Ogã

culturaReligiosidade e Espiritualidade

Na hierarquia do candomblé, título masculino conferido ao membro efetivo da comunidade de culto que assume prerrogativas e deveres bem definidos, do ponto de vista tanto religioso como político-social. A denominação tem origem no iorubá ògá, pessoa proeminente, chefe, patrão, compartilhando a raiz de gãn, de mesmo significado, na língua fon. 

A ação de diversos ogãs como mediadores de conflitos entre praticantes de candomblé e demais membros da comunidade  foi e permanece sendo decisiva para a aceitação da religião pela sociedade. Segundo Braga, em alguns círculos sociais baianos o título passou a ser visto como “um bem simbólico de extrema importância para afirmação pessoal”[1]. 

Além de atuar como protetor da comunidade, o titular desse posto também desempenha tarefas rituais, daí a necessidade de ser convenientemente instruído. O primeiro passo é sua indicação por uma divindade incorporada em um(a) filho(a) de santo ou pela liderança da comunidade. A seguir, ele é “suspenso” ou “levantado” (alusão à forma como se manifesta a escolha, com o eleito sendo literalmente erguido no ar), num momento festivo. A partir de então, cumpre os ritos de iniciação para depois, em um dia previamente marcado e em meio a uma festividade, ser “confirmado” publicamente, assumindo o cargo em diversas especialidades, de cantor e tocador dos atabaques (alabê; onilu) a executor dos sacrifícios (axogum) etc. 

Cabe-lhe, sobretudo, a condição de conselheiro e protetor, com direito a ocupar uma cadeira especialíssima nas festas e a ser chamado de “pai” por iaôs e demais membros da comunidade. A relação de proximidade com a liderança depende de alguns aspectos, como tempo da iniciação do ogã, faixa etária, domínio da ritualística, reconhecimento pela comunidade, prestígio social. Todos esses aspectos contribuem para a harmonia da relação hierárquica, ainda que pais e mães de santo tenham pleno governo sobre as decisões religiosas e até mesmo civis sobre o grupo.

Nos candomblés de matriz banta, os ogãs são nomeados Tata (pai). Esse título está também relacionado a cargos conferidos aos homens que não são afetados pela possessão do inquice, e sua escolha ocorre da maneira descrita. Entretanto, nos candomblés Angola, há um acréscimo de poder em função de sua organização heterárquica: várias entidades podem eleger vários Tata, e a organização do terreiro se modifica de acordo com essas escolhas. Kissikarangoma são responsáveis por cuidar das Ngomas (atabaques) e tocá-las, Tata Jinsabasão incumbidos das Nsaba (folhas e vegetação do terreiro), Tata Ngana Lubito  são encarregados das chaves e dos cuidados prediais do terreiro, entre outros.

 

[1] Cf. BRAGA, Julio. A cadeira de ogã e outros ensaios. Rio de Janeiro: Pallas Editora, 1999, p. 53.

 

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