O compromisso de ser e agir por meio da criatividade, em especial por meio da arte em sentido lato, foi um dos elementos centrais da mesa Kuumba: escrevivência, escrita dramatúrgica e o fazer artístico, que compôs a programação do segundo dia do Festival Kwanzaa-Escrevivência.
A roda de conversa, que contou com mediação de Jé Oliveira, é ator, diretor, dramaturgo, cientista social, fundador do grupo Coletivo Negro e diretor convidado na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD-US), teve a seguinte composição:
- Alessandra Augusta Lima dos Santos, atriz, produtora cultural e pesquisadora de temas como teatro negro, feminismo, ancestralidade e dramaturgia autoral;
- Beatriz Nauali do Nascimento Alves, atriz, dramaturga, produtora cultural, pesquisadora em artes cênicas e fundadora e membro do Pra Quê? Grupo de Teatro;
- Kétila Araújo, mestra em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Acre (Ufac), artista plástica no Flor Preta Ateliê e integrante cofundadora do Coletivo Tempo de Teatro.
Realizar e encenar para superar a dor
Alessandra Augusta Lima dos Santos abordou, durante a mesa, falou sobre sua pesquisa, cujo foco está na valorização de mulheres negras. Um dos pontos de partida foi a sua própria trajetória como atriz - especificamente sobre por que sempre lhe cabia interpretar personagens em situação de vulnerabilidade social e em postos de subalternidade.
Esse fato, que resultava na retroalimentação de estereótipos, a motivou a escrever a obra dramatúrgica Pele Negra, Lousa Branca, inspirada nas histórias de sua mãe e avó, mulheres negras que viveram submetidas à violência em âmbitos trabalhista e doméstico. “Escrevo essa dramaturgia com essa finalidade, mas com o objetivo maior de pensar uma história de felicidade, lazer e conforto para as minhas ancestrais - o que não foi possível para elas viverem em vida”, pondera.
Um ponto central para a pesquisadora consiste em considerar aspectos inerentes à realidade em que ela e suas ancestrais estiveram, mas sem abordá-la de modo acrítico. “Entendo a dor e o sofrimento, passada pela ancestralidade, como uma forma de potência, uma mola, na qual piso e me alavanco. Entendo que eu talvez seja uma realização da minha mãe: sou a única filha de uma família de sete crianças, que chegou ao ensino superior.”
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“Entendo a dor e o sofrimento, passada pela ancestralidade, como uma forma de potência, uma mola, na qual piso e me alavanco. Entendo que eu talvez seja uma realização da minha mãe.”
Do corpo-documento à dramaturgia
Beatriz Nauali, por sua vez, falou sobre sua pesquisa, na qual, a partir dos conceitos de Conceição Evaristo - escrevivência -, Beatriz Nascimento - corpo-documento - e Audre Lorde, a partir dos usos da raiva. Por meio da pesquisa, ela se propôs a analisar como o corpo-documento se transcria em corpo-dramaturgia.
Esse foi o ponto de partida para pesquisar também obras da atriz e cineasta Grace Passô e da atriz, pesquisadora, produtora cultural e poeta Roberta Estrela D’Alva. Ao considerar o marcador racial para além de dado dramatúrgico, a articulação de sua pesquisa com as teorias de Audre Lorde, em especial sobre os usos da raiva.
“Ela fala que a raiva precisa ser reconhecida como uma parte da mulher [negra], para ela conseguir sobreviver. Audre Lorde dirá que elas têm convivido com a raiva há muito tempo, criando uma sinfonia da raiva, pois essas mulheres, durante toda a vida, aprendem a construir estratégias harmônicas para essa raiva não matá-las”, pondera. “O que interessa é entender a orquestração sinfônica da raiva como analogia para um processo litúrgico.”
Valorizar infâncias negras
Kétila Araújo desenvolve o seu trabalho com foco na formação racial em crianças. O ponto de partida para a sua atuação profissional - e para o desenvolvimento de sua pesquisa de memória - teve como fio condutor a sua própria infância, a começar pelo fato de ela ter sido uma criança e adolescente negra que foi condicionada a não se reconhecer como tal. O processo de autodescoberta veio à tona somente aos 21 anos, quando uma amiga lhe falou que achava que ela era negra. “Eu, muito cismada, me perguntei sobre isso por um tempo e como isso me afetava. Isso causou - e causa até hoje - muitas inquietações”, relata.
A partir de seu processo de autodescoberta racial, Kétila passou a atuar por meio da contação de histórias, com foco em atendimentos para crianças de escolas privadas - na maioria brancas - e públicas - majoritariamente negras - em Rio Branco (AC). E esse ponto a fez perceber diferenças comportamentais entre ambos os grupos. “As brancas, mesmo não conhecendo o espaço, sentiam-se à vontade para expor seus sentimentos para ocupá-lo - havia sensação de pertencimento, mesmo se o espaço fosse desconhecido. No caso de crianças negras, em contrapartida, os olhares eram de curiosidade e desconfiança. Idem na expressão corporal: comecei a olhar para isso e pensar em infâncias negras a partir daí."
Em âmbito acadêmico, isso a motivou a focar a pesquisa para ser um contraponto da negação da negritude na infância - “pensei que se nos ensinam a nos odiarmos, quero ensinar essas crianças a se amarem”, destaca. Já no dia a dia com crianças, o trabalho com a educação racial é realizado por meio de processos artísticos, os quais ela chama de encantações - ou seja, união de “encontro” com ação” -, em que a relação com o tempo tem espaço central.
“Quando uma criança vai brincar, ela não tem hora marcada para começar ou acabar. A noção temporal que trago para as encantações é de que se trata de suspensões no tempo cotidiano e podem ser entendidas também como encontros preenchidos por contações de histórias, as quais trazem narrativas negras para o centro e brincadeiras e músicas de origem africana”, finaliza.