Falar sobre o cinema nacional sem destacar o brilho e a importância que artistas negras/os têm para ele equivale a apagar páginas fundamentais dessa história. Como consequência, fazer isso equivale a assistir a um filme desconexo, sem sentido e que vai do nada a lugar nenhum.
Reflexões como essas são urgentes todos os dias, em particular no Dia do Cinema Nacional, data celebrada em 19 de junho. Em que pese haver aumento da diversidade, da pluralidade e presença racial no cinema brasileiro, mesmo com passos tímidos, a realidade mostra que estamos longe de qualquer cenário minimamente inclusivo.
De acordo com levantamento divulgado em 2018 pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), 8% das/os profissionais envolvidas/os em longas-metragens - na produção, direção e atuação - eram negras/os. Esse quadro torna-se ainda mais emblemático se analisarmos funções de liderança: 2,1% de roteiristas homens e diretores eram negros em ambos os cenários, ao passo que não havia mulheres negras em nenhum dos dois cargos.
Por isso, é fundamental exaltar trajetórias de figuras icônicas como Ruth de Souza, cuja premiada carreira é por si só digna de todas as reverências possíveis e merecia uma data à parte - e cuja vida é digna de um filme.
A mesma coisa vale para Adélia Sampaio, pioneira que carregou o (triste) símbolo de ser a única diretora negra a lançar um filme, Amor Maldito (1984), que retrata um romance homoafetivo e cuja premissa era visonária e muito à frente do período em que a película veio ao mundo.
Outra realizadora que merece menção honrosa pela sua obra contemporânea é Grace Passô. A atriz, dramaturga e diretora mineira coloca em seus projetos diversos aspectos relacionados à subjetividade humana de modo orgânico e sutil, como se o espectador estivesse assistindo a um determinado dia ou fase nas vidas das/os personagens.
Todavia, para além delas, é necessário falar também de Grande Otelo, Milton Gonçalves, Flávio Bauraqui, Antônio Pompêo, Zezé Motta, Antônio Pitanga, Zózimo Bulbul, João Acaiabe, Joel Zito Araújo, Leandro Firmino, Lázaro Ramos, Taís Araújo, Jeferson De, Seu Jorge, entre muitas/os personalidades que fizeram - e fazem - a sua parte para valorizar e engrandecer o cinema nacional.
Falar sobre artistas negras/os é também um ato para dar visibilidade e apoiar o ingresso de novos nomes, promover o surgimento de novas perspectivas e narrativas e, por fim, tornar o audiovisual brasileiro mais plural, rico e próximo à população.
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