Nanã
Importante divindade feminina cujo culto foi difundido pelos povos jejes, especialmente os mahis, vizinhos do antigo reino Daomé, e que ganhou expansão diaspórica no ambiente do candomblé jeje-nagô, do tambor de mina, do xangô e da umbanda, chegando também a Cuba, Haiti, São Domingos e Trinidad-Tobago [1]. Seu nome é redução de Nanã Burucu.
A morada de Nanã é o fundo dos lagos, localização pela qual, na mitologia, é associada à lama com que Obatalá moldou o ser humano [2]. Por isso, a água parada dos lagos e a lama dos pântanos, de onde tudo se originou, traduzem sua maior representação simbólica, já que se associam ao princípio da fertilidade. Assim, concebida pela tradição nagô-ketu como um dos padrões da maternidade, idosa e respeitável, Nanã é cultuada como a mãe do orixá Obaluaiê. Associa-se, por exemplo, à proibição de sacrifícios de animais com instrumentos de ferro cortantes, em consonância com a delicadeza que emana e com sua antiguidade, provavelmente anterior à descoberta da metalurgia. Da mesma forma, sua dança, executada por seus filhos ou filhas em transe, traduz-se em gestos de alguém que se desloca lentamente, de punhos fechados um sobre o outro como se segurasse um bastão.
Segundo Pierre Verger, Nanã, representada pelas leves cores branca e azul claro, tem como padrão comportamental a calma, a prudência, a dignidade e a gentileza. Cumpre seus deveres com a lentidão cuidadosa de quem dispõe, por sua condição divina, de toda a eternidade para concluir seus afazeres, com segurança e justiça [3].
Quando se manifesta, Nanã, apesar de sua difusão daomeana, é saudada com a expressão saluba, do iorubá sáàlùba ríkà, “muito obrigado”. Ou celebrada, também em iorubá, como Nanã Iêuá Ê (Nana yèyé wa), “Nanã, nossa mãe”. Contudo, Nanã é o termo respeitoso que os ashantis empregam para as pessoas de idade, sugerindo uma complexa dinâmica histórica de migrações dos seus cultos, assim como de interações com os cultos de Obaluaiê, Omolu e Xapanã, numa vasta área que vai da regiões nupé e iorubá, na atual Nigéria, até o rio Volta, na fronteira do Gana (região Ashanti) [4]. Ver JEJE.
[1] BOLÍVAR ARÓSTEGUI, Natalia: PORRAS POTTS, Valentina. Orisha Ayé: unidad mítica del Caribe al Brasil. Guadalajara: Ed. Ponton, 1996.
[2] PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 567.
[3] VERGER, Pierre. Orixás. 1997, p. 240.
[4] VERGER, Pierre. Notas sobre o culto aos orixás e voduns na Bahia de Todos os Santos, no Brasil, e na antiga Costa dos Escravos, na África. São Paulo: Edusp, 1999, p. 239-40, 252, 257-59, 272, 274, 278.