Milton Santos, 100 anos: quais ensinamentos e legado o intelectual nos deixa para a construção de novos horizontes sociopolíticos?

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Milton Santos teve papel fundamental para mudarmos o modo como estudamos e compreendemos a geografia. Mais do que isso: sua obra é um farol para a construção de novos horizontes políticos que tenham território, equidade e fortalecimento do tecido democ...

Milton Santos, 100 anos: quais ensinamentos e legado o intelectual nos deixa para a construção de novos horizontes sociopolíticos?
Marcelo Escobar

Milton Santos teve papel fundamental para mudarmos o modo como estudamos e compreendemos a geografia. Mais do que isso: sua obra é um farol para a construção de novos horizontes políticos que tenham território, equidade e fortalecimento do tecido democrático como horizontes.

O intelectual, cujo centenário de nascimento será em 3 de maio, é uma referência máxima na área de geografia humana e nos estudos sobre globalização. Nesse contexto, é importante destacar que, por meio dos seus estudos, Milton Santos recebeu, em 1994, o Prêmio Vautrin Lud - considerado o Nobel da Geografia.

Desse modo, a sua própria trajetória acadêmica e a sua visão sobre a geografia, sofreram impactos profundos de episódios como o exílio poucos meses após o golpe civil-militar de 1964 - o que o fez retornar ao Brasil apenas em 1977 - e os territórios pelos quais passou.

Por um lado, ele passou por países como França - onde lecionou em Paris (Sorbonne), Bordeaux e Toulouse - e EUA, como pesquisador convidado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e professor na Universidade de Columbia. Por outro, ele atuou também em países como Peru, Tanzânia e Venezuela. E o período em que esteve a trabalho nesses mesmos países foi justamente aquele em que começou a pesquisar sobre o processo de urbanização de cidades do que se convencionou chamar à época de “Terceiro Mundo”.

“Considero esse um grande diferencial da obra do Milton Santos, pois, lógico, ele tem a experiência ao mesmo tempo de se falar da questão do Norte Global, da sociedade norte-atlântica sobre a qual podemos pensar. Mas a experiência que ele tem ao viver as condições do Sul Global e diferentes experiências em diferentes lugares, seja na América ou na África, é muito importante para o pensamento que ele desenvolveu”, explica Tadeu Batista Alves, doutorando pelo programa de Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades pelo Diversitas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

O pesquisador, cuja dissertação de mestrado teve como tema “Milton Santos: Narrativas em Construção Sobre o Negro no Brasil ao Final do Século XX”, destaca como esse processo funcionou como ignição para o intelectual pensar, nas décadas seguintes, sobre o processo de globalização - idem desigualdades estruturais nessa dinamica.

“Ele identifica que o processo de globalização, no primeiro momento, é vendido como algo ótimo. Então, a nossa capacidade de ter contato com diferentes culturas, de poder, por exemplo, de poder circular pelos EUA à vontade ou ir à Europa vivenciar diferentes experiências políticas culturais, que ele chama de fábula, pensa o mundo realmente numa aldeia global”, pondera o pesquisador.
 

Contradições da globalização e o lugar como centro

Um problema identificado por Milton Santos quando se fala em globalização é a imposição de modalidade de pensamento único pautada por países do Norte Global - e que devem ser, então, assimilados pelo o que se entende por Sul Global. “Trata-se do que vivemos hoje, do globalitarismo e da ideia de um pensamento único imposto pelas métricas de mercado e econômicas que definirão quase todos os rumos da vida.”

Desse modo, a imposição de uma determinada perspectiva, que, por meio da atuação de grandes empresas e instituições de abrangência global, ganha também dimensão econômica, reforça a existência e o impacto das desigualdades nessas mesmas dimensões. Assim, o intelectual apresenta, na obra “Por uma Outra Globalização - Do pensamento único à consciência universal”, o papel que território e lugar exercem nesse contexto. A saber, o território compreende a relação qualitativa tramada sobre e com um espaço singular, enquanto o lugar é o espaço onde pessoas organizam as suas experiências de vida.

Recorre-se, dessa maneira, à explicação do próprio autor nessa mesma obra (p. 56) para contextualização:


(...) Junto à busca da sobrevivência, vemos produzir-se, na base da sociedade, um pragmatismo mesclado com a emoção, a partir dos lugares e das pessoas juntos. Esse é, também, um modo de insurreição em relação à globalização, com a descoberta de que, a despeito de sermos o que somos, podemos também desejar ser outra coisa. Nisso o papel do lugar é determinante. Ele não é apenas um quadro de vida, mas um espaço vivido, isto é, de experiência sempre renovada, o que permite, ao mesmo tempo, a reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro. A existência naquele espaço exerce um papel revelador sobre o mundo.


Ao dialogar com essa percepção, Tadeu Batista Alves coloca em pauta que os conceitos de lugar e de território podem ter papel central quando se fala na criação de novas formas de sociabilidade e de se estruturar a vida.

