos olhares e lentes para temas tão variados quanto plataformização, racismo algorítmico, ecologia, revitalização urbana e tecnologias afro-brasileiras permitem não só mitigar os danos de conhecimentos alijados dos nossos problemas e potencialidades, como também trazem fôlego e inovação sobre questões perenemente relevantes.



O Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2022 - Ciências e Tecnologias em Perspectiva com os Saberes Afro-Brasileiros tem como um dos pontos emblemáticos a aplicação dos saberes científicos e tecnológicos à contemporaneidade. Em termos práticos, como você considera possível integrar esses conhecimentos à produção prática na esfera tecnológica e científica?

Muitas das questões contemporâneas que dizem respeito ao próprio futuro da humanidade estão imersas na retroalimentação de vícios intelectuais e políticos sobre nossas capacidades de ser e estar no mundo. Quando incentivamos coletivamente saberes que desvelam que a evolução tecnocientífica não está dada – e muito menos é uma só –, podemos nos distanciar das premissas incorporadas na nossa produção sobre o mundo e sobre nós.

Decidir quais tecnologias queremos no futuro envolve entender como tais tecnologias, e as ordenações de mundo que cristalizam, impactam diferencialmente distintos grupos no presente e no passado. Só a partir daí conseguiremos pactuar compromissos efetivos sobre direitos, dignidade e bem-estar global.

O atual colapso climático é causado por uma evolução tecnológica absurdamente ineficiente em termos ecológicos, pois incorpora premissas de relações sociais vinculadas à concentração e desigualdade não só entre humanos, mas também entre estes e toda a natureza. Essa constatação, que tem sido combatida por grupos que vão de negacionistas a aceleracionistas, coloca em xeque a própria concepção eurocêntrica de civilização forjada para permitir as piores atrocidades contra os povos originários no Sul Global.

Hoje vemos, crescentemente, como os grupos violentados e desumanizados durante os genocídios coloniais já possuíam conhecimentos e modos de viver talvez mais apropriados para o futuro da própria humanidade. Deslocar globalmente poder e validação epistêmica para resgate de conhecimentos que sempre estiveram aí, ainda que minorizados e excluídos de instituições hegemônicas, é a grande tarefa de nosso tempo.



É possível dizer que a análise de vieses discriminatórios na construção de algoritmos e na pesquisa científica promova, entre outras coisas, a aproximação e o intercâmbio entre ciência e tecnologia com estudos antropológicos e sociológicos em âmbito racial? Por quais motivos?

Sim, o estudo do racismo algorítmico é necessariamente interdisciplinar. Tenho definido racismo algorítmico como a disposição de tecnologias e imaginários sociotécnicos em um mundo moldado pela supremacia branca realiza a ordenação algorítmica racializada de classificação social, recursos e violência em detrimento de grupos minorizados. Tal ordenação pode ser vista como uma camada adicional do racismo estrutural, que vai além e molda o futuro e horizontes de relações de poder adicionando mais opacidade sobre a exploração e opressão global.

Neste sentido, a interdisciplinaridade para compreendermos tecnologias e sociedades como instâncias inseparáveis permite encontrar caminhos para responder muitas coisas que geram os impactos racializados dos sistemas. Como tecnologias de reconhecimento facial, imprecisas e ineficientes, foram tão rapidamente implementadas em cidades brasileiras? Como as mídias sociais viralizam filtros de selfies que equiparam beleza à brancura nos rostos? Por que bairros periféricos são evitados por motoristas de aplicativos, também precarizados?

Nenhuma destas perguntas tem resposta simples ou tecnicista. Dispositivos, softwares e artefatos são idealizados, implementados, avaliados ou reapropriados sempre em seus contextos e isso significa que incluem camadas sobre relações sociais e de poder entre grupos, sobre ideologias políticas, modos de viver no espaço e outras variáveis que não podem ser resolvidas apenas por enunciação de compromissos éticos ou por auditoria computacional de vieses em modelos.
 


Manifestos como a Declaração de Independência do Ciberespaço ajudam, em nome de uma suposta neutralidade, a reforçar estruturas opressoras e excludentes quando se fala no desenvolvimento de algoritmos. Como o ingresso de programadoras/es e pesquisadoras/es negras/os e de demais grupos minorizados pode ajudar a reverter essa lógica e mostrar que o suposto distanciamento reforça estruturas discriminatórias na esfera online?

Ideologias ou linhas teóricas que viram a internet, a web ou o ciberespaço como ambientes apartados da sociedade “real” prejudicaram o próprio desenvolvimento intelectual hegemônico sobre as relações mediadas por tecnologias digitais. A crença, na década de 1990, que estava sendo criada uma utopia digital só se sustentava por concepções muito curtas e limitadas de mundo. As violências, ausências e invisibilidades já se faziam presentes na internet muito antes dos atuais horrores da plataformização.

Enquanto parte da intelectualidade hegemônica de esquerda acreditava que a internet poderia criar janelas de conexão com os outros que apagariam características identitárias – como se tais características devessem ser apagadas em prol de uma neutralidade da branquitude -, grupos extremistas, como neonazistas, já se organizavam estrategicamente online.

Duas décadas depois no novo século estamos tentando recobrar alguns dos pilares institucionais e democráticos ameaçados por projetos políticos divisionistas. O extremismo e o negacionismo que se vulgarizaram ainda mais nas plataformas digitais estão ligados ao fato de não termos enfrentado de forma pungente as ligações entre o aumento da desigualdade e da supremacia branca. A inclusão de mais programadora/es negras/os em empresas de tecnologia digital não é suficiente sem políticas redistributivas e regulatórias radicais e limitação da concentração de poder político ou financeiro.
 

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