Axexê
Conjunto de rituais funerários secretos, restritos a iniciados da tradição dos orixás, celebrados por ocasião do falecimento de pessoas importantes da comunidade religiosa. Quando em honra, por exemplo, de uma ialorixá ou de um babalorixá, costumam estender-se por várias noites, sobretudo nove, número ritual de Êgum. O termo deriva do iorubá àjèjè, cerimônia ritual celebrada por ocasião da morte de um caçador.
O ritual do axexê só pode ser dimensionado em sua riqueza simbólica ao se considerar que corresponde à dessacralização de um corpo que havia sido consagrado aos orixás nos rituais de iniciação. A feitura de orixá, nome dado comumente ao conjunto de rituais iniciáticos, sacraliza o corpo e individualiza a pessoa a partir da relação estabelecida com a divindade à qual é consagrada. A morte do corpo físico exige que esse processo seja desfeito, para que a energia do morto possa retornar ao todo primordial desapegada daquilo que a individualizara na vida terrena.
Entendido, portanto, como um rito de passagem da essência da pessoa, agora pura energia, para a outra dimensão da existência, no mundo espiritual, o axexê se compõe de procedimentos para além do funeral. Enquanto as cerimônias deste visam atender às transformações do corpo físico, os ritos posteriores que constituem um axexê referem-se à transformação espiritual já em curso.
Quanto mais importante para sua comunidade religiosa for a pessoa falecida, mais vínculos terão de ser cortados, pois tudo ou quase tudo existente nos lugares onde viveu o morto passou por suas mãos e recebeu o seu axé, que não vai se diluir ou desaparecer, mas se integrar à força de seus antepassados e sua comunidade.
Assim, após o sepultamento do corpo, realizam-se os ritos finais, comumente dirigidos pelo sacerdote ou pela sacerdotisa que provisoriamente detém a liderança da comunidade. Essa pessoa e seus assistentes, às vezes de outras casas, entoam os cânticos ritmados, segundo a tradição das diversas nações, pela batida surda de abanos especiais, nas bocas de jarros de barro bojudos, chamados “porrões”, cheios de água, num som cavo, que evoca vozes sobrenaturais. No candomblé jeje, junto aos “porrões”, chamados zelim (de zènli, na língua fon, significando “boca da jarra”), são utilizados outros instrumentos chamados sirrum (de sinhun, “tambores d’água”), que consistem em meias cabaças invertidas sobre uma gamela com água e percutidos com baguetes. Por extensão, zelim e sirrum designam os rituais funerários. [2]
No último dia, quando são despachados os objetos pessoais do defunto, cada um dos presentes ao axexê recebe, no punho esquerdo, o fio de palha da costa que simboliza não só o luto, como a proteção contra a morte[1]. Ver ÊGUM.
[1] SANTOS, Juana Elbein dos. Os nagô e a morte. 14ª ed: Petrópolis, Vozes, 2012, p. 266-269
[2] PARÉS, Luis Nicolau. A formação do candomblé. Campinas, Editora Unicamp, 2006, p. 166.