Axé
Vocábulo de origem iorubá usado com significados diversos, mas relacionados. Em sua acepção filosófica, designa a força que permite a realização da Vida, que assegura a existência dinâmica, que possibilita os acontecimentos e as transformações.
Na ontologia iorubana, o axé de uma pessoa, acidente natural ou objeto pode acumular-se e crescer, geralmente através de processos rituais, ou enfraquecer-se e decrescer, gerando uma oscilação do ser entre estados de mais ou menos poder. Em resumo, trata-se da capacidade de realizar qualquer ação ou de atuar sobre qualquer coisa ou pessoa.
O uso do termo no Brasil pode remontar à fundação dos primeiros candomblés, na Bahia do final do século 18. Entre os iorubanos, o vocábulo, significando lei, comando, ordem, é empregado em contraposição a agbara, poder físico, de um indivíduo sobre outro, por meios legítimos ou ilegítimos. Assim, o poder espiritual é o mais importante, não se devendo, contudo, desprezar o poder físico; da mesma forma, não se deve entender o axé como algo apenas positivo, uma vez que o universo em que vivemos é também povoado de poderes malignos mobilizadores de forças capazes de afetar a vida humana. Esses elementos são, sobretudo, a morte física, a doença, as perdas e a desarmonia ou desordem, em todos os sentidos.[1]
O termo designa também a força emanada de cada orixá, os fundamentos doutrinários e litúrgicos de um templo ou terreiro etc. Por extensão, pode indicar o terreiro.
Uma das práticas fundantes do culto aos orixás é aquela que estabelece que o axé precisa ser constantemente alimentado e renovado para que se evite a sua dispersão, fato que configuraria a perda da vitalidade. O axé não é estático. Nesse sentido, a oferenda de alimentos para as divindades, por exemplo, é uma prática ligada à ideia de doação e restituição do axé. Ao preparar a comida votiva ou fazer o sacrifício para determinado orixá, o praticante oferta aquilo que lhe será restituído como axé renovado, potencializando a sua capacidade de realização em busca dos bons caminhos.
No batuque gaúcho, “axé” é a denominação do cântico ritual, revelando a ideia de que o som é um elemento transportador dessa força ou energia.
[1] LOPES, Nei. Kitábu: o livro do saber e do espírito negro-africanos. Rio de Janeiro: Ed. Senac Rio, 2005, p. 100-102