Calundu

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Termo utilizado na América portuguesa para designar qualquer prática religiosa de matriz africana, amiúde com fins de cura e adivinhação, podendo também se referir a batuques e danças envolvendo africanos e descendentes. Sua entrada no léxico do português brasileiro provavelmente se deu no século XVII, período em que já existem várias denúncias da Inquisição contra práticas de “feiticeiros” angolas e congos que poderiam ser classificadas como calundus [1]. Seu emprego parece ter se generalizado em Minas Gerais, na primeira metade do século XVIII, coincidindo com a expansão da economia mineradora [2].

Origina-se na língua quimbundo, na palavra kilundu, significando “ancestral, espírito de pessoa que viveu em época remota”. Como sugere Yeda Pessoa de Castro, pode também derivar do quimbundo kalundu, “obedecer a um mandamento, realizar um culto, invocar espíritos com música e dança”. Estaria ainda relacionado ao termo quicongo kilunda e ao quimbundo kialundu, “o que recebe o espírito” [3]. 

Os calundus na Bahia foram assim definidos por Nuno Marques Pereira no célebre Compêndio narrativo do peregrino da América, de 1728: “São uns folguedos ou adivinhações (...) que dizem estes pretos que costumam fazer nas suas terras, e quando se acham juntos, também usam deles cá, para saberem várias cousas; como as doenças de que procedem; e por adivinharem algumas cousas perdidas; e também para terem ventura em suas caçadas e lavouras; entre outras cousas” [4]. 

Um dos casos mais famosos é o da “calunduzeira” Luiza Pinta, natural de Angola, forra, moradora em Sabará (MG), presa em 1739 por “curandeira e adivinhadeira”. “Vestida à moda de anjo” e “segurando um espadim na mão”, ao som de pequenos tambores e dançando, “os ventos de adivinhar lhe entravam pelos ouvidos”. Uma vez incorporada pelos espíritos ou “calundus”, passava a interagir com as pessoas que vinham à procura dos seus serviços terapêuticos e oraculares [5]. 

A designação “calundu”, aplicada indistintamente aos cultos de origem africana, independente de forma ou procedência, vigorou até o início do século XIX, quando ocorreu o primeiro registro escrito do termo “candomblé”. Hoje a expressão “estar de calundu” é utilizada para indicar o mau humor ou zanga de uma pessoa, evocando o “aspecto carrancudo do rosto e comportamento dos possuídos em transe pela divindade” [6].

[1] MOTT, Luiz. "Feiticeiros de Angola na inquisição portuguesa", MNEME – Revista de Humanidade, vol. 11, n. 29, 2011, p. 1.

[2] SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo, Companhia das Letras, 1986, 236-239.

[3] CASTRO, Yeda Pessoa de. Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro. Rio de Janeiro, Topbooks, 2001.

[4] PEREIRA, Nuno Marques. Compendio narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Officina de Manoel Fernandes da Costa, 1728, p. 115-116. 

[5] MOTT, Luiz. Op. cit., p. 10-14. 

[6] CASTRO, Yeda Pessoa de. Op. cit., p. 192.


 

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