Muçurumin

culturaReligiosidade e Espiritualidade

Linha de culto afro-brasileiro resultante de mescla entre práticas das religiões tradicionais africanas com elementos do islamismo, usualmente mencionada como “Lei de muçurumim”. Sua denominação provém do hauçá musulmi, “muçulmano”. 

Definida a partir da Bahia, foi também conhecida na cidade do Rio de Janeiro, na Primeira República, tendo sido registrada principalmente pelo jornalista e escritor carioca João do Rio (1881-1921), que refere como práticas religiosas do grupo a leitura do Alcorão, a higienização de partes do corpo antes de cada uma das orações diárias, o uso do teçubá, espécie de rosário de contas, a prática do jejum e o uso de cumprimentos rituais universais, da praxe muçulmana. 

Na Bahia, onde são referidos como “ossurumins”[1], alguns remanescentes dos legendários malês se destacaram pela utilização do oráculo Ifá, privativo dos babalaôs. Ficaram conhecidos por suas artes mágicas ou mandingas, como escrever versículos do Alcorão numa tábua de madeira, lavando-a depois com água que acreditavam infundir virtudes poderosas a quem a bebesse[2]. 

Da mesma forma, no Rio de Janeiro, sacerdotes como Henrique Assumano Mina do Brasil, o “Assumano” (c. 1880-1933), João Alabá (f. 1926), Cipriano Abedé (1832-1933), Tio Sanin, entre outros, atuavam ritualisticamente dentro da “Lei de Muçurumim”. Todavia, na Bahia, o termo era usado para identificar a nação de alguns terreiros já desaparecidos, sobre os quais pouco se sabe. Na cidade de Cachoeira, a memória oral lembra o culto muçurumim associado ao candomblé funerário, em que se dançava com um caixão na cabeça[3].

[1] MONTEIRO, Antônio. Notas sobre negros malês na Bahia: Salvador, BA: Ed. Ianamá, 1987

[2] RAMOS, Arthur. O negro brasileiro: etnografia religiosa e psicanálise. 2 ed. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 1988 [1934], p. 64.

[3] PARÉS, Luís Nicolau. A formação do candomblé: história e tradição da nação jeje na Bahia. Campinas. Ed. Unicamp, 2006, p. 180.

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