Demonstrar os vínculos das culturas negras e periféricas com identidades e memórias territoriais - Entrevista com Giselly Barros Rodrigues

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Buscar a decolonialidade como práxis para descrever narrativas a partir de identidade, memória e história da comunidade. Este é um dos objetivos centrais do ‘Tenegres - Territórios negros e as escolas: descobrindo o lado norte de São Paulo’. A pesquisa...

Demonstrar os vínculos das culturas negras e periféricas com identidades e memórias territoriais - Entrevista com Giselly Barros Rodrigues
Acervo Ancestralidades

Buscar a decolonialidade como práxis para descrever narrativas a partir de identidade, memória e história da comunidade. Este é um dos objetivos centrais do ‘Tenegres - Territórios negros e as escolas: descobrindo o lado norte de São Paulo’.

A pesquisa, que foi desenvolvida por Giselly Barros Rodrigues, docente do curso de Arquitetura e Urbanismo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFSP), foi um dos projetos selecionados na segunda edição do Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa 2024 na categoria de Pesquisas e estudos concluídos.

O estudo, que foi conduzido na Escola Estadual Jornalista Ruy Mesquita, situada no distrito da Brasilândia, na zona norte de São Paulo, teve como foco ressignificar a relação que estudantes e a população do bairro têm com os espaços que o compõem - idem com a sua história.

Para tanto, noções sobre território, construção da memória, história da população negra no Brasil e escolhas governamentais que retroalimentam disparidades tiveram papéis centrais no desenvolvimento da pesquisa.

Para falar mais detalhes sobre o ‘Tenegres’, Giselly Barros Rodrigues falou sobre o desenvolvimento do trabalho de campo e a relação com as e os estudantes. O diálogo passou também por aspectos como gentrificação, resgate de história sistematicamente invisibilizada e empoderamento da juventude do território.

Confira a seguir a entrevista.


 

O projeto ‘Tenegres’ busca a decolonialidade como práxis para criar novas narrativas por meio da memória e da identidade da comunidade. Como, com base no desenvolvimento da pesquisa, as e os estudantes que participaram do projeto mudaram a relação e o modo como veem a Brasilândia?

Todas e todos os estudantes que se envolveram no projeto em 2023 são pessoas negras e periféricas e vivem suas próprias realidades nos seus territórios - mas nenhuma é do território da Brasilândia, nem o conhecia pessoalmente. Após o primeiro impacto dentro de uma comunidade que não conheciam, foram entendendo o território a partir das pesquisas e das atividades realizadas, conectando-se com ele e a comunidade local.

Nesse sentido, o modo como viam a Brasilândia foi sendo modificado, pois perceberam os laços comunitários e a ancestralidade negra presente, para além dos problemas urbanos e sociais, da falta de políticas públicas adequadas e do estigma racista e classista criado sobre a região.


Um aspecto que se destaca na pesquisa, que diz respeito à parte arquitetônica, mostra como a organização urbanística do bairro - e das periferias de modo geral - é reflexo de processo histórico e de gentrificação. Como o ‘Tenegres’ visa ressignificar essa lógica no imaginário da comunidade, em particular de estudantes, e promover a busca por protagonismo sociopolítico e racial?

O planejamento urbano das cidades brasileiras em geral é racista, embasado nas teorias de “melhoramentos urbanos”, focado no “embelezamento da cidade” ou, ainda, ancorado em decisões “sanitárias”. Pessoas pobres e negras, assim como organizações, foram e ainda são expulsas de seus territórios, como ocorre com a escola de samba Vai-Vai, no Bixiga, em São Paulo.

Quando isso ocorre, o protagonismo sociopolítico e racial deve vir da organização da comunidade para requerer o seu espaço, resistindo e lutando coletivamente, como ocorre no Bixiga a partir do coletivo Saracura Vai-Vai.

Nos casos em que a gentrificação e a expulsão da comunidade negra ocorrearam há tempos, os territórios negros e periféricos já estão consolidados. Por isso, buscamos empoderar estudantes no projeto ‘Tenegres’, demonstrando os vínculos das culturas negras e periféricas às identidades e memórias da comunidade associadas ao território onde vivem. Como pertencentes a este território, estudantes foram motivadas e motivados a olhá-lo, refletindo e propondo melhorias urbanas e arquitetônicas com foco nas memórias que foram apagadas, uma formação sociopolítica e racial.


Dentro da busca por resgate da memória, de qual modo iniciativas como a produção da árvore genealógica conecta o resgate familiar, a busca pela história do território e a valorização da ancestralidade afro-brasileira? E como os desenhos feitos pelo grupo são didáticos para demonstrar a relação que as e os estudantes têm com o bairro?

A atividade denominada “Árvore genealógica do território” nasceu da ideia de pensar o território como o chão onde todas as coisas acontecem, onde a vida acontece e onde as trocas materiais e espirituais ocorrem, como Milton Santos diz. Além disso, a atividade propõe que estudantes conversem e escutem as pessoas mais velhas sobre seus antepassados e os vínculos com os territórios onde viveram.

A partir da oralidade, prática comum nas comunidades africanas e afro-brasileiras, convidamos as e os estudantes a ouvir sobre as histórias das suas famílias que se conectam com as histórias do território da Brasilândia. Logo, elas e eles sentem-se pertencentes à região, parte da sua história e são motivados a pensar no futuro da Brasilândia, já que são parte deste território.

Foram grandes surpresas o desenvolvimento e os resultados da atividade. Como eu e a maioria dos estudantes do ‘Tenegres’ somos da arquitetura, utilizamos os desenhos para os estudantes poderem utilizar a criatividade para ilustrar suas árvores genealógicas do território após conversarem com seus familiares.