“Talvez por isso, o pensamento único da imposição de uma lógica econômica, de métricas econômicas neoliberais, talvez [por esse motivo venha à tona] o ataque a essas questões do cotidiano, da cultura local e da presença do corpo nesses espaços de lazer e de sociabilidade. Para mim, ele fala muito disso também: é desse ponto que poderá surgir uma outra globalização de um outro mundo possível.” (Tadeu Batista Alves)

Cidadania quebrada: causas, consequências e reflexos

Quando se fala na dimensão racial dentro do trabalho de Milton Santos, um conceito que logo vem à tona é o de cidadania mutilada. Ou seja, o seu acesso pleno a direitos, à livre circulação e o ingresso em espaços decisórios e de produção intelectual é parcial ou totalmente interrompido em virtude de estereótipos criados sobre pessoas negras.

Logo, a pessoa negra não tem, dentro da abordagem proposta por Milton Santos, acesso pleno à cidadania universal, dentro da qual todas as pessoas têm, independentemente de marcadores variados - étnico-raciais, regionais, de gênero, entre outros - acesso pleno e igual a direitos e oportunidades, por exemplo. “Considero muito interessante como ele [Milton Santos] desenvolve a questão da cidadania pela perspectiva da espacialidade e da questão da circulação - se esse corpo consegue circular de fato”, comenta Tadeu.

Ainda quando se fala no conceito de cidadania mutilada e na urgência para a garantia de acesso em âmbito universal, vem à tona a percepção segundo a qual a cidadania é vista como um mecanismo de manutenção de privilégios em vez da garantia de direitos. Assim, segundo o doutorando pelo programa de Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades pelo Diversitas da FFLCH-USP, pode-se considerar que houve conquistas concretas quanto à presença da população negra e de demais grupos minorizados em espaços de poder e de decisão.

Todavia, entra-se também, nesse panorama, no debate sobre a erosão desses mesmos direitos e conquistas, ao tornar mais difícil o acesso ao que havia sido conquistado. Assim, vende-se como solução, por meio da lógica de cidadania mediada, a busca por direitos por meio da lógica mercadológica e neoliberal.

“Como esse cidadão é muito integrado pela questão do comércio e do consumo, não se cria ao mesmo tempo um pertencimento - ou seja, a construção de um legado duradouro. Então, é muito mais fácil estar exposto a demandas econômicas de um pensamento único, sobre o qual Milton Santos falou tanto - ao meu ver, hoje vivemos um pouco disso”, reforça Tadeu.
 

Legado e construção de horizontes

“Milton Santos é um pesquisador que está muito à frente do seu tempo.” Essa afirmação de Tadeu Batista Alves tem razão de ser. Afinal, os estudos e a obra do intelectual mantêm conexão perene com os estudos sobre geografia e organização social.

Além disso, ele já falava sobre debates atuais, como a pauta sobre permanência na universidade pública. Um exemplo é a entrevista que ele concedeu para a Folha de S.Paulo em 1995, na qual falou sobre esse tópico referente à realidade da USP, instituição da qual foi professor até se aposentar.

Um aspecto inescapável de seu legado passa pelo debate sobre a presença de docentes negras e negros na universidade pública - para se ter uma ideia, há apenas 4% de professoras e professores que se autodeclaram como pessoas pretas ou pardas na própria USP. “Trata-se de um grande pesquisador circulando pelos corredores da universidade - é um corpo negro. Então, isso, por mais que ele evitasse falar disso, esse é um legado. Isso porque são corpos negros circulando em espaços onde têm dificuldade de adentrar até hoje, como no caso na universidade”, descreve Tadeu.

Assim, os legados possíveis para se pensar na obra e trajetória de Milton Santos passam pelos debates sobre cidadania e representatividade. Mas há outra dimensão que também entra no jogo: o da possibilidade. “O último legado é o da possibilidade sobre como podemos identificar as formas de luta e de pensar a solidariedade e o espaço vivido dos lugares. Idem como isso pode reduzir, inclusive, a pressão de um pensamento único”, comenta Batista Alves, para quem, enfim, os reflexos da obra do intelectual são perenes.

“Entendo que aqui está também um ponto para pensarmos: um legado para daqui em diante é Milton Santos ser incorporado mais como um pensador brasileiro e ter um um lugar mais de destaque como um pensador de certo modo tão denso e tão forte.”

Por fim, colocamos a reflexão sobre novos horizontes sociopolíticos, culturais e humanitários a partir do que o próprio Milton Santos escreveu em “Por uma Outra Globalização - Do pensamento único à consciência universal” (p. 84):


O próprio mundo se instala nos lugares, sobretudo as grandes cidades, pela presença maciça de uma humanidade misturada, vinda de todos os quadrantes e trazendo consigo interpretações variadas e múltiplas, que ao mesmo se chocam e colaboram na produção renovada do entendimento e da crítica da existência. Assim, o cotidiano de cada um se enriquece, pela experiência própria e pela do vizinho, tanto pelas realizações atuais como pelas perspectivas de futuro. As dialéticas da vida nos lugares, agora mais enriquecidas, são paralelamente o caldo de cultura necessário à proposição e ao exercício de uma nova política. 

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