Além da beleza de inúmeros desenhos, muitos acompanhavam a história de vida de familiares e a profissão. Ademais, muitos estudantes e professores que também desenvolveram a árvore nos narraram que desenvolvê-la fez com que se conectassem com a família e descobrissem sobre suas histórias.


Dentro da chave do direito à memória, é possível traçar paralelos com o resgate histórico de pessoas negras no bairro da Liberdade?

Sim, o apagamento da memória negra e o direito à memória são temas presentes em inúmeros espaços urbanos brasileiros devido ao racismo estrutural, ao planejamento urbano racista e ao colonialismo. 

Nesse sentido, a luta pelo direito às memórias negras e indígenas se repete no bairro da Liberdade, seja pela preservação e restauro da Capela dos Aflitos para a retirada das lanternas do Beco dos Aflitos e para construção de um memorial ao negro e indígena que era parte do Cemitério dos Aflitos - foram encontradas naquele local ossadas humanas. 

Outro exemplo atual é a luta pelo direito à memória no Bixiga. O poder público retirou a Escola de Samba Vai-Vai do território do Bixiga para a construção da Linha 6-Laranja do Metrô.

Mesmo encontrando um acervo arqueológico que remete aos resquícios do Quilombo Saracura que existiu na região, os tensionamentos do poder público e da concessionária das obras vão no sentido de continuar apagando a memória negra local, em pleno 2025. Mas grupos opõem-se às decisões continuamente e lutam coletivamente para as memórias negras serem preservadas a partir da materialidade encontrada e pela volta da Vai-Vai ao seu território de origem.

"O apagamento da memória negra e o direito à memória são temas presentes em inúmeros espaços urbanos brasileiros devido ao racismo estrutural, ao planejamento urbano racista e ao colonialismo."

Dentro do resgate da memória, de qual modo iniciativas como o tombamento do Terreiro de Candomblé Santa Bárbara pelo Condephaat foram didáticas para destacar a valorização da história e da identidade afro-brasileira da Brasilândia?

O Terreiro de Santa Bárbara foi o primeiro terreiro de candomblé registrado na cidade de São Paulo e seu tombamento foi uma das primeiras descobertas da pesquisa. O tombamento é didático, pois temos evidenciado no campo da arquitetura e urbanismo que, para valorizar memórias e identidades negras, é necessário haver materialidade espacial ou preservação da materialidade existente.

Nesse sentido, o tombamento material visa preservar o que está edificado, valoriza o edifício e proíbe que seja demolido ou modificado, externa ou internamente, a depender dos níveis de tombamento.

Ainda assim, cabe ressaltar a importância do tombamento imaterial de práticas ligadas às culturas negras e indígenas, remontando a ancestralidade por meio da cultura, espiritualidade, gastronomia, técnicas de cultivo etc.


Como o senso de pertencimento e de valorização da própria história, inerentes ao tripé de ensino, pesquisa e extensão do ‘Tenegres’, se conecta com o despertar sociopolítico e racial dos alunos e com os pontos centrais do conceito de direito à cidade?

A pesquisa realizada ao longo do desenvolvimento do projeto ‘Tenegres’ buscou, a partir das bases oficiais, orais - por meio da escuta da comunidade - e visitas de campo entender, contextualizar e evidenciar narrativas contra-hegemônicas sobre a Brasilândia. 

Tais discussões foram levadas para as salas de aulas na Escola Jornalista Ruy Mesquita com os estudantes do ensino fundamental II no projeto de extensão ‘Tenegres’, por meio de palestras e atividades. Idem para as salas de aulas no ensino da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Instituto Federal de São Paulo por meio dos estudantes que integram o projeto e das disciplinas que eu, professora do curso, ministro.

Em todos estes espaços e dentro do tripé ensino, pesquisa e extensão, as discussões de direito à cidade foram consolidadas, despertando o senso sociopolítico e racial sobre o papel dos cidadãos na luta por uma cidade para todas as pessoas, com equidade de raça, gênero, classe e sexualidade. Logo, evidenciamos a importância do papel de cada um em pensar e lutar pela cidade que queremos.


De qual modo projetos como o ‘Tenegres’ apontam caminhos para a aplicação e efetividade da Lei 10.639/03 na rede de ensino, em especial quando se fala da valorização da cultura e da produção de conhecimento da população negra?

A Lei 10.639/03 tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas de educação básica. Mas, mesmo após 22 anos da sua implementação, o cumprimento e aplicação ainda não são plenos. Ou melhor: em algumas instituições de ensino ainda é escasso.

O projeto ‘Tenegres’, a partir das suas práticas pedagógicas, como a atividade da árvore pedagógica do território, realização de percursos - aula passeio - por territórios da região e intervenção urbana realizada a partir de desenhos para melhorias do bairro evocando a memória negra, podem ser exemplos de atividades para aplicação nas redes de ensino sem a necessidade de recursos materiais e humanos extras.

Ao possibilitar a inclusão da temática negra nas instituições de ensino em atendimento à Lei 10.639/03, além de trabalhar a história do território local, [a iniciativa visa] fortalecer os vínculos dos estudantes a partir de suas identidades com seus territórios, empoderar os estudantes negros, evidenciar as culturas e memórias negras e periféricas e evocar a ancestralidade negra.

Ao longo do desenvolvimento do projeto ‘Tenegres’ e os resultados alcançados, acreditamos ainda mais na necessidade de Sankofa para recorrermos ao passado para seguir em frente. Nesse sentido, certamente, “o futuro é ancestral”.

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